Hotel Modern e Arthur Sauer
Folha de Sala
A Primeira Guerra Mundial em direto
Entrevista a Hotel Modern & Arthur Sauer por Julie Cadilhac para a BSC NEWS
Arlene Hoornweg e Pauline Kalker, artistas holandeses, fundaram em 1997 a companhia Hotel Modern. Um ano mais tarde, acolheram um novo parceiro, Herman Helle. Juntos, imaginaram uma forma única de teatro e de cinema de animação em direto. The Great War, a sua primeira criação conjunta, tornou-se um grande sucesso internacional. Dão vida às paisagens da Frente Ocidental com pregos enferrujados, ramos de salsa e serradura, e há até um bombardeamento provocado por um bico de gás. As imagens filmadas e projetadas em direto são de um surpreendente realismo. Estes três artistas pediram a Arthur Sauer para imaginar uma banda sonora para acompanhar esta “narrativa viva” da Primeira Guerra Mundial. E assim surgiu Hotel Modern.
Herman Helle é um artista plástico de formação, que gradualmente se interessou pelas extraordinárias possibilidades que são geradas pela junção do vídeo e das vossas práticas artísticas. Poderia ser assim explicada a criação do colectivo Hotel Modern?
Arthur Sauer: Depois de concluir a Escola de Belas-Artes, Herman construiu maquetes para arquitetos e urbanistas. Tinha o hábito de usar objetos especiais e extraordinários para conceber as suas maquetes, como pincéis de barba para os arbustos, ou afias para contentores marítimos. Pauline e Arlène já tinham criado a companhia Hotel Modern e Pauline teve a ideia de usar as maquetes de Herman no teatro.
Arlène Hoornweg: Já tínhamos feito um primeiro espetáculo, City Now, uma criação sobre um dia e uma noite numa cidade. Os edifícios eram construídos com caixas grandes de cartão, pães e feijões faziam de carros e de autocarros. Utilizámos, entre outros, bananas e frascos de perfume para construir as personagens que viviam na cidade. Este espetáculo era feito sem câmaras. Herman só viu o poder evocativo deste dispositivo, pouco tempo depois, quando comprou uma câmara e a experimentou no seu estúdio, colocando-a à frente das suas maquetes. Surgiu assim a ideia de fazer um espetáculo sobre uma paisagem. O que deu origem a The Great War. Depois disto, temos utilizado esta forma, que chamamos “em direto”, em outras criações. A combinação de câmaras, modelos e marionetas dá-nos a oportunidade de contar histórias sobre milhares de pessoas, cidades, paisagens… Em suma, sobre a humanidade.
O Arthur Sauer é compositor. O que o fez querer participar neste projeto?
AS: O Herman perguntou-me se eu queria escrever algo para uma orquestra sinfónica para acompanhar as imagens ao vivo que ia fazer. Antes disso, só tinha feito uma experiência sonora com um piano para um filme a preto e branco, e fiquei triste por ninguém poder ver como os sons eram feitos. Também tinha feito um espetáculo musical baseado num texto de Witold Gombrowicz, History, que falava da Primeira e da Segunda Guerra Mundial. Durante a pesquisa li cartas muito impressionantes dos soldados da Primeira Guerra Mundial. Então, quando Herman me chamou, reuniram-se imediatamente muitas ideias. Disse a Herman que se ele ia fazer as imagens “em direto”, eu faria o som em palco, e, portanto, o conceito de animação ao vivo obteve a sua forma.
Quais são as diferentes fases de criação de um projeto deste tipo?
AS: Primeira etapa, a pesquisa. O que achei interessante é que a Primeira Guerra Mundial foi a primeira guerra tecnológica: aviões, submarinos, guerra química, metralhadoras, tanques, camuflagem. Cada uma destas tecnologias traz consigo o seu próprio som. Comecei a procurar registos feitos durante a Primeira Guerra Mundial. Uma das coisas que encontrei foi uma gravação do primeiro ataque com gás mostarda, feita pelo filho do proprietário da editora “His master’s voice”, que acabou por morrer durante o mesmo.
