Filipa Francisco com Francisco Camacho, Miguel Pereira e Sílvia Real
Folha de Sala
Projecto Espiões ou a arte do encontro/reencontro
Qualquer afirmação que se queira dar como definitiva sobre o que foi ou como foi – neste caso está em causa uma abordagem possível a uma História da Dança Contemporânea Portuguesa e todas as interrogações que tal exercício suscita – corresponde a um acto de falsidade perante a complexidade do sentir e existir humano e artístico. Também porque a composição de uma visão do que foi, do que se foi, e do que foi activado e revivido, alterada inevitavelmente para um presente, é sempre simultaneamente criação de algo novo, recriação, reinvenção e, a amálgama de tudo isto: mistério. Mistério na formulação contemporânea da obra que convoca momentos das histórias íntimas, colecções privadas, dos artistas envolvidos, que diz do fascínio enigmático que é a tentativa de religação com o passado, que é o mesmo que a urgência de religação num estar presente consciente desse estado. Este mistério decorre da natureza da acção criadora: simultaneamente humana e artística. E mais ainda porque não é exercício de memória de apenas uma pessoa.
Uma das características do trabalho que Filipa Francisco tem vindo a desenvolver nos últimos anos, passa pelo encontro com o outro – “Íman” (2008), “construído a partir das memórias individuais de intérpretes de dança africana e hip hop do bairro da Cova da Moura”; “A Viagem” (2012), “que explora a dança tradicional como uma forma de ligação ao corpo”, ou “Força” (2015), criado para a Companhia Maior… Para além das questões artísticas e sociais, estas e outras obras, tal como a nova, implicam um posicionamento político, desde logo ao tomar a forma do encontro/partilha/confronto como estratégia de composição.
Neste novo “Projecto Espiões”, essa particularidade também lá está, mas de modo diverso. Agora trata-se de um encontro/reencontro com o outro, o que sugere um coerente aprofundamento dessa natureza de pesquisa pondo em diálogo/confronto/partilha o diverso – identidades distintas, muito marcantes e afirmativas. Por ser este um encontro/reencontro que parte da especificidade da história recente da dança contemporânea portuguesa, ainda a pulsar naqueles corpos, adensam-se as questões que são colocadas na equação da peça. Afinal de que história da dança falamos? A quem pertencem aquelas memórias? Pode o corpo ser um arquivo vivo de gestos vividos ou observados noutro corpo? Se considerarmos que sim, outra questão se coloca: pode o corpo isolar os gestos vividos ou observados em outros corpos, sem trazer a essa memória física todo um complexo contexto que lhe atribui um significado particular (tanto na paisagem envolvente, como interior, dos afectos)? O que entendemos por ‘interpretar’, ‘ser espectador’ ou ‘observar’? Que museu vivo se constrói a cada vez que, no presente, se procura pôr em relação tempos distintos?…
“Espiões” foi primeiro, em 1998, uma peça que estreou na Black Box do Centro Cultural de Belém (Lisboa), em que três intérpretes de dança, ainda com pouca obra criada em nome próprio, coreografaram solos para nomes de uma geração anterior à deles. Filipa Francisco coreografou para João Garcia Miguel, Carlota Lagido coreografou para Francisco Camacho e João Galante coreografou para Madalena Victorino. São quase vinte anos de história – daquela com «H» grande e da pequena, mais intimista e de detalhes pessoais. Já então o projecto questionava a ideia de autoria, do lugar que cada indivíduo (neste caso artistas) ocupa num determinado contexto. E fazia mais: propunha o jogo da troca de lugares. Os intérpretes coreografaram coreógrafos que se tornaram intérpretes dos intérpretes tornados coreógrafos. Mas eis que, tomando o mesmo título, a questão do lugar justo para alguém num dado contexto, torna-se ainda mais premente, mesmo se no processo novas questões e possibilidades de pôr em relação os caprichos da memória surgem, conforme avançam os encontros e partilhas entre os criadores envolvidos.
As ‘colecções privadas’ de recordações superam em relevância e significado a tendência para impor um sistema de valores e de qualificações único. As ‘colecções privadas’ implicam mudanças de lugar, porque cada artista nesta obra se está a confrontar consigo próprio, com a sua relação particular com a história de que faz parte e com o outro que é seu companheiro de viagem nesta narrativa, tanto ao nível da vivência da História recente da dança portuguesa como ao nível dos afectos e cumplicidades. Esta abordagem contém ainda uma outra camada, que consiste na selecção que Filipa Francisco faz de todo o material evocado por cada um dos intérpretes e por si própria, construindo uma “supra-colecção privada” que vai buscar elementos e referências às colecções individuais dos intérpretes”.
*Cláudia Galhós
Este texto não foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
Sinopse
Este espetáculo aborda a relação entre as artes performativas e a construção e transmissão da memória cultural. A partir das memórias individuais e coletivas de alguns dos artistas da sua vida – os coreógrafos-intérpretes Francisco Camacho, Miguel Pereira e Sílvia Real – Filipa Francisco identifica um património ímpar e desenha um gesto criativo e afirmativo face à escassez de arquivos e documentação sobre a dança no panorama nacional português. Na sequência de projetos anteriores como Íman, construído a partir das memórias individuais de intérpretes de dança africana e hip hop, ou A Viagem, que explora a dança tradicional como uma forma de ligação ao corpo, Projeto Espiões propõe valorizar uma herança incorporada através de um confronto entre repertórios e imaginários pessoais, e novos gestos coreográficos.