Vera Mantero
Bio
Vera Mantero nasceu em Lisboa em 1966. Estudou dança clássica até aos dezoito anos. Trabalhou durante cinco anos no Ballet Gulbenkian, em Lisboa. Em Nova Iorque e Paris, estudou dança contemporânea, voz e teatro e, nessa altura, abandonou totalmente as suas origens de ballet. Enquanto dançarina, trabalhou também em França, com Catherine Diverrès. Começou a criar a própria coreografia em 1987 e, desde 1991, tem vindo a apresentar o seu trabalho em teatros e festivais da Europa, do Brasil, dos E.U.A., do Canadá e de Singapura.
Folha de Sala
conversa após o espetáculo com Vera Mantero e Teresa Fradique (antropóloga)
texto 1
Os Serrenhos do Caldeirão, exercícios em antropologia ficcional
este trabalho foi elaborado no âmbito do Festival Encontros do Devir, da DeVIR, em torno da desertificação/desumanização da Serra do Caldeirão, no Algarve.
uma das condições propostas por esta encomenda era utilizar imagens vídeo, feitas por mim, que teria que ir filmar à Serra. filmei sim. e usei sim. mas também recorri muito às recolhas em filme do Michel Giacometti, sobretudo aquelas que ele fez em torno das canções de trabalho.
toda a peça é povoada de vozes que vêm de longe.
os tradicionais “ferrinhos” são usados para reproduzir o som do silêncio, o som da serra.
eu reproduzo algumas das canções trazidas até nós pelo Giacometti, cantando “para” os actuais trabalhadores rurais, retomando tradições perdidas, tentando reactivá-las.
e não é só de música que se trata, é também da palavra e da terra; a palavra de um Antonin Artaud em combustão, de um Prévert martelado em jeito de poesia sonora (as suas palavras sobre ruínas combinando magicamente com as imagens das ruínas que encontrei na Serra).
o todo acaba por ser um forte olhar sobre a preciosa recolha do Giacometti.
e é também um olhar sobre práticas de vida tradicionais e rurais em geral, conhecimentos das culturas orais de norte a sul do país, e não só: também as de outros continentes, que nesta peça são trazidos com Eduardo Viveiros de Castro e a referência aos índios da América do Sul (que miraculosamente todos os espectadores acreditam ser os Serrenhos do Caldeirão…!).
com este “retrato alargado” dos Serrenhos do Caldeirão eu falo nesta peça de povos que possuem uma sabedoria que perdemos. uma sabedoria na ligação entre corpo e espírito, entre quotidiano e arte. mas uma sabedoria que podemos (e devemos, para nosso bem) reactivar.
toda a minha dança final, com o meu precioso tronco (de cortiça), remete para isso.
[adenda do vídeo 2 da visita à serra:
“mas Miguel [Vieira, da Associação Florestal da Serra do Caldeirão], diz-me lá, para além das barragens para reter a água, o que é que era importante fazer aqui?”
“olha, parece-me importante… (fica a pensar)… ppvvvv (som com os lábios)… que o Estado diga aos proprietários dos terrenos o seguinte: “Meus amigos, ou o vosso terreno começa a produzir alguma coisa ou nós tomamos posse dele”.
(olha para mim em silêncio com ar de quem pergunta se estou a perceber).
“Tás a ver a ideia?”.
“Tou”].
Sinopse
Esta é uma peça povoada de vozes que vêm de longe. Tomando como ponto de partida o processo de desertificação/desumanização da Serra do Caldeirão, no Algarve, as recolhas de vídeo aí feitas por Vera Mantero, e outras realizadas em filme pelo etnomusicólogo Michel Giacometti, esta peça olha para as práticas de vida tradicionais e rurais em geral. Trata-se de um espetáculo sobre o conhecimento transmitido pelas culturas orais existentes de norte a sul do país e de outros continentes ― por isso, os índios da América do Sul, trazidos aqui através de citações de Eduardo Viveiros de Castro, se confundem tanto com estes Serrenhos. Este “retrato alargado” procura resgatar uma sabedoria quase perdida, que liga corpo e espírito, quotidiano e arte. Uma sabedoria que podemos (e devemos, para nosso bem) reativar.
conversa após o espetáculo com Vera Mantero e Teresa Fradique (antropóloga)
