Alexandra Bachzetsis
Bom dia, Atenas!
Folha de Sala
No final dos anos 60, Trisha Brown criou uma série de peças dedicadas à exploração do movimento e do comportamento de todos os dias. De modo a desnaturalizar a relação do bailarino e do público com os usos quotidianos do corpo, Brown decidiu pôr em cena o movimento numa parede vertical, desafiando a gravidade por meio de arneses e cordas. Deslocado para uma estrutura vertical, o movimento quotidiano foi visto pela primeira vez como um gesto altamente encenado, quase uma performance individual virtuosa de um guião cultural normativo incorporado.
Um crítico diria: o solo PRIVATE: Wear a mask when you talk to me, de Alexandra Bachzetsis, poderia ser considerado uma espécie de “equipment piece” [peça de equipamento], em que o que se explora é o modo como os comportamentos quotidianos de género e identidade sexual são reproduzidos. Trazendo a tradição coreográfica de Brown para o mundo altamente tecno-barroco da cultura pop global, PRIVATE é um relatório não solicitado, com 53 minutos de duração, sobre o modo como o género e o desejo sexual são fabricados através da repetição ritualizada de gestos corporais no seio do regime neoliberal.
Em PRIVATE, há danças orientais de drag queens, exercícios de ginástica e yoga ocidentais que se metamorfoseiam em poses futebolísticas e pornográficas, gestos estereotipados do treino teatral usado em publicidade e a repetição por parte de adolescentes dos rituais de Michael Jackson. Há Trisha Brown em transição para o rebético [tipo de música popular e urbana da Grécia] e uma única voz a lutar para sobreviver aos teatros sociais da identidade nacional e de género.
No entanto, PRIVATE não mobiliza as técnicas de paródia que têm sido desenvolvidas nas culturas feminista e queer durante os últimos anos. Não procura representar o processo de incorporação do género e das normas sexuais, antes explora as instâncias de fracasso performativo e de transição interior que permitem que surjam a agência e a resistência. Quanto da história da disciplina e da dissidência pode estar contido num único gesto? Será que o movimento pode ativar a memória dos corpos subalternos que têm sido enterrados debaixo dos corpos hegemónicos?
Eu diria: oiço a tua voz a cantar para mim quando o meu próprio corpo cai num vazio entre notações culturais de género. A tua voz, exausta de combater códigos de género naturalizados, lembra-me que o vazio representa uma oportunidade de agência e sobrevivência. PRIVATE é um hino intemporal às transições. É uma notação do seu próprio desenvolvimento interior, mas também um esboço lutuoso de possibilidades que estiveram outrora em aberto, mas que já não podem ser realizadas. No fim de contas, esta dança não é sobre performatividade normativa de género, mas antes sobre a energia somática que nos permite introduzir momentos daquilo a que Jacques Derrida chamava “anarquia improvisadora”, de modo a interromper a história e a desencadear a mudança cultural e a transformação política.
Paul B. Preciado