Forced Entertainment
Folha de Sala
Dois Futuros
Aqui, no futuro, olho para trás, para um projeto fotográfico que eu e o Hugo Glendinning fizemos, há dez anos, intitulado Looking Forwards [Olhar o Futuro]. Convidámos meia dúzia de indivíduos, para se sentarem e lhes tirarmos o retrato, enquanto pensavam no futuro, pedindo-lhes, depois, para se identificarem como otimistas ou pessimistas.
Olhando para as fotografias, as pessoas nelas retratadas parecem duplamente longínquas; o estado contemplativo da pose para a fotografia e a passagem do tempo desde que as fotografias foram tiradas, de algum modo, conjugam-se, para multiplicar a distância. Seja como for, há qualquer coisa de terno e generoso na presença desses pensadores-do-futuro; talvez seja porque esta forma de pensar, em privado (ou de tentar pensar em privado), gera tanta tensão com a exigência de se arranjar ou atuar perante a câmara. São retratados enquanto tentam estar noutro sítio, em vez de tentarem lá estar, lá atrás, no passado, comigo e com o Hugo e com a câmara. Ou talvez seja porque, sentados ali, no passado, estão, de qualquer modo, a pensar neles próprios em direção a nós, aqui, no futuro, arranjando-se e antecipando este momento. De qualquer modo, circula em torno destas imagens uma energia dinâmica, feita de dobras e circuitos de tempo. Empurrando e puxando para a frente e para trás. O que é que irá acontecer? O que é que aconteceu? O que é que virá? O que é que já chegou?
Voltando a atentar em Looking Forwards, também estou a pensar num projeto muito mais atual — a performance Tomorrow’s Parties — que fiz e dirigi com os Forced Entertainment e a que assistirão nesta noite. Tomorrow’s Parties é também uma tentativa de pensar acerca do futuro, embora, neste caso, o jogo de adivinhação de Looking Forwards — interpretar corpos e rostos silenciosos e fotografados à procura de pistas — se tenha tornado numa tentativa pública e lúdica de pôr o futuro em palavras. Dois intérpretes sobem ao palco e inventariam o maior número possível de versões do futuro — de idílios utópicos sem trabalho a zonas de desastre pós-tecnológico, de paraísos socialistas e democracias que respeitam a diferença a centros comerciais globais e ditaduras brutais de robôs. Passando de cenários de ficção científica e fantasias mal-amanhadas do que está para vir, para os terrores e sonhos familiares que nos chegam diariamente através das notícias, a performance muda de pontos de vista, pesando as várias histórias que contamos a nós próprios de para onde nos estaremos a dirigir.
No centro deste jogo, temos a oportunidade de ver os dois intérpretes muito claramente, momento a momento, alternando-se, competindo, gracejando um com o outro, superando-se um ao outro e, por vezes, apoiando-se um ao outro. Como as pessoas que fotografámos em Looking Forwards, os intérpretes não são especialistas no futuro, nem o estudam. Em vez disso, como o resto de nós, são amadores interessados, com um interesse sério mas algo interesseiro. Humanos cuja existência quotidiana está intrinsecamente presa à rede e ao fluxo de narrativas maiores — científicas e políticas, banais e “maiores do que a vida” — que marcam o globo, umas vezes transformando as coisas lentamente, outras vezes mudando as coisas repentinamente.
Esperamos que desfrutem da performance.
Tim Etchells
Diretor Artístico dos Forced Entertainment
Menores 30 anos: 5€
Sinopse
Com dois atores a partilhar um palco de 120 x 80 cm, Tomorrow’s Parties é um espetáculo pequeno, mas não deixa de ser uma das grandes peças de Forced Entertainment. Duas personagens estão num palco improvisado, debaixo da luz colorida de uma qualquer feira popular em declínio. Especulam sobre o que o amanhã pode trazer, imaginando diversos futuros hipotéticos. Em conjunto ou competindo entre si, constroem pequenas narrativas de otimismo e desespero, exploram visões utópicas e distópicas, traçam enredos de ficção científica e lançam fantasias absurdas, num olhar delicioso sobre os medos e esperanças que habitam o futuro.
Desde a formação da companhia em 1984, Forced Entertainment tem-se confirmado como pioneira do teatro contemporâneo inglês. As suas criações, orientadas pelo diretor artístico Tim Etchells, são singulares, provocadoras e encantadoras, rompendo com as convenções do teatro e as expetativas dos espectadores.