Cláudia Dias
Bios
Folha de Sala
sexta, 31 março → conversa após o espetáculo
José Goulão (jornalista), Gustavo Carneiro (Conselho Português para a Paz e Cooperação) e Cláudia Dias, numa conversa moderada por Jorge Louraço (dramaturgo, professor na ESMAE), vão falar da crise dos refugiados puxando o fio à meada, procurando a origem dos factos, retrocedendo passo a passo pelos caminhos onde foram deixadas pegadas de refugiados políticos, económicos ou ambientais, até encontrar o desastre climático, a fome ou a guerra, e, na origem destes infernos, os pecados mortais cometidos a sul e a oriente da Europa por homens, europeus, brancos — quase todos, mas não só.
Num tempo em que as linhas divisórias, as fronteiras, as barreiras, as linhas da frente e de mira dos conflitos bélicos, as fileiras e as linhas de identificação do drama dos refugiados, as linhas de respeito dos limites marítimos das nações, as linhas duras das fações radicais de organizações políticas e religiosas estão na ordem do dia, pretendemos trabalhar (n)uma linha unificadora, capaz de juntar o que se encontra separado.
Cláudia Dias
Terça-feira: Tudo o que é solido dissolve-se no ar é a segunda criação do projeto Sete Anos Sete Peças.
CITAÇÕES
de Jorge Louraço Figueira
- Siga atentamente as linhas e os traços destas letras no papel, antes de se transformarem em palavras. Tento fazer o mesmo. Se fizermos isso os dois, teremos tempo para uma troca de ideias, mesmo antes de começar o texto.
O subtítulo desta peça é uma citação do Manifesto Comunista, escrito por Marx e Engels, em 1848. A frase original está num parágrafo sobre o modo como o capitalismo destrói o que for preciso para perpetuar os lucros. Na tradução de José Barata Moura:
Tudo o que era dos estados e estável se volatiliza, tudo o que era sagrado é dessagrado, e os homens são por fim obrigados a encarar com olhos prosaicos a sua posição na vida, as suas ligações recíprocas.
A peça de Cláudia Dias alude a essa destruição, que alguns têm por criativa: a destruição de postos de trabalho, a destruição de casas, a destruição de vidas, a destruição do planeta. A vantagem é podermos ver os fios que nos unem.
Cláudia e Luca construíram uma narrativa visual, usando uma linha para contar a história de um menino de dez anos, cujos avôs foram expulsos primeiro da Palestina e depois do Líbano, que viaja desde a Síria até Itália. Em paralelo, criaram também uma narrativa sonora, com ruídos e barulhos deste caminho de fuga. Tudo isto, a que se acrescentam os corpos de ambos, é não-verbal, precisamente para escapar às ideias feitas. E o texto, em vez de ser posto na boca dos atores, para que se identifiquem falsamente com os refugiados, é projetado no cenário, para sublinhar a distância que separa uns dos outros.
No centenário da revolução russa, citar Marx e Engels devia ser corriqueiro. No teatro onde estreia esta peça — o Teatro Maria Matos, em Lisboa — decorre um ciclo programático sobre a utopia, que abarca a celebração dos 500 anos do livro de Thomas More e a comemoração da revolução de 1917. Parece o lugar mais apropriado. Como vem no manifesto, “já́ é tempo de os comunistas (…) contraporem à lenda do espectro do comunismo um manifesto do próprio partido.”
Então porque soa tão estranho — quase uma provocação — usar uma citação destas num espetáculo de dança? É muito melhor citar Marx e Engels do que citar, digamos, Lúcia, Jacinta e Francisco. Porém, aposto que é mais fácil citar, num espetáculo, com ou sem ironia, os três pastorinhos, que também fazem cem anos, do que Lenine, Trotsky e Estaline. Esta citação do subtítulo é mais de agit-prop do que de dança-teatro.
