Martim Pedroso
Auditório Santa Joana Princesa
Sinopse
Purgatório é um texto que, à partida, não tem nada a dizer mas propõe uma operação. Não procura representar, contar, signi car, nem mesmo pôr um problema. Trabalha na possibilidade de um acontecimento.
É um dispositivo que se prende ao “aqui e agora” e ao “lugar” onde estamos: flutuante como os sacos “Minipreço” nas águas mornas da vida quotidiana e do teatro contemporâneo. Purgatório procede a partir de golpes, tentativas e experiências. Tenta desamarrar qualquer coisa. Reúnem-se as condições, treina-se, aquece-se, tentam-se movimentos, convoca-se um repertório de gestos, de modalidades de acção, de truques de profissional. Pouco a pouco, Purgatório lança-se numa dança incongruente, cómica, à volta de um acontecimento impossível, fantasmagórico, terrivelmente forçado como se o que está para acontecer só acontecesse se fosse de um modo violento: uma interrupção, um sismo na ordem habitual das relações. À sua maneira um pouco maldosa, o espectáculo propõe ao espectador uma armadilha: a relação teatral fixa-se não mais como comunicação, transmissão, participação ou partilha, mas como “síndroma de Estocolmo”.