Sinopse
Crepúsculo e Insónia, o primeiro e o último álbum de Tiago Sousa, não terão estes nomes fruto do acaso. Denotam uma particular atracção pela indefinição, pela ambiguidade, como se as regras vigentes pudessem ser alteradas a qualquer momento, criando uma ilusão momentânea de que habitamos algo de novo e único. São espaços temporários, estados fronteira ou zonas limites, pequenos territórios francos onde leis ganham novas interpretações. Insónia, composto em 2009 com João Correia, foi exemplar nesse aspecto: pequenos e longos exercícios socalcados entre a folk contemporânea e uma atracção platónica pela composição erudita, com uma janela amplamente aberta para intromissões de outros géneros e inspirações. O espírito contestatário de Henry David Thoreau é uma das recentes inspirações e influências de Tiago Sousa: The Walden Pond’s Monk, a primeira peça a apresentar esta noite, num novo e ambicioso arranjo para piano, percussão, clarinete, violoncelo e teclados, procura circular livremente em torno da vida e obra do escritor americano. Samsara, a segunda peça, em estreia absoluta, ilumina-se pelo conceito hindu do ciclo da vida e da morte. As duas peças expõem o jovem compositor, músico autodidacta e ex-editor da Merzbau como um eloquente maestro impressionista de histórias, sugestões e ambientes.
“Há alusões à música clássica contemporânea, ao jazz, ou mais remotamente, a formatos pop mais livres, mas o que sobressai no conjunto, independentemente das escolas onde se inspira é o apuro formal na construção dos ambientes nocturnos e o libertar de melodias emocionantes tocadas com enorme simplicidade. É música de respiração interior, mas que não se f echa na sua redoma, procurando o espaço de partilha.”
Vítor Belanciano, Público, Novembro 2009