Roger Bernat
“There’s no such thing as society”
Bio
Roger Bernat
Estudos incompletos em pintura e arquitetura. Galardoado com o Prémio Extraordinário 1996 do Institut del Teatre de Barcelona. Em 2008 começa a criar espetáculos onde o público ocupa o cenário e se torna protagonista: “O espectador atravessa um dispositivo que o convida a obedecer ou a conspirar e, em todo o caso, a pagar com o seu próprio corpo e a comprometer-se”.
Alguns destes espetáculos são Domini Públic (2008), Pura coincidència (2009), La consagración de la primavera (2010), Please Continue: Hamlet (2011), Pendiente de voto (2012) ou Re–presentación: Numax (2013). Estes espetáculos foram apresentados em mais de vinte países.
Folha de Sala
Instruções de uso:
- A primeira instrução: não continues a ler! Como acontece com os jogos (e com os eletrodomésticos) é mais fácil descobrir as regras enquanto se joga. Se mesmo assim preferires saltar a primeira das instruções, aqui vão as seguintes:
- Projetos como Domini Públic, La consagración de la primavera ou Pendiente de voto nascem sem a aura que Benjamin atribuía a grande parte da criação pré-industrial e que durante o século XX o teatro se empenhou em conservar. São espetáculos que, em vez de se apoiarem na presença e nas emoções do intérprete, se afirmam sobre um vazio que tu, como espectador, terás de enfrentar.
- Nos meus espetáculos parece não haver atores nem cenografia. Não poderás identificar-te com as pessoas e com os objetos que deviam povoar o cenário. Não terás outras coordenadas além de poucos sinais num cenário do qual tu e os outros espectadores serão os únicos habitantes. Tu serás ator do espetáculo. O que não há são espectadores.
- Serás interpelado e convidado a responder. Terás de decidir se queres seguir as indicações ou ficar de lado. Será com as tuas respostas – ou com os teus silêncios – que o espetáculo ganhará forma. Serás corresponsável pelo espetáculo.
- O teu papel de espectador será o de avatar que assume uma identidade para protagonizar uma história. A tua responsabilidade estará circunscrita ao tempo e ao espaço da ficção.
- Estes espetáculos não promovem a participação. São dispositivos inertes até algum espectador lhes dar corpo. Se decidires não os usar e nenhum dos outros espectadores o fizer, o espetáculo desenrolar-se-á virtualmente, como quando lês uma obra de teatro ou um romance.
- Nenhum espectador terá o privilégio de observar, de fora, o que os outros fazem. Inclusivamente, se fores um desses espectadores que decide não participar, farás parte do dispositivo. Continuando com a analogia anterior, fazes parte do livro a partir do momento em que o decides ler, mesmo que saltes alguns parágrafos ou capítulos inteiros.
- Tomarás decisões que não serão partilhadas pelos restantes espectadores. O mecanismo tende a individualizar- Esta solidão, que é mais imaginária do que física dada a presença dos outros espectadores, acentuar-se-á porque, como aponta Agamben, o dispositivo tende à evacuação de toda a autoridade1. Não te encontrarás perante um sistema forte que terás de enfrentar fazendo da união uma arma e, ao mesmo tempo, gerando a sensação de comunidade. Aqui sentir-te-ás sozinho.
- O dispositivo isolar-te-á e confrontar-te-ás com o teu próprio desejo (de espetáculo). Mais do que ver um espetáculo, atravessá-lo-ás. E, no entanto, perguntar-te-ás o que significa isso de fazer parte de uma comunidade ou se tem algum sentido falar dela. Por outras palavras, perguntar-te-ás o que dizemos quando dizemos nós.
- Ao contrário do espectador que do seu lugar pensa poder julgar, tu estarás imerso num dispositivo em que terás de te orientar sem nunca saberes se escolhes o caminho correto. Ser-te-á difícil julgar e, provavelmente, sairás da sala a julgar-te a ti mesmo, a perguntar-te se o fizeste bem. O espetáculo, no entanto, não tem uma formalização ideal. Cada nova apresentação é criadora de novas formas.
- O preço que terás de pagar para atuar será o de fazer parte de um dispositivo que nos primeiros compassos te parecerá alheio. Estarás imerso num mecanismo do qual desconhecerás os objetivos e temerás a servidão. Terás de obedecer ou conspirar ou, numa versão perversa da equação, obedecer conspirando. Mas, em todo caso, terás de pagar com o teu próprio corpo e comprometer-
- Por último, não é uma instrução mas sim um consolo pela boca do físico John Archibald Wheeler: “Por acaso o universo, de alguma forma estranha, é trazido à existência pela participação de quem participa? O ato vital é o ato da participação. A participação é o novo conceito incontestável oferecido pela mecânica quântica. Derrota o termo “observador” da teoria clássica que designa o homem que está seguro por trás de um vidro grosso e protetor e que observa o que acontece sem fazer parte”2Roger Bernat
—————
- Què vol dir ser contemporani? Giorgio Agamben, 2008.
- Gravitation. John Archibald Wheeler, 1973.
Sinopse
Em 1979, depois de dois anos e meio de greves, mobilizações e autogestão, os trabalhadores da fábrica de eletrodomésticos Numax decidiram fazer um filme ― Numax presenta ― com o realizador catalão Joaquim Jordà a narrar esta luta. O filme é uma recolha das discussões e de alguns comités e assembleias dos trabalhadores da fábrica. Em Re-presentación: Numax, Roger Bernat convida o público a participar na reconstituição de algumas cenas do filme de Jordà, recriando os debates e as lutas dos operários da Numax.