Vasco Mendonça, Kris Verdonck, Dimitri Verhulst, Lod Muziektheater e Orquestra Gulbenkian
Utopias
Bios
Dimitri Verhulst (1972) escreveu a sua primeira recolha de contos, De Kamer Hiernaast [O quarto ao lado], em 1999, uma obra que foi imediatamente nomeada para o Prémio NCR. Dois anos depois, publicou a recolha de poesia Liefde, Tenzij Anders Vermeld [Amor, salvo indicação em contrário] e o romance Niets, Niemand en Redelijk Stil [Nada, ninguém e razoavelmente silencioso]. O seu talento multifacetado tornou-se mais óbvio quando publicou dois livros controversos e muito diferentes em 2006: Mevrouw Verona Daalt de Heuvel Af [A senhora Verona desce da colina], uma fábula terna sobre o amor, e De Helaasheid der Dingen [Os desafortunados], uma ode sensível e um ajuste de contas hilariante com a aldeia da sua juventude. Felix Van Groeningen fez um filme a partir de De Helaasheid der Dingen em 2009, que foi o concorrente belga aos Óscares em 2010. Em 2008, Verhulst foi galardoado com o Prémio Literário Libris por Godverdomse Dagen op een Godverdomse Bol [Malditos dias num maldito globo]. O júri descreveu o livro como “uma comédia sardónica em que o homem é o objeto direto e, ao mesmo tempo, um exercício de estilo sem precedentes.”
Vasco Mendonça (1977) é um compositor português. Estudou com Klaas de Vries na Holanda e com George Benjamin na Grã-Bretanha. Hoje em dia, o seu trabalho é interpretado por toda a Europa, e recebeu vários prémios internacionais (incluindo o ROLEX Mentor and Protégé Arts Initiative). O seu primeiro êxito internacional ocorreu há dois anos com a ópera The House Taken Over (2013), no Festival de Aix-en-Provence. Foi uma coprodução entre o festival e o LOD muziekthater (Gent). O espetáculo, baseado num conto de Julio Cortázar, é sobre um irmão e uma irmã que levam vidas completamente isoladas e de cuja casa se apoderam poderes sobrenaturais. A música evocativa e atmosférica, muitas vezes ameaçadora, funciona como catalisador para a história e mostra a grande afinidade do compositor com o drama musical. Mendonça também é capaz de escrever para vozes de um modo que é ao mesmo tempo entusiasmante e natural.
Kris Verdonck (1974) estudou artes visuais, arquitetura e teatro, e esta formação é manifesta no seu trabalho. As suas criações posicionam-se na zona de trânsito entre as artes visuais e o teatro, entre a instalação e a performance, entre a dança e a arquitetura. Enquanto alguém que faz teatro e é artista visual, tem atrás de si uma ampla variedade de projetos. Encenou produções teatrais e produziu diversas instalações, a.o. 5 (2003), Catching Whales Is Easy (2004), II (2005). Os primeiros STILLS, que consistiam em projeções gigantescas, foram encomendados por La Notte Bianca, em Roma. Em 2007, criou a instalação teatral I/II/III/IIII e, em 2008, END estreou no Kunstenfestivaldesarts em Bruxelas. Verdonck apresenta muitas vezes combinações de diferentes instalações/ performances como VARIATIONS.
Asko|Schönberg, destacado ensemble para nova música, interpreta música dos séculos XX e XXI numa variedade de contextos. A música que tocam vem não apenas de grandes nomes já estabelecidos como Andriessen, Gubaidulina, Boulez, Kurtág, Ligeti e Stockhausen, mas também inclui novos trabalhos da geração mais nova. E os fundadores da música do século XX também estão bem representados: de Weill a Schönberg e de Stravinsky a Messiaen. Dedicam especial atenção a relações e cooperações de longo-prazo com compositores maiores e importantes, bem como a obras desconhecidas e novíssimas de alta qualidade. Graças a estas muitas formas de colaboração intensiva, os músicos são altamente especializados em interpretar música nova. O ensemble tem um grande número de alianças ativas com companhias de teatro e de ópera, bem como com teatros de ópera, em que conseguem colocar na ribalta a versatilidade da paleta musical contemporânea.
