Marco Martins
Folha de Sala
O Corpo e o Espaço
“The Mirror is nothing because it does not exist without something to reflect. So I assigned to this absence of content the numerical value of zero and decided to divide the mirror in half, to make it reflect itself through its double. By means of this division I began to multiply the mirror. In this way the two progenitor mirrors can be reproduced ad infinitum.”
Michelangelo Pistoletto in The Third Paradise
Influenciado pelo trabalho teórico sobre o espelho e consequentes conceitos de divisão e multiplicação desenvolvido ao longo das últimas décadas pelo artista plástico Michelangelo Pistoletto, imaginei este espectáculo com a dupla de coreógrafos Sofia Dias e Vítor Roriz como um projeto multidisciplinar que se constituísse como uma reflexão conjunta sobre as temáticas da relação do indivíduo com o mundo exterior, do privado com o espaço público.
A construção da primeira “caixa” e a imagem de um corpo comprimido num espaço fechado, ou aberto, nasce na perspetiva de criar um elemento cénico que se constituísse como ponto de partida para as primeiras improvisações de Two Maybe More. Essa “caixa” de madeira (protótipo que fomos modificando ao longo do tempo de ensaios) por vezes fechada, por vezes com uma pequena abertura que nos recorda uma pequena janela, tornou-se assim num ponto de encontro agregador do nosso trabalho e elemento central para uma reflexão que confronta o indivíduo com uma sociedade de contornos abstratos, expandindo o seu universo relacional. A linguagem coreográfica quase “doméstica”, feita de gestos quotidianos e complexos jogos linguísticos, de Vítor e Sofia, é aqui confrontada para um espaço de compressão em diálogo com os restantes intérpretes. A utilização do coro surge então, não na sua “tradicional” função de intérpretes musicais, mas como parte do próprio trabalho coreográfico.
Um percurso feito de diferentes estados físicos que podem ser ordenados por caixas que nos remetem para imagens abstractas de casas, prédios grandes e pequenas cidades, em infinitos jogos arquitetónicos e coreográficos.
“Arte ou técnica de projetar e edificar o ambiente habitado pelo ser humano”
definição de Arquitetura in Dicionário de Língua Portuguesa, Porto Editora
Um jogo quase lúdico e obsessivo de organização do espaço interior e exterior numa espécie de arquitectura cénica, fabricada pelos dois intérpretes, na procura de formas de organização do corpo no espaço. Como uma criança que brinca com Kapla, a disposição dos elementos conduz a diferentes tipos de atividade e experiência dos corpos, criando o percurso do espectáculo, feito de diferentes estados físicos e organizações sociais do espaço.
Foi a partir do material coreográfico e linguístico criado nas improvisações fragmentadas de Vítor e Sofia (em conjunto com os elementos do coro), habitando e manipulando a cenografia de Artur Pinheiro, que surgiram os restantes materiais – os textos de Gonçalo M. Tavares como a expressão da vida de cada um dos habitantes daquelas caixas identificados por números e a música de Pedro Moreira com uma espécie de partitura emocional das mesmas – que contribuíram para a criação do corpo do espectáculo. Linguagens que se foram contaminando e influenciando reciprocamente numa colaboração que não foi mais do que uma pesquisa e exploração conjunta. A ironia interrogativa do título pretende assim expressar não só o desafio que foi lançado a estes dois coreógrafos, no sentido de uma partilha da sua linguagem com um universo alargado de intérpretes e autores, mas também apontar para uma possibilidade real de colaboração artística.
Marco Martins
De resto, de vez em quando, um mortal toca noutro
um mortal toca noutro e quem está de fora chama a isso salvação, desejo ou agressão.
Mas o corpo, de facto, não ocupa muito espaço quando morto – e quando vivo tem a ilusão de que pode correr e até saltar e até ficar por ali nesse estado mais ou menos inquieto, mas não. Tudo o que é essencial acontece no exato comprimento e largura de um corpo.
No fundo, insistir: tudo o que é importante acontece em pouco espaço. O corpo abre os braços e depois fecha-os. Abre e fecha olhos. As pernas podem andar, muito ou pouco, mas depois param. As caixas são, portanto, formas de nos centrarmos no essencial.
Nunca se morre em grandes espaços, por exemplo. A morte é uma coisa minúscula. Mesmo quem morre no grande deserto morre no corpo e este é sempre o oposto do largo e complicado mundo, é simples, modesto e pequeno; uma coisa que respira e come e fala e, depois, a partir de um certo momento, já não respira e já não come e já não fala.
No fundo, temos medo e está escuro, e nunca nos aproximaríamos dos outros se o ponto de partida não fosse já esta derrota. De resto, de vez em quando, um mortal toca noutro e quem está de fora chama a isso salvação, desejo ou agressão.
Gonçalo M. Tavares
Menores de 30 anos 5€
Sinopse
Two Maybe More, a nova criação de Marco Martins para o Teatro Maria Matos, parte do encontro dos coreógrafos Sofia Dias & Vítor Roriz com o Coro Gulbenkian. Colaborando com o compositor Pedro Moreira (uma encomenda da Fundação Gulbenkian) e o escritor Gonçalo M. Tavares, estas duas entidades saem da sua zona de conforto para disputar a terra de ninguém entre as suas práticas distintas, jogando os pequenos gestos quotidianos dos coreógrafos contra os grandes movimentos do coro. Entre harmonia e tensão, encontramo-nos de repente numa das disputas mais veementes da atualidade: a disputa entre o individual e o comum.
Marco Martins movimenta-se entre o cinema e o teatro. Conhecido pelos filmes Alice e How to draw a perfect circle, também é autor de uma série de espetáculos assinaláveis, entre os quais Estaleiros, criado com um grupo de 16 trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, e o excelente Rosencrantz & Guildenstern estão mortos.