Bios
Rodrigo Amado
Quando, em Março de 2013, recebemos na nossa sala o Motion Trio com Peter Evans, quisemos demonstrar como este concerto chegava numa altura de particular felicidade profissional para Rodrigo Amado, com inúmeras edições no escaparate, algumas delas com louvores assinaláveis. Dois anos e meio depois, é impossível escaparmos à repetição. Uma mão cheia de novos discos continua a povoar listas de preferências, entre eles, Live in Lisbon (2014), justamente o resultado do seu concerto no Teatro Maria Matos com Peter Evans, e Wire Quartet, com o seu novo agrupamento, com Manuel Mota, Hernâni Faustino e Gabriel Ferrandini. Amado permanece um requisitado saxofonista para músicos e projetos de várias áreas musicais, e tem mostrado a sua arte em concertos e digressões no estrangeiro. A um pico sucede um ainda maior: é deste modo que se mede a ascensão e o sucesso de uma carreira. E o que se espera do futuro (pelo menos) próximo? O brilhante This Is Our Language, com os insuspeitos Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano, acaba de aparecer nas lojas e o concerto de Black Bombaim no festival Milhões de Festa, em que Amado repetiu a participação como convidado, também será editado por estes dias. Depois da Bélgica e da Alemanha em Outubro, Amado leva o seu trio à Rússia em Dezembro; para o ano, o Brasil servirá para concertos, residência e gravações. Pelo meio desta imparável agenda, este concerto único e especial – e há muito planeado – com Matthew Shipp.
Gabriel Ferrandini
Nasceu em Monterey, na Califórnia, filho de pai português natural de Moçambique, mas emigrado no Brasil desde os 2 anos de idade, e de mãe brasileira com ascendência italiana que foi viver para os Estados Unidos com 16 anos. Em Portugal, Gabriel Ferrandini está desde os 9, tendo sido por cá, ironicamente, que descobriu o jazz e a improvisação. Explica esse facto a riqueza da cena jazzística e improvisada nacional, que tantas repercussões começou já a ter no mundo – como se verifica, de resto, pelo facto da editora discográfica portuguesa Clean Feed ter sido escolhida em 2008 pelo jornal online All About Jazz como Etiqueta do Ano. É neste contexto que se vem afirmando o jovem músico, e tanto assim que está a tornar-se muito rapidamente num dos mais importantes bateristas em atividade no mais ocidental dos países europeus. Com o Motion Trio de Rodrigo Amado, o RED Trio (talvez o seu projeto mais visível e exportável), os Caveira e em outros contextos, com figuras de renome como John Butcher, Mattias Stahl, Nate Wooley, Thurston Moore, Jon Irabagon, Rob Mazurek, Raymond Strid ou David Stackenas. Nessas colaborações, Ferrandini impôs uma perspetiva muito pessoal e irrequieta do trabalho com as baquetas, algures entre os estilos de Paul Lytton e Paal Nilssen-Love.
Miguel Mira
Com inúmeros projetos e participações no ativo, Miguel Mira desenvolve a sua arte em três áreas bem distintas: como violoncelista, pintor e arquiteto. Nos anos 1970, estuda guitarra na Academia dos Amadores de Música com o Professor Pinheiro Nagy. Durante o final dos anos 70 e início de 80, estuda contrabaixo no Hot Clube de Portugal, com o Professor Zé Eduardo. Durante os últimos quarenta anos, em concertos, private sessions ou em estúdio, teve a honra de tocar, aprender e estudar com músicos como Celso de Carvalho, António Ferro, João Lucas, Patrick Brennan, Carlos Zíngaro, Scott Fields, Ernesto Rodrigues, Joe Giardullo, Ulrich Mitzlaff ou Paulo Curado. Atualmente, para além da presença que assegura no Motion Trio de Rodrigo Amado, mantém um outro trio com Pedro Sousa e Afonso Simões, e um celebrado quarteto de cordas com Carlos Zíngaro, Hernâni Faustino e Marcelo Reis.
Matthew Shipp
Há dois mundos, que nutrem alguma distância um do outro, que se lembram de Matthew Shipp com alguma recorrência. O mais normal é, claro, o mundo do jazz e da improvisação, que continua a deliciar-se com a sua música, com os seus diálogos com os seus pares; o outro, mais híbrido e eclético, recorda-o como um intrépido aventureiro por terrenos pouco ortodoxos e inesperados. Como é de esperar, tudo começa com o jazz, com lições de piano em criança. A sua mãe, amiga de Clifford Brown, terá decerto contribuído para que o jazz fosse, desde sempre, um local de atração para o jovem Matthew Shipp, embora o rock tenha servido de óbvia rebelião adolescente. Na fase adulta, a pedagogia académica e as aulas com Mat Maneri lançaram-no para os braços do jazz e da improvisação, desenvolvendo um estilo único e reconhecível. Deve a David S. Ware e Roscoe Mitchell guarida musical quando se mudou para Nova Iorque, antes de se dedicar à sua própria música. Mas o seu apetite insaciável levou-o a nunca desprezar outras formas musicais, deixando que o seu jazz fosse integrado e integrante de muitos outros estilos. Durante a primeira década deste milénio, Shipp assume responsabilidades editoriais na Thirsty Ear, editando também alguns projetos especiais que iriam mexer com alguns fundamentos: eletrónica ou hip-hop passam a ser campos férteis para a sua curiosidade e para a utilização da sua arte do improviso. Nos últimos anos tem regressado ao jazz, editando muitos discos em inúmeras formações e projetos regulares, provando continuamente que o seu caminho está longe de se esgotar e o diálogo, como este que terá com o Motion Trio de Rodrigo Amado, faz parte de um processo de aprendizagem que nunca se interrompe.
Sinopse
Ainda a poeira da associação de Motion Trio a Peter Evans não assentou ― dois álbuns editados em 2014, um deles o registo do concerto dado no Teatro Maria Matos, e uma vastíssima e impactante digressão pela Europa no início deste ano ― e já vislumbramos uma nova dádiva para nos deliciarmos. Depois de uma curta pausa para rodagem do seu trio em estado puro, que incluiu a gravação de um novo disco nessa formação, Rodrigo Amado volta a propor um novo desafio, a si e aos seus músicos, convidando mais uma figura de exceção do jazz que irá continuar a expandir os horizontes e qualidades do Motion Trio. Matthew Shipp, pianista incontornável do jazz dos últimos 20 anos, tem marcado a história pela sua originalidade, generosidade e espírito aventureiro. Desde meados da década de 1990 que a sua discografia tem desenhado um soberbo e prolífico corpo de trabalho, assente na exploração a solo do seu instrumento e no diálogo aberto com músicos de referência como David S. Ware, William Parker e Joe Morris, entre muitos outros. Foi na Blue Series da Thirsty Ear, em que desempenhou funções de exemplar curador, que nos mostrou um olhar visionário para o jazz do futuro, demonstrado na perfeição pela sua colaboração com o hip hop dos Anti-Pop Consortium em 2003. Um dos melhores trios do jazz atual, e em soberbo pico de forma, o Motion Trio de Rodrigo Amado prepara-se para receber a música completa de Matthew Shipp e professarem juntos a arte do improviso.