Saltar para o conteúdo principal Mapa do Website
  • Arquivo
  • Explorar
  • O Teatro
    • Missão e História
    • Redes de Programação
    • Coproduções
    • Teatro Verde
    • EGEAC
  • pt Idioma em Português
  • en Idioma em Inglês
Tauberbach Alain Platel/Les Ballets C de La B & Müncher Kammerspiele Informações sobre o Evento
23 → 25 Jan 2015
Datas e Horários
Sexta e Sábado 21h30 Domingo 18h30
Preço
9€ aos 18€ Menores de 30 anos 5€
Duração
90 min
Classificação
M/6
Local
Sala Principal
Dança

Tauberbach
Alain Platel/Les Ballets C de La B & Müncher Kammerspiele

Folha de Sala

Folha de Sala

Apesar de ser loucura, revela método.

(Hamlet, Ato 2, Cena 2)

 

Uma vez, o encenador Alain Platel recebeu um CD que tinha escrito a marcador “Tauber Bach”. A música do CD fazia parte de um projeto de vídeo de Artur Żmijewski, um artista polaco que pedira a um coro de surdos da Igreja de São Tomás, em Leipzig, para cantar Bach da maneira que este soava a pessoas que não conseguem ouvir. O CD teve um grande impacto em Platel, em boa medida por juntar duas das suas grandes paixões: Bach, o seu compositor favorito, e linguagem gestual. Se não se souber que essa música é cantada por surdos, não se sabe o que se está a ouvir.

Vêm-nos à mente sentimentos de embaraço, acanhamento e riso. Mas, como ninguém, Platel ouve beleza nessa cacofonia, da mesma forma que encontra beleza no que é comummente entendido como feio, anormal, discordante, no que é frequentemente visto como uma doença ou síndroma: espasmos, cãibras, convulsões… toda a gama de tensões musculares incomuns. Platel obriga-nos a olhar de forma diferente, a escutar de forma diferente.

Ele desenvolveu a sua forma particular de ver e ouvir enquanto estudava ensino de recuperação, especializando-se no tratamento de pessoas com deficiência mental e/ou física. Nessa altura, ficou muito impressionado com os pontos de vista de Fernand Deligny. Deligny (1913-1996) foi um pedagogo francês que se tornou conhecido pela sua abordagem radicalmente diferente do tratamento de crianças com autismo. Não admira que Platel tenha levado o elenco todo de tauberbach a um centro para crianças com deficiências graves. Deligny passou a vida a esforçar-se para que o outro pudesse ser diferente e a procurar lampejos de cumplicidade em cada encontro. Não tinha, portanto, medo de procurar o lado negro e misterioso do encontro. A sua vida foi marcada por uma fé absoluta no outro, pela crença de que a ligação é possível, mesmo quando a linguagem falha. Ele advogava uma humanidade coletiva, independentemente da natureza dos indivíduos, estando todos nós sujeitos à morte e ao sexo, a sentimentos de perda e ao desejo.

Há uma outra fonte de inspiração importante: o documentário Estamira, de Marcos Prado. É um retrato pungente de uma mulher brasileira que opta por ‘trabalhar’ num aterro. Durante vinte anos, sobrevive com o que consegue encontrar em Jardim Gramacho, um aterro perto do Rio de Janeiro. Não teve uma vida fácil, mas apesar de, ou graças, à sua doença mental, é uma personalidade muito carismática com pontos de vista filosóficos muito interessantes. Sob as suas ilusões, encontram-se traumas compreensíveis e uma lógica interna forte.