No seu estudo sobre o teatro épico no Brasil durante os anos imediatamente antes e depois do golpe de 1964, Iná Camargo Costa recapitula, sublinhando a respetiva relevância artística, cultural e política, a derrota dos movimentos de agit-prop na Rússia, na Alemanha, na França, no Reino Unido e nos EUA, às mãos tanto de estalinistas quanto de fascistas. O alcance realmente democrático daquela forma teatral era maior do que aquele que as elites e burocracias podiam tolerar. Hoje, o dito teatro político é consagrado em festivais internacionais e os recursos formais do agit-prop e do teatro épico usados pelos grupos e artistas mais conceituados.
Já o carácter popular desse teatro e a sua articulação com movimentos políticos não são tão claros. Talvez a maior dificuldade, hoje, para um artista, como a Cláudia Dias, que queira mudar as condições do discurso seja não o totalitarismo, mas a normalização das formas artísticas que ocorre nas presentes democracias, com os espetáculos funcionando como montra do comentário cultural, sem entrarem em contradição com a moda, a média e a mediana da ideologia vigente. A mesma Iná, citando Walter Benjamin, alerta para o risco de a luta política se tornar mais uma mercadoria, objeto de prazer em vez de vontade de decisão. Nesta montra, talvez a citação do Manifesto se engula melhor se passar como a coca-cola do slogan de Fernando Pessoa (primeiro estranha-se, depois entranha-se), tal qual um bem de consumo. Pensando bem… Talvez a frase “tudo o que é sólido dissolve-se no ar”, fora de contexto, possa ser adotado como sigla, tornando num lema o que era uma crítica. Não foi isso o que aconteceu com a expressão “indústria cultural”, cunhada com sentido crítico, mas generalizada como oportunidade empresarial?
As palavras contam, embora nem sempre como contamos. Cláudia e Luca usam fios como material de trabalho para desenhar o que veem e assim tornar visível o liame que nos une, uns aos outros, ainda antes das palavras se formarem. É nesse lugar para cá das palavras que estão as coisas.
- Siga distraidamente as palavras no papel, até que as letras se transformem em traços e linhas. Talvez haja espaço para ler outra coisa.
No Teatro Maria Matos, no início deste ano, no âmbito do tal ciclo da utopia, Alexei Yurchak, antropólogo, encerrou uma conferência, notável, sobre o fim da União Soviética, com a seguinte frase projetada na parede:
Soviet socialism provided a stunning example of how a dynamic, strong, monolithic social system can quite suddenly and unexpectedly implode when the discursive conditions of its own existence are changed. [O socialismo soviético forneceu um exemplo impressionante de como um sistema social dinâmico, forte e monolítico pode de repente e inesperadamente implodir quando as condições discursivas de sua própria existência são alteradas.]
A primeira pergunta que fizeram a Yurchak não foi diretamente sobre o fim da União Soviética, mas sobre se haveria alguma semelhança entre a mudança das condições do discurso ocorrida então e o atual momento do capitalismo mundial. Que esfera pública — a leitora pode escolher outro sólido geométrico se preferir facetar a metáfora — existe hoje? Que campos de debate se estão a formar nos últimos anos, desde a explosão da Internet? Quem está fora e quem está dentro da bolha?
Não escrevo de dentro da revolução, nem da ditadura, nem da guerra. Não estou antes da Glasnost, nem depois do PREC, nem durante a Guerra Civil Espanhola. Escrevo de dentro de uma dita democracia. É nesse lugar que este espetáculo se procura encontrar.
Dentro das democracias ocidentais, o apoio à austeridade, em favor do sistema financeiro, por parte dos partidos de direita-direita, direita, centro-direita, centro, centro-esquerda, e esquerda, abriu as portadas a todo o tipo de práticas segregacionistas. Só a esquerda-esquerda se opôs. Em todo o mundo, a desigualdade, a discriminação e as guerras civis afugentam diariamente milhares de pessoas. Qual é o tema deste espetáculo? No início deste século, refugiados vindos de terras que os europeus tinham colonizado até há muito pouco tempo e ainda subjugam indiretamente, são impedidos de entrar nas antigas metrópoles. O oprimido foge do opressor para morrer na fuga. Há bem mais de cem anos que esta história se repete, e nós perdemos o fio condutor. Cláudia e Luca tentam delinear essa história, encontrando caminhos para fora do labirinto da história.
