Still Smiling
Bios
Blixa Bargeld
Nascido em 1959, em Berlim Ocidental, Blixa Bargeld será sempre conhecido pelos seus Einstürzende Neubauten e por ter sido um dos Bad Seeds de Nick Cave. Bastaria isso para lhe dar acesso ao panteão da música, mas a julgar pelos dois últimos projetos — anbb, com alva noto, e agora com Teho Teardo —, há ainda vontade e ideias para romper com o papel de herói rock do melhor modo possível. Em 2010, declarou ao The Quietus, que os Neubauten eram como “um monstro adormecido no fundo do oceano”, mas já corre a notícia do seu despertar em 2014.
Teho Teardo
Ativista experimental durante os anos 80, quando colaborou Nurse With Wound, Mick Harris, Lydia Lunch, Jim Thirlwell ou Graham Lewis dos Wire, tem-se especializado em bandas sonoras, editando cerca de uma dúzia de discos que retratam bem a sua mestria por arranjos e composição mais classicista. É um dos mais importantes compositores para cinema italiano dos dias de hoje, valendo-lhe prémios e elogios de Ennio Morricone.
Quarteto Lopes-Graça
No ano em que visitaram o Teatro Maria Matos para acompanharem a estreia de Foreign Landspaces de Haushka, integrando os 11 músicos do ensemble, o Quarteto Lopes-Graça também acabaria por receber o prémio RTP/SPA para o melhor disco de música erudita. São um dos mais sólidos e versáteis quartetos de cordas nacionais, tendo cada elemento notáveis carreiras individuais, tantos ao nível performativo como académico.
Folha de Sala
É natural que olhemos primeiro para Blixa Bargeld. A sua dimensão, musical mas também física, lança uma sombra sobre todos os outros músicos com quem trabalha. Já conhecemos bem a sua imponente personalidade porque, em 2010, tivemos uma sala cheia para receber anbb, o projeto que Bargeld partilha com alva noto. Alguns anos depois, Still Smiling é o álbum deste alemão que volta a merecer toda a atenção dos seus fãs e, irrecusavelmente, volta a explicar o regresso deste bom gigante da música.
Ao lado de Bargeld, volta a estar alguém muito importante. Teho Teardo, nos anos 80 um músico italiano muito ativo na cena experimental europeia, assume a outra metade do projeto, embora se perceba que parte fundamental do encantamento destas novas canções a ele se deve. Com as arestas do experimentalismo polidas pelo tempo, Teardo foi ganhando destreza nos arranjos para instrumentos clássicos de cordas e começou a ter encomendas para algumas bandas sonoras no seu país natal, ganhando notoriedade e prémios. Numa dessas bandas sonoras — para Una Vita Tranquilla, filme de Claudio Cupellini (2010) —, nasce uma canção que precisa de um cantor. Como os caminhos de ambos os músicos já se tinham cruzado para uma produção teatral em Milão um ano antes, o convite de Teardo a Bargeld tornou-se óbvio. Essa canção, que reaparece em Still Smiling, foi o pavio para pensarem em ir mais longe: fazer um álbum de canções como nenhum deles alguma vez tenha feito. Recusando as colaborações atuais pela Internet, combinaram encontrar-se sempre que necessário, deixando que o tempo nunca fosse um obstáculo para a concretização desta obra. Ao Berliner Morgenpost, Blixa Bargeld confessou a sua estratégia: “Quando Teho sugeriu fazermos este disco, quis deixar claro duas ou três coisas. Primeiro, tem de ser um álbum de canções. Segundo, as canções têm de ter uma natureza pessoal, pois a instrumentação, uma espécie de música de câmara, é muito íntima. Terceiro, queria que fosse multilinguístico. Sempre cantei em muitas línguas, mas nunca o italiano.”
Assim, entre o estúdio de Blixa em Berlim e o estúdio de Teho em Roma, durante o período de um ano, foram anotando ideias, concretizando esboços, gravando demos, enquanto solidificavam uma amizade alicerçada pela coincidência de terem ambos celebrado uma paternidade recente — facto relevante para Blixa voltar a Berlim depois de uma experiência em Pequim. Still Smiling é também um álbum de mudança e de uma nova vida — uma “vida calma”. Disse, ainda, Blixa: “Os nossos filhos não mudaram a nossa música, mas acho que agora uso mais palavras dos livros infantis. Porque os leio para a minha filha. Na verdade, leio mais desses livros agora do que quaisquer outros.”
Se as palavras são todas de Blixa, incluindo as italianas — e Still Smiling começa com o pedido de desculpa do alemão pela sua nova língua —, a música deve muito a Teardo. Algumas das canções estariam quase terminadas, com os arranjos quase finalizados, quando foram mostradas a Blixa, deixando muito tempo livre durante os encontros para beber bom vinho ou para o alemão surpreender Teardo com os seus dotes culinários. “Gravámos as vozes em Berlim, no velho estúdio dos Neubauten, e depois voámos para Roma, para o estúdio do Teho, que é um antigo cinema. Ele tratou das cordas e tocava guitarra. Eu toquei órgão Hammond e muito pouca guitarra.”
Talvez nunca se tenha ouvido Blixa assim: sussurrante, íntimo, sereno. Os seus momentos de explosão soltam fagulhas de veludo preto e a sua ventania é amparada por uma rede neoclássica de malha apertada. E foi porque este projeto vive dessa dualidade que também quisemos Still Smiling em todo o seu esplendor, com as cordas do Quarteto Lopes-Graça em palco oferecendo-nos a imponência dos arranjos de Teho Teardo.
Menores de 30 anos 5€
Excecionalmente não se aceitam reservas
Sinopse
A vida de Teho Teardo transformou-se, nos dias de hoje, num majestoso cruzamento entre o seu passado experimental e as suas composições para cinema. Ou seja, entre a década de oitenta, em que colaborava com Nurse With Wound ou Mick Harris, e a primeira década deste milénio, quando começa a escrever para cinema, garantindo-lhe prémios e uma merecida atenção. Foi justamente numa dessas bandas sonoras ― Una Vita Tranquilla (Claudio Cupellini, 2010) ― que Teho se encontrou com Blixa Bargeld para colaborarem num dos temas, deixando vontade de se encontrarem novamente. Sill Smiling é o maravilhoso resultado de uma jornada de dois anos, entre Roma e Berlim, em que intenso refinamento poliu uma rara melancolia ― quiçá nunca ouvida ― na voz do ex-Einstürzende Neubauten. Still Smiling é uma coleção de canções pop verdadeiramente notável em que a suprema e íntima interpretação de Blixa ganha música e arranjos à altura do seu estatuto. Subindo ainda mais a fasquia, convidámos também o Quarteto Lopes-Graça para ouvirmos cada canção tal como foi idealizada. Depois da sua visita em 2010 com Alva Noto, recebemos de novo um dos mais idiossincráticos cantores da História com um dos seus projetos mais pessoais.