Estamira forneceu a ideia básica para o cenário e a maior parte do texto. A atriz Elsie de Brauw moldou a sua personagem essencialmente a partir dessa Estamira. Os bailarinos são os demais habitantes deste cenário apocalíptico. Num ambiente cruel, criaram seres vivos inocentes, algures entre as amibas, os animais de estimação e as crianças. Este mundo pré-histórico (como diz o bailarino Romeu Runa), este mundo arcaico (de acordo com o meu colega dramaturgo Koen Tachelet), este mundo pré-consciente (como eu próprio lhe chamo), apesar de inspirado em elementos documentais, não reflete a realidade de modo algum. Nem proporciona uma visão privilegiada de Estamira. Encontramo-nos num universo completamente diferente, onde movimentos espasmódicos e sacudidelas em uníssono são as únicas vagas lembranças da civilização há muito perdida, onde um coro de Bach ou uma pequena composição de Mozart cantada em conjunto é tudo o que resta da coerência. Essa é a visão pessimista do espetáculo. Mas também se pode encará-lo como uma promessa para o futuro.

Durante dez anos, de Bonjour Madame a Wolf, Platel envolveu-se muito na representação do mundo diversificado que nos rodeia, do seu chamado multiculturalismo, e escolheu um elenco muito diversificado, tanto cultural, como artisticamente, para retratar esse mundo. A partir de vsprs (2006), o seu trabalho interiorizou-se, passou para debaixo da pele, o elenco tornou-se virtuoso, o espetáculo mais experiência do que representação. Vsprs foi construído como uma trip de ecstasy em cinco etapas. Out of Context — for Pina era uma viagem pela memória, um bilhete de ida e volta ao início dos tempos. Gardenia era uma longa paródia. Este tauberbach junta-se a essa lista como uma iniciação, um rito de iniciação, um batismo, uma imersão e, portanto, também uma possível cura.

 

Hildegard De Vuyst, dramaturga

Janeiro de 2014

 

 

 

A geografia da vivacidade

 

Não há peça. Todavia, há personagens, ou melhor: há identidades, criaturas, seres. Uma delas tem nome: Estamira. Estamira refere-se a uma mulher real que vive num aterro, no Brasil. Ela está sempre a falar. Para ela, falar significa sobreviver. Fala com as vozes que tem na cabeça, com a voz acima da sua cabeça. Estamira é assombrada pela sua biografia, pelos demónios que tem na cabeça, pela luta sem fim contra ela própria e um mundo em que a vida se tornou pura sobrevivência. Tenta exorcizar a energia negativa acumulada nela recitando continuamente uma série de fórmulas. “Não percas o controlo! Não percas o controlo!”

Estamira não vive sozinha. Surgem criaturas em todos os cantos, desafiando-a, obrigando-a a usar os sentidos de forma diferente, a sentir novamente, a observar e a escutar. Essas criaturas não precisam, ou já não precisam, de linguagem oral. Provavelmente, também estavam à procura — como Estamira — de controlo e equilíbrio. Mas, um dia, deixaram de lutar contra si próprias e o resto do mundo e encontraram um aliado no caos da lixeira. Essa paz deu azo à imaginação, à criação de mundos paralelos, onde tudo é fluído, pronto a ser novamente observado e identificado. Um processo de reciclagem mental e físico.

Estamira criou uma língua própria. As primeiras letras são PTG. Ela fala essa língua quando invoca uma ajuda invisível. “Quando telefona a Deus”, como diz Alain Platel. A língua PTG diz muito acerca da vontade de Estamira de sobreviver, mas também acerca da sua solidão. Ela é a única que sabe o que está a pedir. As respostas refletem apenas as suas próprias necessidades. Estamira chama-se a si mesma no escuro. Até que uma das bailarinas, Lisi Estaras, pega no microfone e começa a falar a mesma língua PTG que não existe. E então, de repente, o vazio da existência de Estamira é preenchido com compreensão e empatia por parte de outro ser humano. Não conseguimos compreender as palavras, mas compreendemos o que significam. É um passo crucial para Estamira soltar os seus medos e passar a confiar e a entregar-se.

