Christophe Meierhans
“There’s no such thing as society”
Folha de Sala
BART CAPELLE ENTREVISTA CHRISTOPHE MEIERHANS SOBRE SOME USE FOR BROKEN CLAY POTS
Desafiando a ficção
O trabalho de Christophe Meierhans inclui frequentemente intervenções na vida quotidiana, com o objetivo de revelar e confundir códigos sociais, acordos implícitos e normas. Some use for your broken clay pots será uma obra de teatro que faz parte de um tríptico, girando à volta de uma proposta desafiadora: uma nova constituição para as democracias contemporâneas.
O que te fez querer criar uma nova constituição? E em que sentido será diferente da democracia?
Quero encontrar uma forma de expor algumas das nossas suposições a priori como ocidentais, que vivem há muito tempo em democracia. Temos a ideia de que estamos a viver numa estrutura de estado que sempre existiu. Os mais críticos consideram-na o sistema menos mau e os menos críticos a única forma possível de ter uma boa vida em comunidade. Através do teatro quero encontrar uma forma de tornar novamente visíveis e móveis estas convicções firmes e não-interrogadas. Uma constituição é o contrato básico entre todos os cidadãos numa sociedade, servindo como medida para todas as decisões e todos os julgamentos. As democracias modernas assentam em eleições como o princípio organizador que transcreve a vontade dos cidadãos nas instituições que os governam. Enquanto exercício — e num primeiro momento só pelo prazer disso — quero inverter este princípio e conceber uma constituição imaginária que não se baseia na eleição (o voto com base em promessas para o futuro) mas na desqualificação (a eliminação baseada em ações passadas).
O que te fez decidir usá-la como base para uma obra de teatro?
Se propuseres um novo modelo ficcional às pessoas num contexto político, tens de lidar com a condenação, a dúvida, os medos e a resistência. O enquadramento do teatro funciona de forma completamente oposta. As pessoas vão ao teatro com vontade de acreditar na ficção que é apresentada. Combinar ambos os mundos permite-te usar o desejo de um público de teatro de acreditar numa história. E neste caso particular a história contada é a proposta de uma nova constituição. O “truque” provavelmente resume-se a isto: não tens de fazer as pessoas acreditarem na constituição, tens de fazê-las acreditar na ficção. A constituição é uma história e qualquer história tem uma espécie de contexto moral ou ético ou uma ligação com a realidade. O que fazes com esta história quando regressas ao mundo real? Espero que revele que a constituição que temos, a verdadeira, também é uma ficção, uma invenção. Foi construída há algum tempo e é apenas uma ferramenta como outra qualquer.
Como dizes, a política não pode (ou não deve) basear-se na suspensão da descrença, como o teatro se baseia. Mas à primeira vista uma constituição, um documento jurídico, não parece muito apropriado como texto para uma peça. Como pretendes transformar este tipo de conteúdo em algo teatral?
No mundo político, a campanha é o momento de apresentar um novo plano aos cidadãos e convencê-los a acreditarem nele. Este momento em que os políticos fazem as suas promessas foca-se muito mais na forma de comunicar do que no conteúdo. Quando olhamos para as eleições americanas, por exemplo, vemos que uma grande parte é espetáculo — é teatro. Pode-se transformar diretamente uma campanha política em teatro. É mais fácil imaginar a situação para Some use for broken clay pots como sendo uma conferência de imprensa, que faz parte de uma campanha eleitoral. Como numa conferência de imprensa normal há o protagonista, um candidato eleitoral, que apresenta o sistema. Sem fazer nada de especial, o público é colocado no papel de eleitor. E o candidato eleitoral tem o objectivo de convencê-los através da aparência e ações teatrais. Após a apresentação inicial o público terá tempo para fazer perguntas ao candidato sobre o seu programa. Esta é uma outra forma de descobrir o guião, que será apenas parcialmente revelado pelo monólogo escrito. O monólogo é o aperitivo. A sessão de perguntas e respostas é a história propriamente dita.
De onde surgiu o título Some use for your broken clay pots?
É comummente aceite que a democracia começou na Atenas clássica, em 5 a.C. Na verdade, os gregos antigos desprezavam a ideia de eleições. Consideravam-nas completamente antidemocráticas. Para controlar os seus representantes usavam um sistema chamado ostracismo. A cada ano os cidadãos podiam decidir banir alguém da cidade porque essa pessoa era considerada perigosa ou uma má influência para as políticas da cidade, por exemplo. É difícil imaginar isto hoje em dia, mas na realidade este exílio não era considerado uma punição. Era apenas uma medida para neutralizar alguém durante um tempo. Conservavam-se os bens da pessoa banida e estes podiam ser recuperados aquando do regresso, cerca de dez anos mais tarde. O termo ostracismo refere-se supostamente ao procedimento da votação anónima, no qual os nomes das pessoas a expulsar eram gravados ou em conchas de ostras (do grego: ostreon) ou em pedaços de barro partido (ostraka). Foi daqui que veio a inspiração para o título da peça. Os potes de barro partidos também são considerados inúteis, lixo. Mas na verdade podemos reutilizá-los, tal como podemos reciclar a ideia de desqualificação positiva.
A ideia de reciclar o principio abolido do ostracismo numa nova constituição é uma forma de escrever uma História alternativa?
