Tiago Rodrigues/Mundo Perfeito
Bios
Folha de Sala
Três dedos abaixo do joelho
Como medida para o comprimento mínimo de uma saia, três dedos abaixo do joelho parece uma indicação relativamente arbitrária, mas também clara. Desenha-se uma linha horizontal na perna da actriz: acima não, abaixo sim. Outras linhas se traçaram nos textos que passaram pela Comissão de Exame e Classificação de Espectáculos: um círculo à volta das palavras “a sua nudez”, um risco por baixo da frase “O porco! Não existe!” aplicada a Deus, uma constelação de X ao longo de um sketch sobre a “liberdade de pressão”.
Uma linha muito clara separa também o texto de um relatório da Comissão e o texto de uma peça de teatro. O que este espetáculo faz não é tanto diluir essa fronteira — e ela esteve lá, no trabalho de montagem, copy-paste, que fez o Tiago Rodrigues — mas, mais precisamente, torná-la invisível. Um censor escreveu que “Não deve ser percetível ao público qualquer corte”, o Tiago Rodrigues segue essa instrução: pega na frase, apaga-lhe as aspas (e com elas autor, data, contexto), cola-a a outras. Não deixa de haver um lado “informativo” ou “documental” em relação ao que foi a censura de teatro em Portugal, mas ao tratar o material escrito pelo Padre Teodoro da mesma maneira que o Othello — encenando os relatórios dos censores, intercalando-os com obras de teatro mais ou menos famosas — este espectáculo usa sobretudo os mecanismos que pode haver num palco para melhor tornar visível a violência da operação da censura e da sua burocracia, para dar dela uma imagem.
E se às vezes, enquanto público, damos por nós sem saber muito bem distinguir entre a maneira de pensar dos censores (no regime fascista) e a nossa (ou a da nossa época) — porque compreendemos, porque reconhecemos, porque nos rimos — é que atravessar uma fronteira contém sempre uma promessa e um perigo. Este espetáculo corre o risco de dar golpes (três dedos) abaixo da cintura para tentar pensar o teatro, por confiar no seu poder.
Joana Frazão, maio 2012
Menores de 30 anos 5€
Sessão comemorativa dos 40 anos do 25 abril 1974 • Entrada livre (sujeita lotação à sala) mediante levantamento prévio de bilhete a partir das 15h
Sinopse
Vencedor do Prémio Autor da SPA para Melhor Espetáculo de Teatro de 2012
Vencedor do Globo de Ouro para Melhor Espetáculo de Teatro de 2012
Escolhido pelo jornal Público como um dos melhores espetáculos de 2012
Nomeação para Prémio Autor SPA para Melhor Texto Português Representado
Nomeação para Globo de Ouro para Melhor Atriz de Teatro
Estreado no Teatro Nacional D. Maria II, no âmbito do alkantara festival, Três dedos abaixo do joelho foi já apresentado em diversas cidades portuguesas, assim como em Helsínquia, Roterdão, Bruxelas, Modena, Paris e Dublin. Esta peça nasce duma visita à Torre do Tombo para consultar o arquivo da censura do teatro durante a ditadura salazarista. Aí estão não só milhares de manuscritos de peças censuradas ou proibidas, mas também os relatórios escritos pelos próprios censores onde explicam os cortes ou proibições de textos e encenações.
A ironia por trás de Três dedos abaixo do joelho é que transforma os censores em dramaturgos, usando os seus relatórios como o texto do espetáculo. Um censor escreveu que “nenhum corte deve ser percetível ao público” e esta peça seguiu à risca essa instrução. Destruindo as fronteiras entre as palavras de Shakespeare ou as de um censor, Três dedos abaixo do joelho usa o teatro para revelar o pensamento por trás dos mecanismos da censura e transforma o legado daqueles que oprimiram a liberdade artística e política num instrumento em que se aponta o que é perigoso e importante no teatro. O Mundo Perfeito chama-lhe “uma doce vingança.”
Ao longo de 5 semanas o Teatro Maria Matos apresenta um vasto programa de espetáculos que assinala o décimo aniversário da mala voadora e do Mundo Perfeito. Não há aniversário sem festa e, a convite do Teatro, as duas companhias juntam-se para organizar uma maratona artística que servirá também para assinalar os 44 anos do Teatro Maria Matos.