It's Up To Emma
Bios
Emma Louise Niblett é o verdadeiro nome de Scout Niblett. Nasceu em setembro de 1973, em Staffordshire, Inglaterra, e aprendeu muito cedo a tocar piano e violino. Existem gravações de algumas composições ao piano, mas só alguns anos mais tarde o destino parece ser definitivo, adotando a guitarra. Desde as suas primeiras canções que os seus arranjos sempre foram minimais, procurando o diálogo instrumental entre bateria e guitarra — as suas primeiras canções a sério seriam incluídas numa demo em 2000, sendo mais tarde aproveitadas para o álbum de estreia Sweet Heart Fever. Foi nesta sua estreia que Emma decide usar o nome Scout, em homenagem a outra alcunha — Jean Louise “Scout” Finch, a protagonista do romance de 1960, How To Kill A Mockinbird, de Harper Lee. Em Nottingham, terminou os seus estudos em música e outras artes.
Niblett editou seis álbums. O seu primeiro disco foi um single, Split, com Songs:Ohia, em 2001, um pouco antes do citado Sweet Heart Fever. Os seus quatro álbuns seguintes acabariam por ser produzidos pelo poderoso Steve Albini. This Fool Can Die Now, em 2007, é o seu quarto trabalho, no qual tem Bonnie “Prince” Billy como convidado para quatro duetos. Em 2010, The Calcination of Scout Niblett marca a sua mudança para a Drag City, de Chicago, na qual também gravam Bill Callahan, Bonnie “Prince” Billy, Joanna Newsom ou Six Organs of Admittance. Em maio de 2013, It’s Up To Emma, o sexto álbum, é editado e recolhe, mais uma vez, muitos elogios da imprensa. Se nada tem falhado na sua discografia, talvez se deva ao seu obsessivo interesse pela astrologia — a escolha de datas e locais para a gravação da sua música depende, por inteiro, do estudo dos astros.
Miguel Ortiz Caturani tem colaborado em múltiplos projetos e músicos desde os anos 90, não apenas como compositor, guitarrista ou teclista, mas também, e sobretudo, tomando conta dos muitos detalhes de produção das digressões. Cresceu na Andaluzia e o seu interesse pela cultura alemã e pelo mundo dos concertos levou-o até Colónia, onde vive e trabalha há mais de dez anos.
Jan Phillipp Janzen é um baterista alemão, baseado em Colónia. Von Spar é a sua principal banda — um projeto que cruza o krautrock germânico com a modernidade. Foi justamente com Von Spar que teve a hipótese gravar uma versão de Ege Bamyasi, dos Can, com Stephen Malkmus, ex-Pavement. A edição existiu apenas em vinil e foi lançada no Record Store Day de 2013. Janzen é ainda o baterista de serviço para The Field, um projeto techno ambiental de Axel Willner.
Joana Guerra é uma violoncelista cantautora. Nascida em 1983, aos dezasseis anos inicia os estudos musicais de violoncelo, colaborando posteriormente em diversos projetos que abrangem diversos estilos como folk, rock ou improvisação. Em 2013, edita Gralha, o seu primeiro álbum a solo, gravado por João Alegria Pécurto. Participa ainda no trio de música improvisada Bande À Part, com Ricardo Ribeiro e Carlos Godinho, com o qual tem tocado ao vivo com Maria Radich, Jorge Nunes e Yaw Tembe. Terminou, recentemente, duas longas viagens: uma residência artística em São Tomé e Príncipe e a digressão de Gralha por Espanha e França.
Carlos Santa Clara, nascido em Birmingham, Inglaterra, em 1979, inicia os seus estudos musicais aos 6 anos no Zimbabué. Apesar da sua educação com base na música clássica, o interesse pelo jazz, rock ou eletrónica, por exemplo, levou-o a ingressar no Centre des Musiques Didier Lockwood, em 2007. Atualmente, é docente na Escola de Jazz do Barreiro, na St. Julian’s School e nos cursos de Música Tradicional da Fundação do Inatel. Violonista do grupo José Barros e Navegante, Santa Clara atua regularmente com Tito Paris e Celina Pereira. Participou no álbum Em Busca Das Montanhas Azuis de Fausto Bordalo Dias.
Folha de Sala
Excertos de entrevistas com Scout Niblett
in The Rumpus e Popingays
Emoções
Acho que tomei ainda mais consciência da minha ira com It’s Up To Emma. Este disco parece ser uma reflexão de um caminho através de todas as emoções. É como um documento sobre uma evolução emocional. Como se percorresse os diferente estados da ira, mas sempre sobre o mesmo tema.