Damien Pass chegou à Europa como solista do Atelier Lyrique na Opéra de Paris de 2009 a 2012, com quem cantou Lúcifer em La Resurrezione de Handel, Don Inigo em L’heure espagnole de Ravel, Frank Maurrant em Street Scene de Weill, Lucas em Les troqueurs de Dauvergne e o Marquese na Mirandolina de Martis. Com a Opéra de Paris, cantou Hermann em Les contes d’Hoffmann, Zuàne em La Gioconda, Zweiter Nazarener em Salomé, der Journalist em Lulu, e l’Ami em La chute de la maison Usher, de Debussy, na Opéra Bastille. Outras participações incluem: Golaud em Pelléas et Mélisande (Festival Les Journées de Ravel) e Barbe-bleue em Ariane et Barbe-bleue de Dukas (Opéra de Dijon). O baixo-barítono australiano formou-se na Yale School of Music e no Oberlin Conservatory, e recebeu vários prémios, incluindo o prémio lírico da AROP da Opéra de Paris em 2012, o primeiro prémio de canto no concurso internacional de canto-piano Lili and Nadia Boulanger em 2011 e, no mesmo ano, foi laureado do prémio HSBC do Festival de Aix-en-Provence.
Marion Tassou nasceu em Nantes e formou-se em 2008 pelo Conservatoire National Supérieur de Musique de Lyon. Interessa-se por todos os repertórios, do barroco à música contemporânea. No palco de ópera, participou em produções de Le Carnaval et la Folie de Destouches (Vénus), Orfeo ed Eurydice (Euridice), Don Giovanni (Zerlina), Die Zauberflöte (Pamina), Die verkaufte Braut (Marienka), La vie Parisienne (Pauline), Pierrot Lunaire de Schönberg e Dialogues des Carmélites (Blanche de La Force). Em 2013/14 foi membro da Académie da Opéra Comique em Paris. Os destaques no palco de ópera durante a época 2014/15 são Idomeneo (Ilia) em Montpellier e L’Autre hiver, uma estreia mundial de Dominique Pauwels em Mons. Subiu recentemente ao palco em concerto sob a batuta de François-Xavier Roth, Alexis Kossenko e Jean-Christophe Spinosi.
Rodrigo Ferreira fez formação no Advanced Programme for Young Vocalists em Paris, criado por Laurence Equilbey, antes de se especializar com Christine Patard. Depois de se tornar laureado HSBC da Academia Internacional do Festival Aix-en-Provence, foi o substituto para o papel de Aymar na produção de Oscar Bianchi e Joël Pommerat de Thanks to my eyes, e depois, em 2012, na produção Written on skin, de George Benjamin. Regressou ao Festival de Aix-en-Provence em 2013 para interpretar Peritoo na Elena de Cavalli, regida por Leonardo García Alarcón. Durante a época 2012-13, criou dois papéis: o papel que dá o título à ópera Re Orso de Marco Stroppa, com o Ensemble Intercontemporain, regida por Susanna Mälkki e encenada por Richard Brunel na Opéra Comique em Paris, e o papel de Albin no Claude de Thierry Escaich e Robert Badinter, Opéra de Lyon, regida por Jérémie Rhorer e encenada por Olivier Py. Desde 2006, tem participado em numerosos espetáculos de dança e teatro com artistas como Eric Durand e a sua companhia Le Théâtre Décomposé, Tatiana Julien e a sua companhia C’Interscribo e, mais recentemente, com o coreógrafo Robyn Orlin.
LOD muziektheater é uma companhia de produção de ópera e teatro musical sediada em Gent, uma base para criadores nas artes performativas. Está empenhada em mapear trajetórias de longo-prazo: com compositores como Kris Defoort, Vasco Mendonça e Thomas Smetryns, e com os encenadores Josse De Pauw e Inne Goris. Além disso, mantemo-nos abertos àqueles que – sempre de forma surpreendente, mas nunca por acaso – se cruzam no nosso percurso artístico. A nossa companhia pretende ser uma plataforma abrangente para estes artistas, e oferecer-lhes os recursos para desenvolverem as suas ideias. Há já 25 anos que começámos a criar produções que com frequência acabam por ditar tendências para a cena da ópera e do teatro musical contemporâneos. Os resultados destas parcerias artísticas não são fáceis de categorizar, e produzem uma impressão duradoura. LOD concentra-se resolutamente naquilo que está para vir, entre outras coisas através da nossa dedicação aos jovens talentos. Estamos a trabalhar no futuro do teatro musical através da European Network of Opera Academies (enoa). LOD muziektheater, uma companhia internacional de produção e um lugar de criação – uma perspectiva sobre o mundo. Feita em Gent.