Pode-se dizer que sim. É muito difícil reconstituir a forma como o legado dos gregos se transformou de facto no sistema democrático dos nossos dias. Há o Império Romano pelo meio que é muito importante. Uma série de aspetos da nossa democracia são romanos e não gregos. Os gregos escolhiam os seus governantes por sorteio e isto obviamente não passou para os romanos. Usar este tipo de nomeação aleatória pode parecer completamente louco, mas havia razões muito fortes de ordem filosófica, religiosa, mas também estatística e sociopolítica para isso. A nomeação por sorteio é a melhor ferramenta contra a corrupção e a melhor garantia de oportunidades iguais para que qualquer pessoa tenha acesso ao poder. Mas seria muito difícil de defender hoje. Na Grécia antiga os procedimentos de escolha muitas vezes envolviam um oráculo. O facto de encontrarmos esta seleção baseada no acaso e num contexto religioso não é de todo uma coincidência. Se escolhermos as coisas aleatoriamente, deixamos espaço para o desconhecido, para algo que não está no nosso poder decidir.
Os sistemas democráticos antigos eram muito ritualizados. Queres incorporar a importância do ritual na tua constituição?
Qualquer sistema que queira servir enquanto base comum para a organização das coisas entre pessoas só pode funcionar se as pessoas o respeitarem. E existem provavelmente duas formas de conquistar esse respeito. Uma é a repressão: se não respeitarmos o sistema, seremos mortos. O outro é a crença. Um sistema pode funcionar se as pessoas gostarem dele e acreditarem nele. Mas acreditar num sistema é um ato muito artificial. É um ato de fé e isso é um ato voluntário, uma escolha consciente. E o homem inventou os rituais para celebrar ou encorajar este ato. Através dos rituais a escolha racional transforma-se noutra coisa, numa vontade quase natural: o desejo. No Carnaval anual em Colónia, por exemplo, as pessoas tiram duas semanas de férias para participarem. Não porque têm de o fazer, mas porque assim o desejam. Em termos de ritualização, um sistema político deveria ser, na realidade, muito mais como um Carnaval. As pessoas votam não porque exista uma obrigação moral ou pressão social ou por descontentamento, mas porque acreditam que é a maneira certa de fazer as coisas. Idealmente, não devíamos ter quaisquer problemas com as taxas de participação nas eleições. A ritualização é uma submissão racional à irracionalidade. E isso é uma forma de sabedoria, que provavelmente perdemos nas nossas sociedades modernas. Um ritual é uma forma de passar por cima destes problemas que permanecerão irresolúveis porque nenhum sistema racional pode algum dia ser perfeito. Um sistema que é suposto interagir com um mundo em mudança, com pessoas reais, conhecerá sempre o fracasso. Por isso precisa de fé e no teatro precisa da suspensão da descrença. Não precisa de ser religioso. O super-humano é aquilo que as pessoas não conseguem compreender racionalmente. Coisas como a morte, o nascimento, ou os furacões.
Não és em sentido estrito um criador de teatro e olhas para ele como uma ferramenta. Quais as outras ferramentas que vais usar?
O núcleo do projeto é a nova constituição. Estamos a inventar uma constituição nova, desafiante, provocadora, para o nosso sistema democrático. Esse é o projeto e pode assumir diferentes formas. Será publicado um livro que é uma adaptação legível da constituição. E esta obra de teatro é um derivado disso. Também existem planos para um filme que vai pôr em cena o mesmo candidato dando uma conferência de imprensa após ter ganho as eleições. O tempo das promessas e do optimismo chegou ao fim. Será confrontado com problemas muito terra-a-terra. Portanto o filme será levado a cabo, na verdade, enquanto crítica desta nova constituição. Mas cada forma que o projeto assume será uma forma artística. Podíamos fazer a mesma coisa a um nível teórico, como um exercício em ciência política. Mas não sou um cientista político. Penso que um projeto artístico que trata um determinado assunto deve sempre inteirar-se desse assunto até certo ponto. Mas o tratamento do assunto é uma operação artística, o que implica o curto-circuito da linguagem como a primeira e mais proeminente forma de lidar com a realidade.
Menores 30 anos: 5€
Sinopse
Na cidade antiga de Atenas, um líder político que assumisse demasiado poder podia ser banido pelos cidadãos, num plebiscito conhecido como ostracismo, em que escreviam o nome do usurpador em cacos de barro. Em Some use for your broken clay pots [Algum uso para os seus vasos de barro partidos], o artista transdisciplinar suíço Christophe Meierhans parte desta prática antiga para questionar o sistema democrático atual. Em colaboração com uma equipa de académicos e constitucionalistas, Meierhans criou um espetáculo cujo texto base é nem mais nem menos do que a Constituição de um estado democrático radicalmente diferente. O texto oferece uma visão coerente de todas as instituições, órgãos, leis e procedimentos necessários ao estabelecimento de um regime democrático alternativo, funcional e talvez mais participativo e aberto do que o nosso.
Encenado como um momento de campanha eleitoral, Some use for your broken clay pots levanta uma questão fascinante: assumindo que a nossa identidade enquanto cidadãos de democracias ocidentais reflete o que está escrito na Constituição, então, a criação de novas leis criará novos cidadãos. Cabe ao espectador imaginar que tipo de cidadãos e que tipo de sociedade este novo regime poderia produzir.

