Cantos de Lisboa
Folha de Sala
O mote de Cantos de Lisboa assenta, primariamente, no mote da coleção de discos Frkwys (pertencente à editora RVNG, de Brooklyn): obras originais que emparelhem músicos contemporâneos com os seus predecessores. No fundo, mais do que uma passagem de testemunho, procura-se criar um mundo que some diferentes perspetivas — e, naturalmente, experiências — dentro de uma mesma família, mesmo quando, como é o caso, ambos os músicos divirjam recorrentemente da folk ou da guitar music. Neste 11º volume da série Frkwys, os convidados foram Mike Cooper e Steve Gunn.
Mike Cooper, nascido em 1942, em Reading, Inglaterra, é uma das figuras históricas do blues e folk inglês, embora a sua carreira posterior o tenha levado para muitos outros géneros e disciplinas, provando um estado de espírito aberto durante os mais de 50 anos de carreira que possui. O brilhante e percursor Do I Know You?, de 1970, ilustra na perfeição a sua ambição artística ao usar field recordings, jazz e drones para redefinir à sua maneira o blues e a folk. Durante as duas décadas seguintes, Cooper nunca largaria a sua folk embora explorasse continuamente o jazz, a improvisação e a experimentação com alguns dos mais brilhantes músicos de então. Nos anos 90, nova mudança geográfica, com detalhada atenção à música havaiana, criando mais um capítulo — inesperado — da sua carreira, provando pela enésima vez como a sua música permanece em saudável mutação.
Encontrar e colaborar com um nome com o peso de Mike Cooper foi para Steve Gunn um desafio de grandes proporções. Mas apesar de ser consideravelmente mais novo, Gunn mostra já uma carreira de 15 anos, ganhando, nos últimos tempos, alguma notoriedade crítica e pública graças a grandes edições discográficas. Enquanto que Cooper poderá citar influências de Michael Chapman, Roy Harper ou Bert Jansch, Gunn, sendo norte-americano, poderá dar-nos nomes como Jack Rose, Sandy Bull ou Robbie Basho. Ou seja, influências de mestres da guitarra que rasgaram, cada um à sua maneira, os limites do instrumento e da composição. Em 2009, Gunn edita o seu primeiro álbum a solo — Boerum Palace — mostrando já um domínio impressionante da suas canções e da sua técnica, depois de ter aberto a sua mente à liberdade do psicadelismo e ao espiritualismo da música indiana. Time Off e Way Out Weather, de 2013 e 2014, respetivamente, mostram a galopante ambição da sua escrita e arranjos de canções. Mas Gunn assume que a aprendizagem é contínua e por isso Cantos de Lisboa marca mais uma etapa nesse crescimento. Na capital portuguesa, durante alguns dias à volta da sua presença no Out.Fest de 2013, os dois guitarristas deixaram-se contaminar pelas histórias e sombras das ruas e personagens da cidade para criarem mais um pedaço importante do seu percurso. Um ano depois, voltam a Lisboa para nos oferecerem a sua música numa apresentação única, convidando dois amigos importantes para colocar devidamente e com requintes luxuosos, os seus Cantos no nosso palco: Afonso Simões, baterista, membro dos Gala Drop e ex-Curia e Fish & Sheep, músico convidado de Matt Valentine, Hyper Williams e Rafael Toral, foi ajuda preponderante nos bastidores do encontro de Gunn e Cooper em 2013; Helena Espvall, violoncelista, e membro dos Espers, já é uma figura fundamental para o contexto musical local desde que decidiu viver em Lisboa há uns anos.
Comecemos pelo óbvio: qual era o vosso conhecimento de Lisboa até este encontro?
SG: Estive em Lisboa algumas vezes e fiquei sempre muito interessado na paisagem e na cultura. Quando vim a primeira vez, confesso que não sabia muito sobre a cidade. Felizmente fiz alguns bons amigos e eles têm sido generosos em partilhar o conhecimento e a história de Lisboa.
MC: Não tinha um grande conhecimento de Lisboa. Só tinha estado cá por duas vezes, separadas por muitos anos.
Lisboa acabou então por ser a inspiração para o vosso encontro. É o terceiro elemento ou é apenas uma espécie de cenário?
SG: Acho que o local acabou por ser importante para nós. Mike e eu passámos muito tempo a andar por Lisboa, absorvendo a cidade e a sua cultura. Desempenhou um papel essencial na música que fizemos.