AH: Trabalhámos cerca de oito meses em The Great War. Desenvolvemos primeiro o conceito; o que também fizemos com o compositor Arthur Sauer. Depois o Herman teve a ideia de fazer uma paisagem em direto para a câmara, e da guerra mundial o tema; Arthur trouxe, entre outras, a ideia de sons ao vivo com animação ao vivo. Tivemos a ideia de usar as cartas dos soldados em voz off, desta forma tínhamos personagens no espetáculo com as quais nos pudéssemos identificar.
AS: A segunda etapa é pensar sobre o que fazer com o som. Eu queria misturar sons realistas com sons que eram claramente irrealistas (como cocos para as corridas de cavalo). Isto mancha a linha entre o real e o imaginário.
AH: A terceira etapa foi ir a alguns dos lugares onde a guerra se tinha passado. Há um casal holandês que escreveu um guia de viagem sobre esses lugares, e viajamos durante quatro dias. Depois regressámos com a intuição do que queríamos passar para palco. Descobrimos um café numa cidade belga, que tinha painéis de madeira com fotografias estereoscópicas que não tinham sido censuradas (ao contrário de todo o material documental que tínhamos visto antes). Uma das imagens era a de uma árvore despida numa paisagem árida, e um cavalo pendurado no topo de outra árvore. Essa imagem é utilizada (com um homem na árvore) no espetáculo. Em Champagne encontrámos granadas e sapatos de um soldado alemão. Fizemos uma grande investigação, fomos à Bélgica e ao norte de França para ver os restos da guerra e encontrar livros, cartas e fotografias. Os livros do historiador Lyn MacDonald, com entrevistas a veteranos também nos inspiraram bastante. Depois fizemos o cenário, passo a passo.
Por que queriam abordar o tema da Primeira Guerra Mundial? São apaixonados pela história? Pensam que é importante recordar memórias para nunca mais esquecer os erros do passado?
AH: A guerra tem um papel importante nas nossas vidas. Nós próprios nunca a experienciámos, mas os nossos pais, sim, todos de maneiras diferentes. Em The Great War queríamos mostrar o que é estar numa guerra e como é uma coisa terrível.
AS: Sou apaixonado por História. Acho que é interessante porque nos conta de onde viemos. Não penso que a história se repete em sentido literal, há sempre algum tipo de progresso, mas os homens são animais resistentes.
Quem escreveu o texto de The Great War? Nasceu ao mesmo tempo que “os trabalhos plásticos”? Ou a montante? Ou a jusante?
AH: Usámos várias fontes para os textos. Utilizámos cartas verdadeiras de um soldado chamado Prospert, que combateu na Primeira Guerra Mundial. Um amigo do Herman deu-nos um monte de cartas deste soldado que encontrou numa loja de antiguidades. Também nos inspirámos em entrevistas a antigos combatentes.
A vossa companhia ganhou muitos prémios. Como explicam esta adesão e entusiasmo pelo vosso conceito?
AS: Penso que isso tem a ver com o tema e também com a forma de como é trazido à vida (a animação é na verdade “a forma de o tornar vivo”), e o facto de o conceito ser fazer tudo ao vivo (o making off… e o filme juntos) é um princípio orientador que faz com que funcione como uma forma de arte.
AH: Acho que é a combinação da forma que usamos, que é única e as histórias que contamos, que são universais. Utilizamos uma forma aberta, convidamos as pessoas a vir ver, a abrirem-se e a serem surpreendidas. Na forma que utilizamos, não somos exaustivos, estamos sempre a jogar com a sugestão. Deixamos um espaço para o público usar a sua própria imaginação. O público fica muitas vezes tão surpreso que se comove com o nosso espetáculo, embora saiba que nós apenas utilizamos marionetas, salsa e uma cidade feita de papel ou pão, bananas e cocos.
inserido no FIMFA Lx15

