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We Need To Talk Roger Bernat Informações sobre o Evento
06 → 07 Jun 2016
Datas e Horários
segunda e terça ↣ 16h às 24h (sessão contínua)
Preço
Entrada livre (sujeita à lotação) mediante levantamento de bilhete na bilheteira do Cinema São Jorge, a partir das 13h
Classificação
M/16
Local
Cinema São Jorge
Informação Adicional

Instalação/Performance
Alkantara Festival/Festas de Lisboa 2016

Performance coprodução mm

We Need To Talk
Roger Bernat

Folha de Sala

Folha de Sala

O CASAL, CANCRO DA COLETIVIDADE, de Roberto Fratini

  1. Ainda que a definição do casal como cancro ou doença primitiva do corpo da coletividade não seja minha (mas sim um produto do vosso maldoso capricho de distorcer as minhas afirmações mais inocentes), não deixa de ser eloquente: sem essa doença não haveria corpo coletivo, pela simples razão de que não haveria corpo coletivo sem a principal das consequências orgânicas dos casais, ou seja, os rebentos (que, sendo a doença-exceção-consequência da doença-exceção-consequência que casal é em si, representam desde sempre o estado de saúde-aceitação-reincidência daquilo que existe fora do casal). A prova disto é que a perspectiva da maternidade ou da paternidade tem sido, ao longo dos séculos, a conjuntura crucial em que qualquer casal se viu obrigado a “regularizar” a sua situação. O matrimónio (que etimologicamente significa “dom da maternidade”) é, neste aspeto, não só a tumba do amor, mas também o produto de milénios de luta institucional para tornar institucionalmente rentável e diurna a noite escura, a espessura genital, o escandaloso excedente do casal.

 

  1. Porquê doença? Porque o casal articula em si uma exceção radical ao conjunto de normas, aparelhos e dispositivos que regem e alimentam a imagem da coletividade tal como a coletividade gosta de a cultivar. Em certo sentido, pode-se imaginar que a noite de Eros – “coisa de dois” – tenha sido e continue a ser, em qualquer contexto, o exato interface noturno de uma versão diurna de convivência como “assunto de pelo menos 3” (valores, leis, costumes). Por isso mesmo, note-se, a Urszene, a “cena que nos precede” – a mamã e o papá a foder à maluca – é tipicamente a “coisa de dois” que só incidentalmente passa a ser “coisa de dois mais um imprevisto, que devia estar a dormir mas se introduziu furtivamente na cama”. Imaginemos, não sem perversão, que a coletividade seja essa criança que se esgueirou para o quarto dos pais enquanto eles fodiam.

 

  1. Não há nenhuma contradição entre esta ideia de uma clandestinidade estrutural do casal e o facto de, hoje em dia, ter um parceiro e partilhar livremente com amigos, conhecidos e desconhecidos as vicissitudes da própria vida sexual se terem tornado fatores imprescindíveis de integração na coletividade; na realidade, esta SOCIALIZAÇÃO DO SEXUAL é também o segredo do seu tremor terminal, da sua secreta extinção. O facto de vivermos na idade mais pornográfica e pélvica da história da cultura é apenas um reflexo dessa socialização. VIVEMOS NA IDADE MAIS PORNOGRÁFICA PORQUE VIVEMOS NA IDADE MENOS SEXUALIZADA DE TODAS. O triunfo da pornografia, se pensarmos bem, é a forma mais extrema, mais radical, mais terminal (mais moderna) de inscrição ou absorção do casal nos dispositivos através dos quais a coletividade produz e enovela os seus próprios devaneios precisamente porque inscreve no espaço da visibilidade espetacular qualquer protocolo de intimidade que se pudesse imaginar antes da era da pornografia.

 

  1. Pensem bem: antigamente o consumo de cinema porno possuía traços absolutamente misteriosos. No cinema porno, estávamos sozinhos e ao mesmo tempo acompanhados por uma pequena e vergonhosa fração de coletividade “saída” (o “sair” é realmente emblemático de uma exceção dinâmica, de um “estar incluído pela própria exclusão”). O cinema porno era, nesse sentido, o estado de exceção do cinema enquanto dispositivo generalíssimo da vida coletiva (o coletivo sonhando-se coletivamente). Era bastante natural que a privatização da experiência cinematográfica (VHS, DVD, Blu-Ray, streaming, etc.) fosse acompanhada por uma privatização paralela da “sub-experiência” cinematográfica que era o ato de ir ao cinema porno. Lembrem-se que, ao contrário de uma sala de cinema “normal” (caixa negra de difusão de um sonho que a coletividade veio a assumir como um opiáceo para não agir), a sala tradicional de cinema porno era o lugar de uma passagem ao ato (os homens costumavam ir ao cinema para foder com outros homens nas casas-de-banho, nas escadas, nos corredores): isto é, de uma substancial subversão da economia de desejo implantada pelo dispositivo cinematográfico; um lugar, literalmente, de “poluição” (a dissipação estéril do sémen como ato de contaminação ou intoxicação do espaço coletivo).