Se cada um de nós enviasse à Cláudia e ao Luca um e-mail cada vez que topa com uma notícia sobre o tema que eles elegeram para este espetáculo, não só a caixa de correio eletrónica estaria cheia há muito, como, de dia para dia, a monstruosidade daquela destruição ficaria mais evidente. Na data em escrevo, por exemplo, uns meses antes de vocês me estarem a ler, a Hungria declarou que iria prender todos os imigrantes recém-chegados, para impedir que eles fossem para outros países da Europa. Não quero pensar em que estado estaremos quando chegar o fim de fevereiro e, depois, o fim de março, e assim sucessivamente. Talvez devêssemos reenviar cada e-mail a cada um de nós e, puxando o fio à meada, procurar a origem dos factos, retrocedendo passo a passo pelos caminhos onde foram deixadas pegadas de refugiados políticos, económicos ou ambientais, até encontrar o desastre climático, a fome ou a guerra, e, na origem destes infernos, os pecados mortais cometidos a sul e a oriente da Europa por homens, europeus, brancos — quase todos, mas não só.
Isto anda tudo ligado? Se for verdade que, graças aos meios de transporte e comunicação, estamos — todas as pessoas — mais ligadas que nunca, dar a ver essas ligações, usando fios como material de trabalho, talvez seja o melhor passo a dar. Mas como dar conta de tudo, num espetáculo de dança, sem que o trabalho se confunda com o discurso oco de uma eventual candidata a Miss Mundo, que estudou o soundbite à exaustão, por questão de sobrevivência, para poder dizê-lo sem mácula à frente dos cobiçosos jurados do concurso? Que pode um artista fazer? Se a casa está a arder, o poeta deve chamar os bombeiros. Depois pode escrever sobre o fogo. Mais agit-prop, por favor.
fevereiro, 2017
Sinopse
Quando era criança assistia fascinada, como muitas pessoas da minha geração, aos programas televisivos do Vasco Granja e ficava deliciada com aqueles desenhos animados que criavam mundos a partir de plasticina, cartolina ou de uma só linha. Cerca de trinta e tal anos depois convoco esse universo, nomeadamente o trabalho de Osvaldo Cavandoli, para esta segunda criação do projeto Sete Anos Sete Peças.
Num tempo em que as linhas divisórias, as fronteiras, as barreiras, as linhas da frente e de mira dos conflitos bélicos, as fileiras e as linhas de identificação do drama dos refugiados, as linhas de respeito dos limites marítimos das nações, as linhas duras das fações radicais de organizações políticas e religiosas estão na ordem do dia, pretendemos trabalhar (n)uma linha unificadora, capaz de juntar o que se encontra separado.
Cláudia Dias
Contrariamente ao anunciado, o jornalista José Goulão não poderá estar presente. A conversa será entre Shahd Wadi (representante da Missão Diplomática da Palestina em Portugal), Gustavo Carneiro (Conselho Português para a Paz e Cooperação) e Cláudia Dias, com moderação de Jorge Louraço Figueira (dramaturgo, professor na ESMAE). A conversa incidirá sobre a crise dos refugiados, puxando o fio à meada e procurando a origem dos factos, retrocedendo passo a passo pelos caminhos onde foram deixadas pegadas de refugiados políticos, económicos ou ambientais, até encontrar o desastre climático, a fome ou a guerra, e, na origem destes infernos, os pecados mortais cometidos a sul e a oriente da Europa por homens, europeus, brancos — quase todos, mas não só.