Di Lontan
Folha de Sala
As linhas do horizonte, do recorte da montanha, da curva da praia, delimitam a matéria cintilante da areia, do gelo, das estrelas espelhadas, ao longe, no mar. Luzes ancestrais, grãos de antigos rochedos, efémeros flocos de neve, únicos e imprevisíveis, provocam esse cintilar brilhante e instável que é, afinal, o indício de vida das coisas inanimadas.
Di Lontan é um pedaço da vida da Joana, do Eduardo e do Luís, que se juntaram uma vez mais em 2014 para criar uma música nova, brilhante e transparente, onde a energia de cada nota, de cada ideia, de todos os sons, surge na sua máxima plenitude. A improvisação continua a gerar a riqueza do material sonoro, muitas vezes explosivo e fulgurante, envolvido em ténues linhas formais que asseguram um contínuo eficaz e delicado. Cintilante, porque respeita e ultrapassa a natureza instrumental, o envelope sonoro ataque-ressonância, típicos do piano, da harpa e da guitarra. O Powertrio compõe assim uma outra natureza, novos materiais e suas ressonâncias, próximos de uma estética granular, minuciosa e fluorescente. Encontro, empatia, tolerância, liberdade — a música de três músicos.
As acelerações entrecruzadas das suaves isorritmias do início de À flor do mal conduzem-nos a uma música granular que dilui a harmonia em nuvens de sons. Em O nervo e a outra dança, a espessa melodia grave da harpa, evocando um tema de passacaglia, revela-se afinal uma espécie de ressonância antecipada, engolida pelo crepitar envolvente e dando lugar a harpejos eletrónicos flautados, delicados e fascinantes. A nota pura e melódica é sublimada mas, no entanto, permanece, como em Di lontan fa specchio il mare (Constança Capdeville), desta feita desafiando a memória de um material sonoro fixo e hierático no estirar do tempo. Se o disco começa com uma ressonância sem ataque, o eco de tudo o que entretanto ouvimos pode vislumbrar-se na longa ressonância composta que termina abruptamente o Divertimento, música cheia de vida, entre ondas e corpúsculos, diatónicos e percussivos.
Guilherme Proença, musicólogo
Sinopse
Seria uma tremenda injustiça declararmo-nos surpreendidos com a nova música de Powertrio. Nos últimos anos, Joana Sá, Luís José Martins e Eduardo Raon foram comprovando a solo e em diversas formações – umas oficiais e outras mais espontâneas – o quanto foram evoluindo no desenho das suas composições ou na inventividade das improvisações. Passando, claro, pela técnica cada vez mais apurada e extravasante com que dominam o piano, a guitarra e a harpa, respetivamente.
Habituados a uma proximidade íntima que a amizade de longa data proporciona, voltaram a juntar-se em 2014 para, segundo as suas palavras, uma “residência na residência”, ou seja, um prolongado período em que coabitaram, partilhando, para além da música, a vida diária de cada um dos músicos. Foi dessa imersão total, parte laboratório, parte processo criativo intenso, que nasceram as novas ligações, ideias e linguagens que originaram as composições que se juntaram no novo álbum, magistralmente gravado, editado agora pela Clean Feed e Shhpuma (a primeira edição conjunta). É esta onda de nova música, arejada pela soberba forma individual destes músicos de exceção, que vamos estrear no nosso palco, para comprovarmos uma vez mais que estamos em presença de um dos momentos mais felizes e inspirados da música contemporânea em Portugal.