 

  1. Não há nada que expresse com maior eficácia o poder histórico do casal de se subtrair às regras do dispositivo do que a típica cena (ainda era um marco nos anos 80, isto é, no princípio do fim) do casal de namorados que acorre a um qualquer cinema para se sentar na última fila e passar a projeção aos beijos, heavy pettings, carícias, apalpões, suores e gozos. O casal escolhe o cinema porque é um lugar escuro, e escolhe-o NÃO PARA VER MAS PARA NÃO SER VISTO enquanto é mais selvagemente, clandestinamente casal.

 

  1. Poderemos dizer que este antigo parentesco com o desaparecimento faz parte do potencial insurrecional do casal sexual? Poderemos dizer que, durante alguns séculos, o casal constituiu esse espaço de desaparecimento que a coletividade temeu com todas as suas forças e que se tornou um “dano coletivo” (o desaparecimento das massas) no momento em que as massas deram os primeiros passos em matéria de sexualização da história e da política? (O fascismo é precisamente essa sexualização do sociopolítico, que o sociopolítico realiza, atualmente, por outras vias e de modo diversamente eficaz, com resultados com eficácia variável, resumindo-se nele não a partir da retórica do coletivo coeso mas sim a partir da retórica psi do indivíduo libertado).

 

  1. Lembrem-se sempre da lição de Lacan: a ideia de “relação sexual” é absurda em si, porque se é sexual não é uma relação, e se é uma relação não é sexual. Em suma, podemos ser o casal mais democrático, mais moderno e mais igualitário do mundo, mas na cama trata-me como uma puta ou eu morro de tédio; entre os lençóis somos todos um bocadinho fascistas. Se o tivéssemos aceitado a tempo, teríamos evitado mais facilmente ser fascistas onde era preciso evitá-lo.

 

  1. Resumindo, a razão para o casal ser uma “coisa de dois” é que esta é também a medida mínima de segurança que lhe permite ser um delicioso inferno de irracionalidade, injustiça, desigualdade, afasia e falta de argumentos SEM comportar uma desagregação geral das estruturas de convivência da espécie. Um mais um é demais mas não é suficiente. Toda a sexualidade do casal depende desta constatação instintiva de que o outro ou a outra é uma célula enlouquecida do coletivo que eu posso profanar nas latrinas invisíveis dos valores oficiais. Também não se trata simplesmente de sexo e dos seus abismos. A relação é sexual na medida em que se subtrai às normas que os seus próprios membros proclamariam e defenderiam em voz alta perante a coletividade. Quando discutimos aos gritos porque tu não aceitaste razoavelmente lavar os pratos, já abandonámos o relacional para entrar no sexual (casais que fodem pouco discutem muito; é outro meio para alcançar o mesmo resultado, que é a entusiasmante liberdade de se faltar ao respeito). Debord estava consciente disto quando, em Panégyrique, descreveu a sua vida privada, a sua vida em casal, a sua rotina doméstica como formas de uma clandestinidade completamente paradoxal quando lida à luz da luta política.

 

  1. Lembrem-se de Romeu e Julieta. É possível que o casal de namorados obrigados a esconder o seu amor louco num mundo injusto seja também o emblema do cinismo estrutural próprio de qualquer casal sexual: a conspiração dos amantes contra a ordem estabelecida. As maravilhosas temperaturas retóricas da comunicação entre Romeu e Julieta não são senão este musicalizar da eloquência amorosa, que tende desesperadamente para a afasia, o balbuceio, o arquejo simétrico do sexo (que é quando NINGUÉM NOS OUVE PORQUE DIZEMOS COISAS INAUDITAS, E DIZEMOS COISAS INAUDITAS PORQUE NINGUÉM NOS OUVE): uma zona de indiferenciação, de esbatimento, de esfumação ou evaporação da linguagem que desempenha, na linguagem dos casais, a mesma função que o PIXELADO nas imagens pornográficas quando são transmitidas na televisão (em suma, quando são transmitidas a um “público”): um fazer-se mancha do mundo.

