Luminismo
Sinopse
A guitarra portuguesa suporta aos seus ombros a maior e mais pesada das heranças lusitanas ao assumir-se como o veículo do fado e, consequentemente, o nosso mais legítimo instrumento. No entanto, há uma espécie de destino cruel para o seu repertório solístico, parecendo permanentemente refugiar-se no valioso espólio que Carlos Paredes nos deixou, não admitindo nem muitos, nem importantes concorrentes, como se a guitarra portuguesa tivesse esgotado o seu léxico. Aliás, é o próprio Ricardo Rocha – talvez o melhor solista da actualidade – que confessa regularmente o seu relativo desapego que nutre pela guitarra, desiludido pela sua rigidez musical. A relação de todos nós com o instrumento que melhor nos poderia singularizar é, também por si, a maior prova das nossas características e um modo muito idiossincrático de como nos definimos colectivamente. Ainda assim, na exígua lista de soberbos executantes, o nome de Ricardo Rocha parece alumiar um pouco do futuro que esperamos para a guitarra, atirando-a para um mundo novo de referências – incluindo as tradições lavradas por Carlos Paredes e Pedro Caldeira Cabral – que nos devolve a esperança que a história do instrumento não se afunde nas páginas e nas gravações de um arquivo etnográfico. Também por isso, esta noite é rara; tal como as hipóteses de ouvirmos Ricardo Rocha em palco, sozinho com a sua e nossa guitarra.