De Warme Winkel
“There’s no such thing as society”
Folha de Sala
ABAIXO A UNIFORMIDADE
Entrevista a De Warme Winkel, por Lene Van Langenhove
novembro de 2013
De Warme Winkel é frequentemente descrito como um conjunto de fazedores de teatro altamente originais, com um estilo energético e uma imaginação desenfreada. Nas suas produções, conteúdo e forma costumam fazer um pacto diabólico. Pergunto-me se isso também se aplicará à sua última criação, We are your friends. Mesmo a uma semana da estreia, como é costume, ainda estão a afinar o espetáculo, mas isso não os impede de disponibilizar tempo para uma entrevista.
Dizem não estar interessados no repertório clássico ou numa abordagem realista no teatro. Nesse caso, o que devemos esperar?
Analisamos sempre como é que nos relacionamos, pessoalmente, com um tema e, a partir daí, esperamos dizer algo de universal. Em termos de forma, estamos sempre à procura de novas formas de narrar. O conceito de We are your friends é que somos uma companhia de teatro que se interroga como é que se pode mostrar mais solidariedade. A nossa solução permite-nos poupar dinheiro, que depois investimos na cultura local. Não acreditamos num governo com um órgão central que toma decisões para a Europa toda.
Então, We are your friends é um apelo ao local?
Sim, de alguma maneira e entre outras coisas. Achamos que se deve conhecer melhor a cultura própria. O local é o futuro. No entanto, a dado momento, isso também se inverte. O nosso objetivo não é, seguramente, encontrar uma resposta inequívoca. Em última instância, queremos mais do que isso.
Porque é que estão tão interessados na Europa e na crise?
Na verdade, o nosso ponto de partida foi a solidariedade e se esta está ou não a desaparecer na Europa. Tomamos como exemplo evidente a solidariedade entre países mais fortes e mais fracos. Quando é que países como a Grécia ou Portugal fazem parte da família, quando é que é tudo apenas uma questão de mercado? Deve-se ajudá-los ou, simplesmente, abandoná-los? Se um padeiro partir a perna, vai-se a outra padaria? Mas é também sobre solidariedade entre gerações. O envelhecimento da população na Europa também é uma questão muito importante. É justo que os jovens carreguem o fardo dos mais velhos, apesar de eles próprios, provavelmente, não virem a ter reforma? É sobre solidariedade a muitos níveis. Achámos que esta seria uma boa maneira de abordar o que se passa na Europa.
Passaram de trabalhos baseados numa certa história para o aqui e agora?
Pode-se dizer que De Warme Winkel segue dois caminhos. Por vezes, trabalhamos em peças sobre a obra de um artista em particular e tentamos ler tudo o que ele escreveu e destilar a sua essência. O outro caminho tem uma ligação mais direta com a atualidade. Por exemplo, criámos um espetáculo sobre a crise, chamado San Francisco [apresentado pelo Teatro Maria Matos em julho de 2013], e Luitenantenduetten era sobre a questão dos subsídios à arte. We are your friends encaixa-se neste segundo caminho.
Como é que De Warme Winkel começou a trabalhar numa peça como We are your friends?
Muito ocasionalmente, temos um conceito mais desenvolvido, como em San Francisco, mas normalmente trabalhamos de forma associativa em torno de um tema e inventamos muitas intervenções possíveis. Trabalhamos simultaneamente no conceito e no conteúdo e lemos coisas em voz alta; de modo que, desde o início, a criação ‘mão na massa’ e a discussão à mesa andam de mãos dadas.
Como é que estas ideias se traduzem em palco?
Começámos com intervenções sobre a solidariedade na Europa, um tema muito importante e altamente polémico. Durante os ensaios, o tema centrava-se cada vez mais nas pessoas e nas abordagens entre elas. Até então, tínhamos trabalhado com base na abundância mas, como estamos sempre a tentar reinventar-nos, despimos completamente aquela forma fria e digital até à essência. Nesse sentido, está a tornar-se cada vez mais austero. O sentimento do espetáculo torna-se muito solitário e severo. Testamos até onde podemos levar este sentimento de mal-estar e levamo-lo a extremos. É sobre pessoas que já não conseguem ver a diferença entre boas intenções e realmente fazer algo de bom; acho que é algo verdadeiramente característico do nosso tempo.
Tem esperança no futuro da Europa?
Isso continua a ser uma questão difícil. Em Villa Europa, a nossa peça sobre Stefan Zweig — cujo maior sonho era uma Europa unida espiritualmente — tentámos identificar futuros possíveis. Não existe uma resposta única, mas eu, seguramente, não considero que se deva amassar a diversidade que a Europa sempre conheceu numa uniformidade suave. Acho que não ia funcionar.
Menores de 30 anos 5€
Sinopse
O coletivo De Warme Winkel é a nova companhia fetiche do teatro holandês. Os seus espetáculos esgotam invariavelmente, a imprensa usa palavras como “surpreendente”, “comovente” ou “maravilhoso” e a companhia está pelo terceiro ano consecutivo representada na lista das dez melhores encenações do ano.
Depois de apresentar em Lisboa, no âmbito dos Dias da Transição, as contradições do sistema financeiro em San Francisco, os holandeses De Warme Winkel voltam a falar-nos da crise e das suas repercussões no Velho Continente. Este coletivo adora a História e tem uma fascinação pelo nosso tempo complexo e polimorfo. Nesta obra política e poética que analisa os sintomas duma Europa doente, joga-se com diferentes estilos e formas, com clichés e com o público e as suas expetativas.
“Criámos a peça por encomenda de um grupo de teatros de Praga, Bruxelas, Toulouse, Berlim, Amesterdão e Lisboa (inseridos na rede House on Fire), mas não sabemos qual o país que mais merece a nossa empatia (e rating AAA). Vamos mostrar a nossa solidariedade e testar a vossa, tentando descobrir o prazo de validade da Europa que conhecemos”.