 

  1. Desta fantasmagoria (a mancha em movimento, a massa glutinosa de sombra e cor), a coletividade (e a imagem da coletividade) emerge como que de um sonho molhado, excitante e aterrador. Neste aspeto, não há nenhuma contradição entre o conto de fadas que defende que o casal é a unidade básica da coletividade (e que a trabalhadora ama o trabalhador tanto como ama o partido) e a ideia (de Bataille, de Lacan) de que o casal é fundamentalmente a toxicidade de que qualquer programa de coletividade se tem de curar, por fusão ou por absorção (ou seja, conglobando-a ou reeducando-a): é que, muito simplesmente, o coletivo se faz por “definição”, em todos os sentidos, do sexual: fixando os limites do casal; acabando com os seus excessos “sexuais” pelo cuidado angelicamente assexuado de uma criança; “definindo” os seus pixéis.

 

  1. Alguma vez pensaram na incrível semelhança que pode haver entre a imagem aérea de uma massa reunida e desorganizada (estádio, concerto, manifestação) e a imagem pixelada de um coito? Alguma vez pensaram na incrível semelhança entre o ruído ensurdecedor de uma massa reunida e o ronronar histérico dos amantes rebolando entre lençóis? Não haverá uma incrível semelhança entre a estranha lucidez do casal que emerge do seu coito (ou seja, do seu momento “sexual”) com a pergunta “relacional” por excelência (“Foi bom para ti? Gostaste?”) e a estranha lucidez da coletividade ao despertar do seu devaneio de longa duração (segundo Benjamin) quando se apercebe pela primeira vez de que, enquanto sonhava dentro dos dispositivos designados (galerias, centros comerciais, cinemas), alguém a estava a foder e ela gostava? Foder significa estar temporariamente fora do tempo (isto é, tão SINCRONIZADO com o tempo presente que o seu significado histórico fica completamente neutralizado): a coletividade que sonha é igualmente a coletividade cuja sincronia com o seu tempo é tão incrivelmente exata que lhe é completamente impossível saber que aquilo que está a viver se chama história, e que irá provavelmente pagar um preço, amanhã ao acordar, por se ter deixado foder pelo presente sem preservativo num arroubo de paixão; por ter dado eficazmente a sua voz a uma queca cujo guião já estava escrito por outros.
06 → 07 Jun 2016
Datas e Horários
segunda e terça ↣ 16h às 24h (sessão contínua)
Preço
Entrada livre (sujeita à lotação) mediante levantamento de bilhete na bilheteira do Cinema São Jorge, a partir das 13h
Classificação
M/16
Local
Cinema São Jorge
Informação Adicional

Instalação/Performance
Alkantara Festival/Festas de Lisboa 2016

Sinopse

Esta instalação/performance pega nas palavras dos amantes e explora o turbilhão de nuvens perversas e irracionais que lançam uma sombra coletiva sobre todas as histórias de amor. De portas fechadas, os amantes dizem coisas que não ousariam repetir a ninguém. O cinema ofereceu-nos vislumbres deste espaço invisível. Envolvendo o público na dobragem de cenas de amor retiradas de filmes de todos os períodos, seguimos os passos do cinema para criar uma paródia carnavalesca, onde valores, leis e costumes são postos de lado enquanto vamos disfrutando da excitante liberdade sexual de simplesmente fazer seja o que for que nos apeteça.

Roger Bernat estudou pintura, arquitetura e teatro. Desde 2008, cria performances nas quais o público sobe ao palco e se torna o protagonista: “Os espectadores passam por um dispositivo que os convida a obedecer ou a conspirar e, em qualquer dos casos, a pagar com os seus próprios corpos e a comprometerem-se”.

Ficha Artística

conceção:
Roger Bernat

dramaturgia:
Roberto Fratini

coordenação técnica:
Txalo Toloza

sonorização:
Noel Palazzo

aplicação:
Jordi Rosa e Daniel Cecilia

documentação:
Noel Palazzo e Arturo Bastón

masterização sonora:
Cristobal Saavedra

assessor jurídico:
Carmenchu Buganza

coordenação:
Helena Febrés Fraylich

produção:
Elèctrica Produccions

coprodução:
Temporada Alra e Maria Matos Teatro Municipal

crédito fotográfico:
DR

Apoios

 

 

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