Folha de Sala
Nascido, criado e residente em Rugby, uma das maiores vilas do coração do Reino Unido, Peter Kember é um dos mais influentes e bravos exploradores da música psicadélica, num sentido amplo do termo, das últimas três décadas. Dono de um universo que lhe é muito próprio — desde o início no seu trabalho com os Spacemen 3, ao lado de Jason Pierce, passando pelas heteronímias e campos de experienciação Sonic Boom, Spectrum e Experimental Audio Research —, vem unificando rock’n’roll, eletrónica (da library music a psicotropismos rave), colorizações Brian Wilson e o mais gospelizado pentatonismo num território vasto, e sagrado, que se tornou a sua enorme obra.
O seu currículo é também prova desta pluralidade. Se os Spacemen 3 continuam até ao dia de hoje a inspirar todos aqueles que se querem deixar hipnotizar pela luz divina que veio do Mississipi e um dia se tornou corrente elétrica, por via de rockers dos anos 60, dos Suicide e das viagens texanas até ao espaço sideral dos Red Krayola de Mayo Thompson, Kember rapidamente prosseguiu para novas paragens depois da separação da sua primeira banda.
Desde 1989, ainda com os Spacemen 3 em atividade, lançou, enquanto Sonic Boom, o primeiro álbum de estreia, Spectrum, dois dos nomes que continuam até aos nossos dias a ajudar a identificar Kember, especialmente quando este opera à volta de um formato mais canónico e essencialista de canção. É em 1994 que apresenta Experimental Audio Research, plataforma em que viria a trabalhar explorações cada vez mais abstratas com outros iluminados que empaticamente partilhavam da sua visão apontada às estrelas. Kevin Shields (My Bloody Valentine), Eddie Prevost (AMM), Kevin Martin (The Bug, Techno Animal, King Midas Sound, God), Delia Derbyshire (BBC Radiophonic Workshop), Thomas Köner (Porter Ricks) — em cada ano que passa fica mais impressionante considerar o peso deste elenco, pleno de gente que parece vislumbrar coisas que mais ninguém consegue sonhar, em campos estéticos tão diversos.
O seu trabalho enquanto músico de palco, produtor, engenheiro de som, remisturador e masterizador tem igualmente granjeado a admiração de pares e influenciados. My Bloody Valentine, Stereolab, Dean Wareham & Britta Phillips, Jessamine, MGMT, Sun Araw, Peaking Lights, Red Krayola ou Wooden Shjips são alguns daqueles que pediram para beneficiar dos seus múltiplos talentos e ciência no tratamento de todas as coisas do domínio do som.
Tem sido, contudo, um músico chegado à nossa capital há precisamente uma década que tem colaborado em maior proximidade com Kember ao longo dos últimos anos. Panda Bear, membro dos Animal Collective, está por estes dias a trabalhar em estúdio no sucessor do seu mais recente álbum, o celebradíssimo Tomboy, com o músico britânico (aqui em funções de produtor), que por diversas vezes também o acompanhou, em duo, por palcos em todo o mundo.
Há alguns anos a afinar o seu próximo longa-duração, é um Pete Kember a viver uma época de alguma renascença mediática, num percurso que nunca parou de prosseguir e acontecer, que nos chega ao palco do Teatro Maria Matos. Apresenta-nos um espetáculo raro, no qual pegará em várias canções do seu songbook Sonic Boom/Spectrum, explorações intrépidas por via da sua faceta E.A.R., entre uma ou outra versão de músicas que o têm acompanhado ao longo dos anos e que se habituou a traduzir em concerto, acompanhado por um trabalho de imagem em todo coerente com o seu ideário.
Hipótese, momento e circunstância ideais para testemunharmos uma figura tão especial da música do nosso tempo, num período bonito da sua vida e num ano que se avista positivamente ocupado e produtivo. Um mestre comandante das vias espaciais leva-nos em mais uma noite da sua infinita viagem.
Filho Único
Menores de 30 anos 5€
Sinopse
Em colaboração com a Filho Único
Na segunda metade dos anos 80, nenhuma banda fora tão eloquente no revivalismo e atualização do psicadelismo quanto os Spacemen 3, deixando, sobretudo, um trio de discos portentosos, antes de Peter Kember e Jason Pierce decidirem terminar a aventura em conjunto. Recurring, o álbum final e póstumo editado em 1991, é um exemplar documento de despedida, deixando claro na sua dualidade a influência no grupo de ambos os músicos e, sobretudo, as suas intenções futuras. Num dos lados do disco, o rock tingido de blues e gospel de Pierce, anunciando Spiritualized; no outro, uma dimensão sonora ambiental portentosa e trabalhada com minúcia, prevendo os passos de Spectrum, Experimental Audio Research e, a solo, como Sonic Boom. De facto, nos diversos contextos em que se integrou, Kember sempre orientou as suas composições numa direção: o espaço que nos rodeia é demasiado vazio e vasto para não o trabalharmos até ao mais ínfimo detalhe e redefinirmos as suas novas fronteiras entre o acústico e o eletrónico, entre o tradicional e o contemporâneo. É por isso que olhamos para Sonic Boom como um original vanguardista e intrépido explorador há três décadas, recebendo do público e de muitos artistas uma rara reverência. Numa altura em que se associa, uma vez mais, a Panda Bear para produzir o sucessor de Tomboy, e que colabora criativamente com os Peaking Lights, Sonic Boom criará um concerto especial para a nossa sala, mergulhado em imagens hipnóticas e cruzando as suas canções e canções de outros ― Laurie Anderson, Kraftwerk ou Suicide, por exemplo ― com o detalhe expansionista, transcendental e psicadélico de Experimental Audio Research, deixando-nos informação importante sobre seu próximo álbum, em preparação.