Joris Lacoste
Bio
Joris Lacoste (1973) vive e trabalha em Paris. Escreve para teatro e rádio desde 1996 e produz as suas próprias peças desde 2003. Criou 9 lyriques pour actrice et caisse claire (2005), com Stephanie Béghain e Purgatoire no Théâtre National de la Colline (2007), onde foi autor associado. De 2007 a 2009 foi codiretor do Laboratoires d’Aubervilliers.
Recorrendo à literatura, teatro, artes visuais, música e poesia sonora, a sua obra possui uma forte dimensão de investigação. Criou dois projetos coletivos: W (desde 2003, em colaboração com Jeanne Revel) com o qual estuda a ação em representação e produziu os Jogos W; e a Encyclopédie de la parole (2007), no qual um grupo de artistas, académicos e curadores tem vindo a colecionar todo o tipo de gravações orais em todas a línguas possíveis, estruturando-as de acordo com características como cadência, melodia, natureza coral ou tónica. A partir desta coleção, destilam uma série de projetos artísticos muito diversos, que vão de exposições a jogos, passando por palestras e espetáculos, tais como, a peça Parlement (2009) e, a partir de 2013, a série Suites Chorales. Interessa-se pelos usos artísticos da hipnose explorando um terreno de atividade ao qual chamou de “hipnografia”, do qual surgiu a peça Le vrai spectacle, apresentada em Paris no Festival Outono de 2011 e no Centro Pompidou, em 2012, assim como a exposição 12 rêves préparés apresentada na galeria gb agengy.
Folha de Sala
Suite n°1 ‘ABC’ religava-nos à aprendizagem da língua. Suite n°2 interessa-se pelas palavras que têm uma ação direta e eficaz sobre a realidade: falar para fazer. O que é que procura exatamente nessa passagem à ação da palavra?
Suite n°1 era para mim uma introdução à série das Suites Chorales da Encyclopédie de la Parole: queria fazer um ABC das palavras comuns através de muitas situações diversas. Para Suite n°2 o desafio é entrar no drama, isto é, etimologicamente, na ação. Fazer com que as palavras do mundo sejam ouvidas, palavras que fazem coisas, palavras “performativas” que agem sobre o real. Pensei que podia ser desafiante do ponto de vista teatral construir a partir delas um espetáculo de ação que assentasse inteiramente nas vozes. Uma peça onde os acontecimentos teriam lugar na palavra e por via da própria palavra: declarações de amor ou de guerra, de rupturas, veredictos, ameaças, exultações, orações, todo o tipo de crises.
Se pensarmos em toda esta proliferação de vídeos, de discursos e mensagens gravadas à nossa volta, chegamos à conclusão de que a palavra nunca teve tanto poder no mundo como tem hoje, e que ela está a concorrer diretamente com a escrita. O que interessa é fazer ouvir não apenas as palavras que dizemos mas também a maneira como as dizemos.
Que método utilizam para escolher e gravar os registos que pretendem reproduzir em palco?
Há oito anos que, com a Encyclopédie, desenterramos e colecionamos registos de palavras de todo o tipo que nos parecem remarcáveis por esta ou aquela razão. Temos centenas de arquivos no nosso site. Quando começamos a trabalhar numa nova peça, eu defino os arcos de pesquisa segundo determinados critérios e fazemos uma primeira seleção coletiva, bastante ampla, de documentos. Depois escolhemos os que farão parte da peça. Diria que os documentos se impõe numa mistura de acaso, intuição e obstinação. Queremos encontrar palavras que encerrem em si mesmas uma espécie de perfeição, que se aguentem isoladas do contexto no qual surgiram. Há que ouvi-las até termos a sensação de as compreendermos intimamente. Assim que algumas delas se impõem como potenciais personagens, convidamo-las a entrar no espetáculo, damos-lhes um papel, um corpo, um parceiro. Ouvimo-las dialogar com outras palavras, diagnosticamos simpatias, contrastes, acordos, dissonâncias, promovemos encontros e, a dada altura, elas começam a responder e a contar, juntas, alguma coisa de particular.
Como fazem para permitir a coexistência de palavras tão diferentes em termos de língua, situação, registo e cultura?
Fascina-me a ideia de que neste momento na China, na Colômbia ou noutros sítios as pessoas vivem, agem, jantam em família, participam em reuniões, brigam, falam com o cão, rezam, vendem touros, fazem amor, lutam pela sobrevivência. Tento, regularmente – e é um exercício espiritual que eu aconselho vivamente -, imaginar o maior número de coisas possíveis que acontecem simultaneamente em vários pontos do mundo.
Para mim, a grande questão desta peça é: como proporcionar a coexistência de diferentes planos da realidade? Adoro os filmes de Johan van der Keuken, construídos como um passeio cuja lógica exata nos escapa mas nos quais confiamos. A sua arte de edição ajudou-me a compreender como chegar à coabitação de palavras tão diversas. Não estou interessado na mera produção de choques, de contrastes, de desordem; o caos não me fascina mais do que a ordem. O que me atrai, nesta era do multitasking, é o processo de harmonização: como é que a nossa mente consegue lidar com toda a informação díspar que recebe quotidianamente e como é que consegue, em vez de sucumbir à depressão, inventar novos tipos de acessórios, novas estruturas formais, novas possibilidades de sentido. É sobretudo uma questão de ponto de vista. Já está lá tudo! As palavras existem no mundo, o meu trabalho é encontrar a perspetiva segundo a qual o real nos será revelado nessa estranha harmonia que o torna possível.
entrevista realizada durante o Festival d’Automne à Paris
Menores 30 anos: 5€
em várias línguas com legendas em português e inglês
Alkantara Festival
Sinopse
Suite nº2 orquestra as palavras que têm impacto no mundo – cada uma à sua maneira. Palavras que são ação. Palavras que fazem bem e palavras que amedrontam. Palavras que lutam, sofrem, esperam, se revoltam, se certificam, que dançam e que fazem amor. Palavras que reclamam piedade e que rejeitam. Palavras dadas, palavras mantidas, palavras traídas. Palavras em crise. Palavras endividadas, em pânico e em luta. Todas essas palavras são reais: todas elas foram pronunciadas algures no mundo e depois recolhidas pela Encyclopédie de la Parole, uma coleção de gravações orais em diversas línguas, estruturada de acordo com a sua cadência, melodia e natureza coral ou tónica. Encontram-se pela primeira vez neste espetáculo, pela mão de um quinteto de excelentes intérpretes (entre eles o português Nuno Lucas), compostas por Joris Lacoste e harmonizadas pelo compositor Pierre-Yves Macé. Suite nº 2 marca o regresso de Joris Lacoste e da Encyclopédie de la Parole com um espetáculo polifónico, depois do impressionante coral uníssono de Suite n°1: ABC, que abriu o Alkantara Festival em 2014.