A Orquestra Gulbenkian foi fundada em 1962. Inicialmente constituída por 12 músicos, conta hoje com um efetivo de sessenta e seis instrumentistas, número que pode ser aumentado de acordo com os programas executados. Esta constituição permite-lhe tocar um amplo repertório, desde o Classicismo à Música Contemporânea. Em cada temporada, a Orquestra Gulbenkian realiza no Grande Auditório uma série regular de concertos, colaborando com alguns dos mais reputados maestros e intérpretes. Ao longo de mais de cinquenta anos distinguiu-se também em muitas das principais salas de concertos do mundo e gravou vários discos que receberam importantes prémios internacionais. Susanna Mälkki é Maestrina Convidada Principal e Joana Carneiro e Pedro Neves são Maestros Convidados. Claudio Scimone, titular entre 1979 e 1986, é Maestro Honorário, e Lawrence Foster, titular entre 2002 e 2013, foi nomeado Maestro Emérito.
Folha de Sala
Texto 1
Bosch no século XXI
Kristof van Baarle
Hieronymus Bosch é um dos pintores mais misteriosos na história da arte nos Países Baixos. Por ocasião do 500º aniversário da sua morte, LOD junta o compositor Vasco Mendonça, o escritor Dimitri Verhulst e o encenador Kris Verdonck para fazerem uma produção de teatro musical baseada na obra de Bosch. Os seus quadros são conhecidos pelas criaturas peculiares em cenários bizarros. As cenas, muitas vezes sinistras, como em O Jardim das Delícias Terrenas e O Juízo Final, combinam um julgamento severo em relação ao pecado com a vida quotidiana da época de Bosch. Enquanto cristão devoto no dealbar do humanismo, via comportamentos sexuais ilícitos, ganância, gula, estupidez, violência e vaidade a toda a sua volta, e então decidiu que o inferno era na terra. As personagens nos seus quadros estão empaladas, semidevoradas, correm nuas por entre incêndios e encontram-se num mundo onde os pássaros são do tamanho de pessoas e as árvores têm olhos. No entanto, estas figuras não estão a sofrer – será isto um sintoma da sua ignorância, ou da sua escolha de viver assim?
Em Bosch Beach, a ideia do inferno na terra é tomada como ponto de partida para uma visão sobre o mundo de hoje através dos olhos de Bosch. Como seria o inferno hoje? Talvez fosse como o autor de ficção científica J.G Ballard tantas vezes o descreveu: um mundo com a pequena-burguesia espraiada à beira de uma piscina, comprazendo-se na inércia da sociedade de consumo, com uma orquestra residente a tocar em pano de fundo. No tempo de Bosch, havia a noção de “Falso Paraíso”. As pessoas vivem naquilo que, à primeira vista, parece ser “o melhor dos mundos possíveis”, mas visto de outra perspetiva este falso paraíso não é muito diferente do inferno na terra.
Onde está o falso paraíso dos nossos dias, o nosso inferno na terra? Onde é que a moralidade e a responsabilidade fazem um apelo à humanidade? Verdonck opta pela praia de Lampedusa, um lugar lindíssimo, onde os turistas tomam banhos de sol e nadam no mar cristalino das praias de areia branca. Tomando banhos de sol nas praias esplêndidas de Lampedusa enquanto refugiados dão à costa, esse poderia ser o inferno na terra do século XXI.
Bosch Beach joga com a ambiguidade deste lugar e com as impossíveis questões de culpa que traz consigo. Confrontados com o fluxo de refugiados, não só em Lampedusa, mas agora também em Calais, Kos, Macedónia e por aí adiante, há um forte apelo moral. Será que devemos cuidar destas pessoas? Para além desta questão, o problema da responsabilidade pela situação global é ainda mais complexo. Não seremos nós, no Ocidente rico, os responsáveis pela pobreza e pelas guerras em África? Não mantemos nós o nosso estilo de vida à custa dos padrões de vida e da estabilidade noutros continentes? E, neste caso, será que podemos e devemos sentir-nos responsáveis enquanto indivíduos? E em consequência disso, como deveríamos então agir?
