Sam The Kid
Sinopse
Sam The Kid é um herói. Não daqueles que usa capa e voa, mas daqueles que, pela persistência do talento, nos obrigam a prestar atenção, a alterar preconceitos, a mudar de direcção. Nesta altura, a sua carreira já vai longa, mas mantém a frescura dos primeiros momentos. Iniciou-se na “segunda vaga” do Hip Hop Tuga com a edição artesanal de Entre(tanto) mesmo a tempo de deixar a sua marca na década de 90. Era uma época de auto-edições, de ignorância propositada das regras da indústria, quando uma fotocópia bastava para capa e um CDR era mais do que suficiente para conter o que se gravava em casa, em total desrespeito pelas regras do áudio.
Logo de início Sam distinguiu-se pelas suas capacidades no microfone. Se em termos formais os primeiros passos dispensavam controle de qualidade, já ao nível daquilo que se passava entre a ponta da sua caneta e o papel não havia facilitismos. A língua, nesse tempo, era tomada de assalto como terreno virgem, pronto para a invenção, pronto para assistir à construção de uma nova realidade. Quando Sobre(tudo) chegou, em 2002, os holofotes já estavam lançados sobre esta nova geração que reclamava as ruas, a língua e os breaks como mecanismos de definição de identidade, de vontade, de criatividade. “Não percebes o hip hop”, rappava ele. E tinha razão. Os equívocos eram por demais evidentes por parte de quem se dispunha a abordar o “fenómeno”.
A terceira etapa desta carreira dispensou as palavras e isso fomentou equívocos por si só. O clássico “até gosto de hip hop se não tiver rimas” era tão acertado quanto um “até gosto de futebol se só tiver remates à baliza”. Na verdade, Beats Vol. 1 – Amor estava cheio de rimas, de palavras e de significados. E de remates à baliza, que no hip hop se chamam punch lines. Só que ninguém as ouvia. Estavam todas na cabeça de Sam The Kid, mas de alguma forma a história passou cá para fora. Esse disco era tão transparente, mas tão honesto, que desarmou tudo e todos. Essa espécie de passo atrás precedeu os dois em frente que Sam deu com Pratica(mente) de 2006. Poetas de Karaoke voltou a agitar e Negociantes resguardou pelo menos uma voz, uma história, para a posteridade. Os samples de Sam continuavam a entrelaçar-se num rendilhado particular, desta vez admitindo a intervenção de músicos, de instrumentação real. Porque Sam soube sempre olhar para a frente. No fundo, essa experiência desembocou agora no projecto Orelha Negra – de novo os beats, os samples, mais o dj e os músicos a caminharem num passo seguro para uma direcção comum. As histórias continuam lá, nos silêncios, nos samples, enredilhadas nos grooves, escondidas na poeira do vinil que é samplado em cada momento, nas entrelinhas das “dicas” largadas pela MPC.
A verdade é que Sam não vive sem palavras. E por isso escolheu um Super Disco especial: Moment of Truth dos Gang Starr. Lançado originalmente em 1998 (a relação com a própria carreira de Sam é clara – este é um daqueles discos estudado até à última tarola), Moment of Truth é uma das obras primas do hip hop. Quinto álbum dos Gang Starr (o único gang a que todos quisemos pertencer, como diziam os De La Soul) de Dj Premier e do recentemente desaparecido Guru, representa o apogeu do som de Nova Iorque. Os Gang Starr só gravariam mais um álbum, The Ownerz de 2003. E por entre fantasias de uma reunião dos Gang Starr que os pudesse trazer até Portugal (tanto Primo como Guru nos visitaram, mas em separado) chegou-se até ao desaparecimento deste plano de existência de Keith Elam, a 19 de Abril último. Coordenadas mais do que suficientes para a conversa no Maria Matos.
Rui Miguel Abreu