Primeiros Sintomas
Bios
Os Primeiros Sintomas são um grupo de teatro sediado em Lisboa, com direção artística de Bruno Bravo. Formado em 2001, o grupo tem desenvolvido uma produção de teatro sustentada, alternando entre salas de teatro e espaços menos convencionais, insistindo numa dramaturgia variada, entre peças de teatro clássicas e contemporâneas, ou na adaptação de obras literárias. Nos textos contemporâneos, destaca-se a colaboração de Miguel Castro Caldas na escrita de alguns espetáculos, como Repartição (Culturgest, 2008), Os Assassinos (TEP, 2011 e Teatro da Cornucópia, 2012) e As Bodas de Fígaro Uma Tradução (Teatro Maria Matos, 2012), entre outros. Na adaptação para palco de obras literárias, os espetáculos Frankenstein, a partir de Mary Shalley (Abril e Maio, 2002) e O Retrato de Dorian Gray, a partir de Oscar Wilde (Ribeira, 2013 e Negócio/ZDB, 2014). Os Primeiros Sintomas trabalharam também peças de Ibsen, Strindberg, Tchékhov, Brecht, Oscar Wilde, Beckett, Bernard Pomerance, Edmond Rostand e Mark Ravenhill.
Receberam os prémios: Prémio Time Out 2015 para melhor ator (Paulo Pinto) e melhor espetáculo, com Cyrano, de Edmond Rostand, encenação de Bruno Bravo; Menção Honrosa da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, atribuída em 2014 a O Retrato de Dorian Gray, com encenação de Bruno Bravo; Menção Honrosa da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, atribuída em 2013 ao espetáculo Salomé, de Oscar Wilde, com encenação de Bruno Bravo; Prémio da Crítica 2007 para o espetáculo Foder e Ir Às Compras, de Mark Ravenhill, encenação de Gonçalo Amorim; Globo de Ouro 2005 para melhor espetáculo de teatro e melhor ator (Miguel Seabra) com Endgame, de Samuel Beckett, encenação de Bruno Bravo.
Desde 2010 os Primeiros Sintomas têm como espaço próprio a Ribeira, no Cais do Sodré, que dinamizam como um pequeno teatro, com produções próprias e acolhimento de espetáculos de outros grupos e criativos.
Folha de Sala
TRAGEDIA DI UN BURATTINO
Collodi escreveu para crianças um livro belo e terrível. Um terror noturno sobre a exaltação da vida e as dores do crescimento, que chega, inteiro, à idade adulta, como um legado da infância – onde tudo é tão impreciso e disforme que desconfiamos de lá ter estado. É um poema italiano que se lê como uma história – e pode ser à noite, no escuro, melhor ainda se houver um vento suave que embale as cortinas da janela e anime sombras nos brinquedos e nos bonecos do quarto – e que pode ser decorado (como um pequeno épico italiano) como recomenda Ítalo Calvino.
O livro de Collodi, como os grandes clássicos, não termina. As palavras querem, sempre, dizer mais do que o que dizem. Jogam-se as grandes verdades e as grandes mentiras (e são belas as mentiras de Pinocchio) e, como no teatro, misturam-se.
Apesar de não ser uma obra dramática, Pinocchio é um texto cheio de elementos teatrais. A infância, que serve de cenário a tudo o que acontece, com os seus signos próprios – os adultos como figuras antropomórficas, a fada, o tubarão gigante, etc. – já, por si, é um forte apelo ao teatro. Não será a infância o tempo mais teatral na formação do ser humano? Onde jogar e brincar se relacionam com aspetos de afirmação, representação, e com a primeira tentativa de organização do mundo?
Pinocchio, muitas vezes, recorre à imaginação para melhor compreender ou se relacionar com a realidade, e a frase é preciso imaginar que, de quando em vez, repete, tem duplo sentido: é um recurso de sobrevivência do personagem para, por exemplo, combater a fome (lembrando os meninos perdidos de Peter Pan que, na ausência de comida, imaginavam comer grandes banquetes) e ao mesmo tempo apela à imaginação do leitor/espectador: é preciso que imaginem o que eu estou a fazer ou a pensar.
Pinocchio é manipulado, dirigido ou encenado, para representar o papel do rapaz perfeito, um rapaz que se quer igual a todos os outros, enquadrado, como um número par, numa ideia de sociedade (em contraste com a descrição da Terra dos Brinquedos, onde os rapazes e raparigas são livres, plurais, e se exercitam em atividades diferentes).
Ainda o Grande Teatro de Fantoches (o eco de o mundo é um palco) onde Pinocchio se perde pela primeira vez.
Pinocchio é Ulisses, não na ilha de Circe, onde os homens se transformam em porcos, mas na Terra dos Brinquedos onde as crianças se transformam em burros. É Ball, e o ofício de que mais gosta no mundo é comer, beber, dormir, divertir-se. É Ismael a fugir do tubarão gigante. É um ator trágico, sempre enganado, iludido, manobrado no devir de se cumprir rapaz, um rapaz modelo, com ar de Páscoa alegre e festiva, um boneco no Grande Teatro de Fantoches. É um pau, um bocado de madeira.
O texto de Collodi parece prestar-se muito bem à oralidade. Os ritmos e os sons das palavras provocam ambientes e lembram formas musicais, e este será, de todos os textos literários que os Primeiros Sintomas levaram a cena, aquele que mais fala de teatro. Mas neste caso, como nos outros, o livro acaba por ser, sempre, primeiro um elemento estranho, um vírus, e depois, mal ou bem, vai-se integrando como o sujeito principal. Talvez este seja um espetáculo sobre o livro de Collodi. E que bom que seria, como em qualquer clássico, que não tivesse classificação etária.
Bruno Bravo
Menores 30 anos: 5€
Sinopse
Mais do que um livro para crianças, Pinocchio, de Carlo Collodi é, essencialmente, um livro para todos, belo e terrível. São incontáveis as adaptações, os ensaios e os estudos dedicados ao texto desta história, cuja matriz tem suscitado variadíssimas interpretações de significado e, arriscaríamos, explorações filosóficas. A história de um tronco, depois feito boneco, que é manipulado no desejo de se cumprir enquanto pessoa, ressoa como uma alegoria clássica da condição humana e configura também um ritual de passagem do estado de criança ao estado adulto. Como num terror noturno, a odisseia de Pinocchio passa-se num ambiente surrealista, impreciso, moral e amoral, feito de cenários e marionetas, onde os adultos se representam por meio de formas animais, grotescas, informes e infantis. Com esta peça, a companhia Primeiros Sintomas dá continuidade ao trabalho que tem desenvolvido na adaptação para cena de obras literárias. Fá-lo com um texto que, segundo Italo Calvino, devia ser memorizado palavra a palavra como se fosse um poema em verso.