(…)
Texto 2
Bosch’s Beach – com uma piscadela de olho a Hieronymus Bosch
Uma entrevista com Kris Verdonck e Vasco Mendonça
Este projeto de teatro musical enquadra-se no contexto do 500 aniversário da morte do pintor Hieronymus Bosch, em 2016. Como é que vocês os dois e o Dimitri Verhulst (libreto) se juntaram?
MENDONÇA: Como sabes, eu não sou o compositor mais “radical”. Então pensei que seria interessante colaborar com alguém que pudesse abordar diferentes disciplinas para a mise-en-scène, que não fosse um encenador de ópera tradicional, mas que pudesse trazer uma abordagem fresca. É isso que Bosch pede. E encontrei-o no trabalho do Kris.
VERDONCK: Esta vai ser a minha primeira ópera, e estou muito entusiasmado. Interessa-me a mecânica deste médium, o modo como funciona em palco. A ópera é uma coisa estranha, sabes. A música clássica leva-te imediatamente para um mundo abstrato onde as pessoas comunicam através do canto. Por que raio é que uma pessoa havia de cantar? (Sorri.) Mas o médium existe, as questões estão lá, e é fascinante quando tudo se conjuga no final.
Os quadros de Bosch estão povoados com todo o tipo de objetos estranhos: criaturas que são meio-humanas, meio-animais, máquinas esquisitas… Muitas vezes fazia trípticos, em que os painéis da esquerda e da direita representam o céu e o inferno puros. Mas é este bizarro mundo intermediário que me interessa. Que lugar é esse, entre a realidade e a imaginação? Isto cria uma ligação muito bonita com o teatro enquanto máquina de sonhos em que no meio estão estes atores, meio mortos, meio reais. Outro aspeto fascinante em Bosch é que as personagens nos quadros não estão de facto a sofrer, apesar de isso ser o que se espera. Estão a ser cozinhadas numa panela mas têm um grande sorriso estampado no rosto. Estão a ser fodidos por estranhos animais mas até gostam. Há um equilíbrio muito difícil entre real e irreal, entre surrealismo e horror real, entre o imaginativo e o autêntico. O teatro, a dança e a ópera são bons meios para transmitir o estado de existência nos mundos intermediários de Bosch.
MENDONÇA: De facto, quando pensas numa realidade falsa, num mundo onde tens de fechar os olhos por um instante para fazer parte dele, isso é a ópera. A ópera precisa de uma suspensão da descrença.
Há um grande mistério quanto aos motivos de Bosch: as pessoas pensavam que ele era louco, um mito urbano diz que era viciado em drogas, outros vêem-no como um católico devoto e temente a Deus que queria avisar os seus compatriotas do Juízo Final. O que pensam que está em jogo na obra dele?
VERDONCK: Em primeiro lugar, a obra dele é muito medieval e hermética. Para um ser humano moderno, muitas das suas portas estão fechadas: não conhecemos as expressões – se é que ele trabalhava com expressões –, nem sequer sabemos onde estão metade dos quadros dele, e se são genuinamente dele. Tenho a sensação de que a oposição básica nos seus quadros é entre cultura e natureza. O que é selvagem e o que é civilizado? O que poderá ser a civilização, no meio de todos estes horrores medievais que determinavam o ambiente de Bosch: a peste, a fome, a violência, o genocídio… Li algures que nesse período odiavam as pessoas que não tinham emprego. Os pedintes eram considerados seres humanos nojentos, e o mesmo valia para os pobres, os deficientes, os escravos, os refugiados, etc. Portanto há uma enorme questão de civilização presente de forma latente na obra dele, e que ecoa muitos problemas que enfrentamos hoje. Também penso que a troça é um enorme tema para Bosch – a personagem do bufão, que é tão difícil de compreender. Será ele o diabo, a rir-se da realidade? Será a realidade que se ri dele? A obra de Bosch coloca estas questões, e é difícil mas muito fascinante tentar compreender o estado de espírito de Bosch. Será que ele era mesmo assim tão religioso? Os quadros dele eram menos vendidos a igrejas do que a ricos, que os penduravam nas suas casas. Só podemos tentar adivinhar a sua verdadeira relação com a igreja. Sim, ele pintou os sete pecados mortais e a crucificação de Cristo. Mas quem nos diz que não o fez para evitar ser castigado por sabe deus qual rei ou rainha? Desta perspetiva da troça, há uma forte noção de felicidade nos seus quadros. Dão-nos qualquer coisa de que podemos rir. Trata-se de humor, de um modo aterrorizador.
