Miguel Pereira
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Sinopse
Sempre me deparei ao longo do meu percurso artístico com uma inevitável contradição: o meu tempo de gestação e criação — um tempo ora dilatado ora entrecortado, imprevisível, alimentado por desejos, por impulsos, pela não linearidade e até pela indisciplina — entra em constante colisão com o tempo instituído, um tempo demasiado regulado e repetitivo.
Ao longo de três anos dediquei-me a refletir, experimentar e conhecer o mundo do espetáculo amador. E daqueles que nos tempos livres se dedicam à prática artística. Os que por não terem a obrigação de construir um estatuto que os legitime na esfera do trabalho se deixam apenas levar pelo prazer que sentem naquilo que fazem. A dança, o teatro ou o espetáculo sempre foram para mim o pretexto para encontrar esse espaço de liberdade e de prazer, de encontrar esse lugar de “tempo livre” onde seja possível refletir, digerir ou transformar o mundo e a realidade. E é nesse tempo “livre” que me coloco, que o espetáculo, o acontecimento que eu faça, possa acontecer nesse limbo “entre” o acabado e o inacabado, o possível e o impossível, o controlado e o libertador.
Os dois espetáculos do díptico aqui apresentado não são um retrato ou uma homenagem, mas o resultado do meu encontro com estas duas pessoas e a sua relação com a experiência artística.
Trabalho a partir do encontro com Nicola Carter em Nottingham. Tem 47 anos e trabalha como anotadora numa universidade, transcrevendo o conteúdo de diferentes disciplinas para os alunos com incapacidades físicas e motoras. Nos seus tempos, livres, cria as suas próprias performances. A sua forte relação com a dança vem da paixão pelo clubbing nos anos 80 em Manchester.