As Casas de Orfeu
Bios
Sei Miguel
Nascido em 1961, Paris, viveu no Brasil e em França até radicar-se em Portugal nos anos oitenta. Cedo escolheu o trompete pocket, instrumento que toca com consciência plena de toda a história do jazz. Diretor, arranjador e instrumentista utiliza no seu trabalho soluções avançadas e singulares de timbre, fraseado, espaço e silêncio, que vem aperfeiçoando há décadas. É dos raros músicos da contemporaneidade que encara e manuseia o jazz como um universo de progressão artística e humana de potencial aparentemente infinito.
Fala Mariam
Trombonista natural de Lisboa. Em 80, durante uma viagem pelo norte da Índia, intuiu o fogo sagrado da verdadeira música, que reencontra no jazz mais iniciático e na gratificante descoberta de diversos trombonistas. Sidewoman de Sei Miguel desde 83, participa em todos os trabalhos deste. Cultora de uma frase sem brilhos fáceis, capaz do expressionismo mas também da maior delicadeza, Fala Mariam é uma referência nos atuais desenvolvimentos de um dialeto livre arquitetado nas estruturas do bop.
César Burago
Percussionista nascido em Angola, dedica-se inteiramente às músicas do jazz. Presença regular nas orquestrações de Sei Miguel, tem dimensionado com o trompetista, desde 97, um plano de possibilidades e impossibilidades métricas, ambas expressas em trabalhos onde a percussão (principalmente a pequena percussão) ganha um enigmático valor melódico.
Pedro Gomes
Guitarrista que trabalha um vocabulário assente numa leitura transversal à história do blues, do rock e do jazz, dos seus expoentes planetários até às franjas e margens destes ecossistemas. Cofundador dos CAVEIRA, trabalha com Sei Miguel desde 2009, com quem gravou o duo Turbina Anthem (NoBusiness, 2011).
Aki Onda
Aki Onda é um músico de electrónica, compositor e artista visual. É particularmente celebrado pelo seu projecto Cassette Memories – uma série de trabalhos compilados a partir de um “diário sonoro” de gravações de campo recolhidas por Onda ao longo de um período de duas décadas. O seu instrumento predileto é o dispositivo de cassete Walkman. Não só realiza as suas gravações de campo com o Walkman, também manipula fisicamente nas suas atuações uma multiplicidade de Walkmen com o uso de eletrónica. Tem amplo trabalho no campo da fotografia, performance e instalação, tendo colaborado ao longo do seu trajeto artístico com um leque verdadeiramente intertextual de criador, casos de Michael Snow, Ken Jacobs, Loren Connors, Noël Akchoté, Linda Sharrock ou Blixa Bargeld.
Folha de Sala
As Casas de Orfeu (2009 – 2010 – 2013)
Orfeu, mera lenda sub-mitológica e regional, filho de uma musa e de um rei, pode parecer hoje o velho assunto que já não desperta ecos, se descontarmos a recente mania de acrescentar coisas às coisas – Orfeu acrescentou duas cordas às sete existentes em uma cítara da altura – e a sua morte pop : trucidado pelas fãs. Não a cítara, mas a lira, acabou por emblematizar o mito de Orfeu ao longo de séculos de cultos, artes e literaturas, veículos estes que trouxeram até nós cada episódio de sua vida como específicas alegorias. Orfeu patrono da música. Orfeu entidade civilizadora. Orfeu desafiador do destino, este o mais conhecido episódio, o da ninfa Eurídice, resgatada e não-resgatada aos infernos.
A mim Orfeu chegou-me pelo final dos anos sessenta e Negro. Mas creio que isso não interessa. Interessa talvez comunicar a ideia mestra desta terceira e última versão da peça. Orfeu, agora extremo-oriental na pessoa de AKI ONDA, modula a sua “lira” (um pré-instrumento, na verdade) que por sua vez modula um quarteto (o instrumento real, ou completo, do Senhor Onda). Em termos simples (?) de forma, assim acontece a peça. Este derradeiro quinteto órfico é com efeito o auge de vários trabalhos compostos “com um buraco no meio” / “the hollow pieces”, onde um músico muito especialmente convidado toca com relativa liberdade – diria lirismo, no seio de uma estrutura mais escrita, formalmente acabada, conquanto atenta.
Resta uma desgraçada pergunta, à qual aqui não se responde; existe, no malfadado tempo sucessivo, um percurso, uma busca, mas… o que são, quais são, as Casas de Orfeu?
SM setembro 2013
Menores de 30 anos 5€
Sinopse
Em 2008, Sei Miguel, compositor e trompetista radicado em Lisboa, e Aki Onda, artista plástico e sonoro japonês baseado em Nova Iorque, cruzaram as suas linguagens pela primeira vez num singelo concerto no Museu do Chiado. A intimidade deste encontro, acompanhado pelo percussionista César Burago, enfatizou a beleza dos mundos marcadamente pessoais, cosmopolitas e poéticos dos dois compositores. No reencontro, agora na companhia do habitual Unit Core de Sei Miguel, revisitam pela terceira e derradeira vez Casas de Orfeu, peça do trompetista português datada de 2009. Inicialmente apresentada em duo, esta “peça-mistério em oito quadros”, como o seu autor a define, assume a sua forma final num quinteto em estreita colaboração com Aki Onda. E é nesta exploração em palco de Casas de Orfeu que Sei Miguel e Aki Onda extrapolam as fronteiras formais dos vocabulários da improvisação e da música eletrónica, que habitualmente manuseiam, para criar um espaço imagético de profunda partilha. Uma experiência que Sei Miguel descreve como uma suave e alucinante descida aos infernos por uma boa razão.