MC: Para mim foi mais um ambiente que usufruímos durante o tempo de estadia e como isso nos criou o contexto para o qual fizemos a música que fizemos.
Mas, como entrou a cidade no processo criativo?
SG: Foi parte importante da música porque nos interessámos muito por explorar Lisboa. A música que gravámos foi muito espontânea, à medida que íamos experienciando a cidade. Demos muitos passeios, que é a minha atividade favorita quando visito uma cidade. Tivemos a sorte de ter imenso tempo para isso. Encontrámos pessoas interessantes, o que nos deu dias e noites muito aprazíveis.
MC: Não acho que tenha havido um processo consciente de tocar algo “português” ou “lisboeta”. Mergulhámos na atmosfera da cidade e fomos fazer música juntos. Sou um caminhante compulsivo e um psico-geógrafo — na verdade, tenho uma instalação audiovisual de 20 curtas-metragens que se intitulam Walking in… sobre várias ilhas no mundo. É a andar que acabo por conhecer uma cidade.
Títulos como Saramago ou Enchanted Moura parecem indicar que acabaram mesmo por conhecer a nossa história para além de um simples encontro espontâneo. Como ia surgindo esse conhecimento?
SG: Acho que foi uma mistura de experiências e informações históricas, mas grande parte veio mesmo do tempo passado nas ruas. Mike e eu fomos ao museu do Saramago e isso marcou-me bastante. Confesso que não sabia muito da sua vida antes de ir lá, e continuamos a falar sobre a sua vida e obra durante os nossos passeios.
MC: Sabia bem da história de Portugal através da colonização do Pacífico. E conhecia a obra de Saramago antes de vir cá. Fiquei bastante contente em visitar o seu museu — e surpreso, pois desconhecia-o. Não sabia que tinha sido bom amigo do Comandante Marcos — outra boa surpresa.
Lampedusa sugere que a vossa atenção não estava apenas focada em Lisboa.
MC: Foi um título meu, sim. Eu sabia o que se estava a passar nessa altura — a morte de cerca de 200 pessoas no naufrágio de um barco de imigrantes — porque vivendo em Itália estamos bem conscientes destes acontecimentos. A letra desta canção está direta e tristemente ligada a este caso embora tenha sido escrita algum tempo antes.
Agora que sabem o significado de “saudade”, como a viram e sentiram? Na nossa música e fora dela.
SG: Não sei a consigo sentir imediatamente, mas percebo onde está na música portuguesa e como isso a faz ser mais bonita.
MC: Sinto e vejo paixão, sobretudo. A minha música nasce da folk, dos blues e da improvisação — música cheia de paixão. Eu espero que toda a minha música, seja ela qual for, possua essa qualidade. Eu ouço e sinto isso no Fado, um estilo musical muito político também. Os blues, o flamenco, a rembetika grega e o jazz — tal como o vosso fado — são músicas de classe operária, ao contrário da clássica, por exemplo, que vem da classe burguesa. Eu acabo por fazer música folk mesmo quando faço música eletrónica improvisada.
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Sinopse
Em outubro de 2013, Steve Gunn conheceu finalmente Mike Cooper, um dos seus mestres de sempre da guitarra, para um concerto em duo na edição desse ano do Out.Fest, no Barreiro. O momento de celebração, materializado no concerto, acabaria por se estender ao outro lado do rio Tejo, em Lisboa, para uma curta temporada de estúdio onde gravariam Cantos de Lisboa — editado em junho passado, na RVNG, no 11.º volume da série FRKWYS que documenta encontros de músicos de gerações diferentes. Pelos títulos dos temas percebemos o seu percurso pela capital — Saramago, Pena Panorama ou Saudade do Santos-o-Velho mostram geografias e emoções de Lisboa —, mas é na música que fica impressa, de um modo translúcido, o que a cidade lhes deu para estas composições. Os cantos de Lisboa, no seu dúplice significado, alimentaram a melancolia e a saudade a que ambos não conseguiram escapar. O mundo folk e psicadélico dos dois músicos é filtrado por esta luz mediterrânea — que se estende até Lampedusa, refletida numa tumultuosa canção de protesto —, exalando um estado de alma lânguido que tanto cria ressonâncias na música norte-americana primitiva de Steven Gunn, como na eletricidade exótica de Mike Cooper. Cantos de Lisboa volta à sua cidade um ano depois para a sua estreia em palco, num concerto exclusivo e com convidados especiais.
https://vimeo.com/94456116