Folha de Sala
Quando há pouco mais de quatro anos os Supersilent lançaram 11 (2010), recuperando assim gravações antigas dos tempos em que o baterista Jarle Vespestad ainda militava no grupo, chegou-se a colocar a hipótese de que o percurso do trio norueguês estaria a aproximar-se do fim. Os anos de pausa discográfica que se seguiram, interrompendo desta forma o quase estóico ritmo de edições a que se propunham desde a alvorada de 1998, não facilitaram a contrariar esse rumor. Felizmente, depois de uma série de datas ao lado de John Paul Jones (conhecido como um dos fundadores dos Led Zeppelin), no final do ano passado Arve Henriksen (trompete, eletrónica), Ståle Storløkken (teclados e eletrónica) e Helge Sten, também conhecido como Deathprod (teclados, eletrónica), colocaram um ponto final aos boatos de então e lançaram o seu 12.º álbum, que não poderia ter outro título que não fosse 12 (2014).
Este talvez seja o primeiro disco em que o trio verdadeiramente se reconcilia com a saída de Jarle Vespestad há seis anos e com o impacto que isso inevitavelmente teve na forma como os três músicos, desde então, têm abordado a sua vasta e não categorizável personalidade musical. O gosto pela exploração sonora e pelo trilhar de novas reconfigurações para a sua música mantém-se intacto e ainda mais denso, estando as “vozes” de Arve Henriksen, Ståle Storløkken e Helge Sten unidas como se de um só corpo se tratassem.
O disco foi parcialmente gravado no museu Emanuel Vigeland, na capital norueguesa, que é também conhecido pela sua reverberação natural de 20 segundos. Este contexto certamente contribuiu para a profunda exploração das texturas sonoras que está espelhada ao longo de todo este 12.º álbum.
12 surge na discografia dos Supersilent após uma fase na vida do grupo que se pautou por abordar cada disco com um conceito mais determinado do que o habitual. Depois de Jarle Vespestad ter abandonado o barco, o então reestruturado trio lançou 9 (2009), um objeto estranho onde cada elemento optou por deixar guardados os seus instrumentos convencionais, tocando os três órgãos Hammond. Um ano depois é editado 10 (2010), disco desligado da corrente, que levou Arve Henriksen explorar com mais premência os fraseados melódicos do seu trompete, ganhando a música do grupo uma dimensão quase lírica E onde dantes Deathprod optava, nas suas produções, por convulsões eletrónicas, neste disco a gestão meticulosa do silêncio como veículo para proporcionar a tensão foi o caminho escolhido. No mesmo ano, lançaram somente em vinil (tendo sido reeditado no ano passado em CD) o 11.º capítulo da sua discografia, recuperando uma série de gravações feitas para 8 (2007), quando Vespestad ainda estava na bateria, o que se reflete no cariz feérico da música que aqui se encontra, tecendo pontes com algumas heranças da escola kraut.
Esta diversidade de referências poderia sugerir uma falta de coesão, mas desde que se estrearam com o ainda impactante triplo álbum de 1998 e até aos nossos dias que a linguagem dos Supersilent, ainda que vasta, não perde em personalidade.
Esse tomo que foi 1 – 3 (1998), primeiro álbum lançado pela Rune Grammofon, a editora de sempre do coletivo, assentou desde logo quais seriam as premissas pelas quais os Supersilent se viriam a guiar e que faz deles um caso tão idiossincrático. O triplo disco resultou de três horas de gravações de total improviso. Essa postura mantém-se ainda hoje. Arve Henriksen, Ståle Storløkken e Helge Sten não só nunca discutem que música vão tocar uns com os outros, como não ensaiam enquanto grupo. Somente quando sobem a um palco ou se encontram em estúdio é que a personalidade do trio floresce, mediante o contexto da altura.
Esta extrema liberdade faz com que a catalogação da música dos Supersilent seja uma tarefa inglória, já que arrumá-la em gavetas como jazz, ambient ou música electroacústica não faça jus ao autêntico mistério que resulta de cada encontro destes noruegueses. Esse mistério espelha-se na austeridade imagética que caracteriza todos os seus discos, bem como os seus títulos e alinhamentos, sem espaço para floreados, privilegiando o poder instintivo da música.
Vê-los a tocar em palco é por isso o privilégio de ver in loco Henriksen, Storløkken e Deathprod a mergulharem pela primeira vez num novo mundo que não tem par.
João Moço, jornalista
Menores 30 anos: 5€
Sinopse
Eclodindo em 1998 num triplo álbum que ainda hoje faz estremecer as nossas mais profundas convicções, os noruegueses Supersilent foram documentando exemplarmente na sua discografia os diversos encontros espontâneos que tiveram em estúdio e em concerto nas últimas quase duas décadas de vida. Sempre recusaram assumidamente o planeamento da sua estratégia sonora, deixando para os seus instintos o destino de um projeto que soube sempre encontrar a sua linguagem, embora tenhamos uma saudável dificuldade em determinarmos a correta catalogação da sua música. Poderá ser jazz, dada a comunicação intuitiva que o trio mostra, mas um sublime design sonoro sugere-nos um apreço elevado pela eletroacústica e uma permanente curiosidade pelo negro desconhecido mergulha-nos num ambientalismo de gravidade pesada. Mas também há luz em Supersilent, alva quando Arve Henriksen tece a sua teia acústica ou ofuscante quando Helge Sten (ou Deathprod) nos eletrifica. Após uma considerável pausa, regressaram no final de 2014 com mais uma obra que prolonga o maravilhamento que Supersilent exerce em quem os ouve. Mas o que vamos testemunhar nesta noite é, como sempre, nova música feita de novo.