O tema principal do álbum é a separação porque eu tive uma separação. Foi o que me aconteceu. As palavras podem parecer mais diretas do que noutros discos, mas foi porque esse foi o facto predominante na minha vida nessa altura. Não conseguia sair de casa, estava assoberbada. Eu bem queria cantar outra coisa, mas as canções que me chegam têm esse tema, e não é como se eu pudesse escolher o que acontece nas minhas canções.
Produção
Fui eu que produzi o álbum. Eu sabia exatamente como queria que o álbum soasse e precisei de seis tentativas em quatro estúdios diferentes com quatro engenheiros de som diferentes durante um período de sete meses para ter as canções tal como desejava. Conseguimos misturar três temas em estúdio, mas o tempo esgotou-se e tive de terminar eu própria as misturas, em casa, no meu computador portátil.
Escrita de canções
A escrita de canções nunca é verdadeiramente um ato consciente para mim, exceto pelo facto de ter noção que é chegada a altura de tirar algo de mim; ou de colocar algo em mim… depende do modo como olhamos para isto. Então, entrego-me à guitarra e ao sistema de som e deixo que o inconsciente faça o que tem a fazer. Isto repete-se ciclicamente durante um período de tempo e, lentamente, um leque de canções emerge fazendo um certo sentido como um corpo de trabalho que, mais tarde, se transforma num álbum.
Inspiração
A beleza da inspiração é que não consegues prever o que aí vem. Eu gosto que apareça assim, do nada, imprevisível. Apenas temos de estar abertos para a sua chegada. Na verdade, é um processo misterioso, e eu não vou querer deslindá-lo nunca. É como uma surpresa divina; nesse sentido, é como uma dádiva.
It’s Up To Emma
O título funciona em vários planos: de algum modo, refere-se ao facto de ter sentido que agora era mesmo comigo, tinha de ser eu a terminar o disco. Senti uma responsabilidade que nunca senti até então. Mas o título também se relaciona com diferentes estados emocionais e, passado um tempo, quando me confrontei com essas emoções, era mesmo “up to me”.
Eu falo de mim como Emma e não como Scout porque era eu que via as coisas estando fora de mim. Aliás, eu via as coisas como se fosse a minha mãe a olhar para mim. E ela chamava-me Emma e não Scout, claro. Então, revi situações que tive nos últimos anos, que me foram muito difíceis, e conseguia ouvir a voz da minha mãe dizendo “é a nossa Emma que vai decidir”, relembrando-me que sou eu que decido a minha vida, não pelo que me acontece mas sim pelo que faço com aquilo que me acontece.
Em It’s Up To Emma, predominam os riffs secos e contidos, soberanos sobre a bateria, refreando-lhe os ritmos, e abundam os espaços entre a entrada dos acordes e as palavras; como se estas, exprimindo o desamor e outros desgostos, exigissem de ouvinte uma pausa, um recuo. Enfim, o rock and roll desta inglesa resiste pungente, duro, reduzido ao essencial (atenção à fabulosa Gun). Mas também se escutam (mais) cordas e a fragilidade altiva da voz ousa quebrar-se, amacia-se no fabuloso My Man, onde a melodia e o refrão ficam literalmente à solta.
José Marmeleira in Time Out Lisboa
Menores de 30 anos 5€
Sinopse
Habituámo-nos a ver Scout Niblett sozinha, em cima de um palco, mas também nos discos. Mesmo quando há músicos à sua volta, é ela que concentra as energias, é ela que faz tudo acontecer. A utilização minimalista dos seus recursos, fazendo arranjos simples e eficazes, muitas vezes apenas com guitarra e uma bateria que espera a explosão, serve o propósito claro de nos atingir rapidamente, sem que nada nos distraia das suas palavras, dos seus relâmpagos, das suas vinganças. A utilização recente de arranjos de cordas não a desvia da sua missão, de nos relatar amores e desgostos; apenas torna tudo mais belo e, simultaneamente, mais doloroso. It’s Up To Emma, o seu álbum deste ano e, provavelmente, o melhor álbum da sua carreira, caminha como sempre, por entre brasas e dentes cerrados, mas tudo parece mais épico, mais perto da ilusão de redenção. Gun, logo ao abrir o disco, parece resolver o problema no modo mais cruel e violento. Desta vez, no Teatro Maria Matos, Scout Niblett não está sozinha em palco ― cinco músicos irão acompanhá-la neste turbilhão de emoções universais do qual não conseguiremos escapar.