Alain Platel usa a história de Estamira para contar outra: a história do teatro falado e da dança e do seu encontro. Platel não se pergunta, em tauberbach: podem os bailarinos representar e podem os atores dançar? Mas antes: o que significa representar e dançar para o tipo de pessoa que surge enquanto dança e representa? Quando é que uma imagem corporal se torna numa imagem humana? E como é que duas imagens corporais podem travar um diálogo, quando é que se ligam, confundem e o que acontece então à pessoa dentro desse corpo?

tauberbach é uma história sobre pessoas que se querem separar de sistemas codificados. Nesse processo, o corpo desempenha um papel crucial. Durante as nossas conversas, no processo de ensaio, um dos tópicos era “a nudez no palco”. Alguns bailarinos perguntaram: porque é que voltamos o nosso interior do avesso e não o nosso corpo? O resultado dessas conversas é que, não a nudez em si, mas a vergonha tornou-se essencial ao longo do espetáculo. A vergonha não é necessariamente humilhante, pois também pode conduzir à beleza e autoconsciência. Afinal de contas, a vergonha tem a ver com até que ponto optamos por revelar informação sobre nós mesmos. Quando Estamira olha para o mundo de criaturas que a rodeiam, vê um mundo sem vergonha, sem regras e sem moral. E depois testemunha duas pessoas a interpretarem uma dança de acasalamento que é tão intensa que apaga todas as diferenças entre homens e animais. O que ela vê é tão autêntico que está para além da moral e tem um efeito catártico.

tauberbach é a história de uma mulher a quem se retira a casca. Uma mulher que vive na sua mente e que descobre o seu corpo de forma gradual. A história da resistência e de como o ambiente a pode eliminar. Da vida que continua. 24 horas de dignidade.

 

Koen Tachelet, dramaturgo

Janeiro de 2014

23 → 25 Jan 2015
Datas e Horários
Sexta e Sábado 21h30 Domingo 18h30
Preço
9€ aos 18€ Menores de 30 anos 5€
Duração
90 min
Classificação
M/6
Local
Sala Principal

Sinopse

Quatro anos depois da sua última apresentação no Teatro Maria Matos, Alain Platel regressa com tauberbach, que nos chega no âmbito de uma extensa digressão mundial. Retomando o trabalho sobre o que Platel considera ser “dança bastarda”, tauberbach vai buscar inspiração aos trabalhos de outros dois artistas. Estamira, de Marcos Prado, é um documentário que conta a história de uma mulher esquizofrénica que vive e trabalha numa lixeira do Rio de Janeiro e que desenvolveu a sua própria forma de comunicação na pequena comunidade onde vive. E Tauber Bach, parte de um projeto de vídeo do polaco Artur Zmijewski, em que este pediu a um coro de pessoas surdas para cantarem Bach, tal como imaginavam ser a sua música. O resultado, desconcertante e confrangedor para muitos, fascinou Platel que continua a procurar formas de ouvir e ver as pessoas de formas diferentes. Em tauberbach, Alain Platel, com a ajuda de um poderoso grupo de atores e bailarinos, reflete sobre como se pode viver e sobreviver em circunstâncias quase impossíveis.

 

Conteúdos Relacionados

Material Gráfico Cartaz Alain Platel 23 Jan 2015

Ficha Artística

conceito, direção e cenografia:
Alain Platel

criação e interpretação:
Bérengère Bodin, Elie Tass, Elsie de Brauw, Lisi Estaras, Romeu Runa e Ross McCormack

dramaturgia:
Koen Tachelet e Hildegard De Vuyst

direção musical:
Steven Prengels

desenho de luz:
Carlo Bourguignon

desenho de som:
Bartold Uyttersprot

figurinos:
Teresa Vergho

gestão de produção:
Valerie Desmet

produção:
Münchner Kammerspiele, les ballets C de la B

coprodução:
NTGent e Théatre National de Chaillot, Opéra de Lille, KVS, Torinodanza, La Bâtie — Festival de Genève

apoio:
Cidade de Ghent, Província da Flandres-Leste, Autoridades Flamengas

Ver Arquivo
  • Maria Matos
  • EGEAC

Morada e Contactos do Teatro

E-mail: geral@egeac.pt

  • Arquivo
  • Teatro Maria Matos
  • Explorar
  • Mapa do Website
  • Termos e Condições
  • Consulte a declaração de conformidade deste Site no Site da comAcesso, nova janela
© 2026 Maria Matos Teatro Municipal
Made by v-a