MENDONÇA: São coreografias, enormes flash mobs de horror. Claro que as pessoas na idade das trevas tinham uma relação completamente diferente com a morte. A morte era só mais uma etapa na vida, uma coisa que tinha o seu lugar na sociedade e na memória coletiva – basta pensar no género da ars moriendi. De qualquer modo, é importante não esquecer duas coisas quando lidamos com a obra dele. Em primeiro lugar, a idade das trevas era “uma época simples” no sentido em que as coisas tinham de ser explicadas visualmente ao público, em grande medida analfabeto. Os quadros medievais eram muitas vezes auxílios visuais para o comportamento moral – mesmo que sejam muito literais ou representem apenas a cruz de Cristo. A retórica de Bosch, as figuras que ele usa no seu discurso visual, são nesse sentido muito singulares. Numa altura em que pessoas como Van Eyck estão a seguir pelo realismo, Bosch não tem medo de se manter fiel à sua distorção aumentada da realidade, ao seu expressionismo louco, o que na verdade é muito moderno, se olharmos com os olhos do século XXI. O papel de um ser humano nesses tempos era quase nulo. Portanto o facto de ele ter uma noção de individualidade enquanto artista – apesar de eu não saber se era uma estratégia consciente ou não – é bastante invulgar. Isso cria uma ligação mais direta com o ser humano por trás do pintor, uma coisa que me interessa sempre.
O libreto de Dimitri Verhulst coloca a questão da essência da humanidade e o seu entrelaçamento com o pecado e a culpa. Será que estas noções ainda determinam as pessoas hoje em dia? Um pecado supõe uma certa autoridade “contra” a qual pecar, mas que autoridade seria esta numa era de individualismo liberal em que a esfera religiosa – pelo menos – no Ocidente se desmoronou?
MENDONÇA: Infelizmente, acho que estas noções estão de regresso à nossa sociedade de um modo bastante retorcido. Politicamente falando, vê-se que hoje em dia na Europa se prega uma conduta moral que ainda está enraizada num discurso católico. Claro que a nossa civilização progrediu, passámos pela Revolução Francesa e habitámos os seus ideais de igualdade, liberdade e emancipação. Mas agora há uma nova entidade que governa as nossas vidas e o nosso comportamento, um novo conjunto de opressões, misteriosamente chamada “os mercados”. Ninguém consegue compreender totalmente este sistema, mas no fim de contas deve haver pessoas a carregar em botões, algures. Há objetivamente pessoas que morrem em resultado disso. Deixamos velhinhas pobres morrer de frio na Grécia porque, durante anos e anos, o governo se endividou. A maneira como lidamos com isto não é uma questão económica mas uma escolha ética, e essas escolhas estão a ser feitas todos os dias. Às vezes sinto que estamos a evoluir na direção de uma “segunda idade das trevas esclarecida”. Mas de qualquer modo não acho que a natureza humana seja assim tão bonita.
VERDONCK: É certo que a questão da moralidade, da culpa e do pecado são grandes temas para o nosso amigo Bosch. Mas há uma energia interessante na maneira como ele ao mesmo tempo se ri com elas. Há um quadro em que ele mostra como as pessoas estão a sofrer sob leis morais, ao mesmo tempo que critica e troça desse sistema. Bosch é sombrio à séria, disso não há dúvida. Nem sequer consigo imaginar o mundo em que ele vivia e a quantidade de violência à volta dele. Desse ponto de vista, a sua autocrítica pode ser libertadora, e o seu humor pode até ser esperançoso.
em colaboração com Gulbenkian Música

