Marcelo Evelin & Núcleo do Dirceu
Pertencer. O lugar do artista
Sinopse
“Conrad, Nabokov, Naipul — são escritores conhecidos pela forma como conseguiram promover cruzamentos entre linguagens, culturas, países, continentes e até civilizações. Os seus imaginários sempre foram alimentados pelo exílio, enriquecidos não por uma ideia de raízes, mas sim de um desenraizamento; a minha, no entanto, requer que eu permaneça na mesma cidade, na mesma rua, na mesma casa, a contemplar a mesma vista da janela. O destino de Istambul é o meu destino: estou ligado a esta cidade porque foi ela que fez de mim o que sou.”
Orhan Pamuk, Istanbul. Memories of a City, 2005
Num tempo caracterizado por migrações globais e trabalho deslocalizado, a criação artística está a sofrer alterações profundas nas suas condições de produção e distribuição. Cada vez mais artistas criam a sua obra longe do seu país de origem, através de programas de residências artísticas, por convite de coprodutores estrangeiros ou simplesmente porque decidiram emigrar. Outros tecem teias de parentesco artístico com criadores que vivem e trabalham a grandes distâncias ou assumem com toda a naturalidade que as suas obras serão usufruídas por públicos de países e culturas diferentes dos seus. A criação contemporânea opera numa escala supranacional e a velha afirmação de que os artistas pertencem à pátria e representam a sua cultura perdeu validade.
No entanto, há qualquer coisa de inalienável na criação artística, algo que não se deixa deslocalizar ou internacionalizar. Seis artistas convidados demonstram de variadas formas e através dos seus próprios percursos como, também nas artes, tornou-se inevitável repensar o conteúdo da palavra “pertencer”.
Um dia disseram-me que eu só conseguiria falar do mundo se falasse da minha própria terra. O meu “pertencimento” ao Piauí e ao Sertão, onde nasci, deu-se desde o princípio pela ausência. Desde muito cedo fui viver sozinho em grandes cidades, mudando constantemente de lugar ao sabor das circunstâncias e dos encontros. Foi por não pertencer que me fui distanciando cada vez mais de um lugar territorial para me aproximar de um lugar no limiar do imaginário, um lugar entre o fugidio e o inalcançável, de um “pertencimento” frágil atravessado pela noção instável do que é pertencer.
O trabalho de sete anos, com o Núcleo do Dirceu — coletivo de artistas —, na trilogia baseada no romance Os Sertões de Euclides da Cunha trouxe-me de certa maneira de volta ao Sertão. O meu “pertencimento” é a arte feita sem fronteiras fixas e sem limites geográficos ou corporais que me separem do outro.
Neste encontro, Marcelo Evelin e o coletivo Núcleo do Dirceu conversam com o público, apresentam vídeos sobre as suas obras e demonstram processos práticos de trabalho.