Sarah Vanhee
as 3 ecologias
Folha de Sala
O ponto de partida desta performance foi conservares o lixo, seja material ou imaterial, durante um ano inteiro. Foste consistente?
A ideia era conservar tudo o que normalmente deitaria fora. O mais óbvio, claro, é o desperdício doméstico, orgânico e inorgânico. Como descobri que é difícil guardar o desperdício orgânico, comecei a tirar-lhe fotografias. Como lavava o meu lixo inorgânico, tocava-lhe com as minhas mãos e guardava-o, comecei a desenvolver uma espécie de afinidade com o meu lixo inorgânico.
Também guardei “desperdício” imaterial relativo a Oblivion: pensamentos, emails, materiais de pesquisa, encontros, relações… assim revelando os processos de outra forma invisíveis (e muitas vezes esquecidos, oblivious) por detrás do projeto. Limitei a minha seleção a tudo o que tivesse alguma coisa relacionada com a criação deste projeto, apesar de ser um pouco paradoxal: a partir do momento em que dizes que algo não faz parte, começa a fazer parte, e depois torna-se em alguma coisa. No início do processo senti-me verdadeiramente rica, porque pensei que tudo tinha permissão para ser alguma coisa, ao passo que um processo artístico normal requer que seleciones e tomes opções, restringindo a tua escolha. Tive permissão para deixar a minha intuição à solta e colecionar por associação. Tudo era possível, porque tudo era “alguma coisa”. Mas a certa altura isto tornou-se bastante problemático. Como é que era suposto fazer alguma coisa com esta abundância? Depois comecei a ficar interessada na relação que desencadeou tudo isto. Não é sobre a propriedade material do supérfluo que produzo, mas sobre a minha relação com ele. Por exemplo, porque é que é tão fácil pôr coisas de lado?
No final, desenvolvi uma forma natural de olhar para como produzia. Depois de meio ano, cheguei ao ponto em que tudo o que queria fazer era sentar-me numa cadeira para evitar completamente a produção. Mas mesmo aí, ainda estás a pensar, ainda a produzir (risos). (…) Oblivion, não é sobre arquivar e documentar tudo. Esta entrevista, por exemplo, tem uma relação com o trabalho, mas é mais um documento do que algo que tem um papel ativo nele. É como um núcleo com círculos concêntricos à sua volta, nos quais todos os itens estão armazenados. Por isso é naturalmente um desafio enorme ficar ligada a tudo.
Quão intenso é ficar constantemente ligado a tudo?
Algures no processo, parei de acumular tudo durante um mês, logo após dar à luz. Aí compreendi o alívio que era ser capaz de me livrar de coisas. Mas ao mesmo tempo, agarrares-te às coisas é algo que te abranda. Faz-te fazer tudo mais conscientemente, porque sabes que tudo ficará. Também torna tudo mais valioso e mais bonito; agora vejo algo em tudo. E não apenas eu, mas todos os que estiveram envolvidos neste processo estão agora conscientes de quanto produzimos apenas para deitar fora no momento seguinte, a vários níveis: ideias, performances, trabalho, relações (…) E tive que começar a ouvir o que as coisas queriam de mim, ao invés do que eu queria delas, por mais esotérico que isso pareça (risos). (…)
O processo de acumulação tornou-te uma pessoa mais consciente? E mudou a forma como vives e trabalhas?
Aprendi imenso com isto, e só me tornei mais crítica do ambientalismo. É de suspeitar de tudo o que nos faz consumir mais, até da ideia de reciclagem: é apenas uma forma que nos permite consumir mais. Mas Oblivion não toca na verdade no discurso ecológico superficial, por exemplo da reciclagem e da energia verde. Nesse sentido, a performance contém muito pouco moralismo. O que é importante para mim é onde a performance se liga com projetos anteriores tais como Lecture for Every One ou Untitled: a questão que se relaciona com a “sociedade”. E, por consequência, a ideia de indigeneidade. Por exemplo, li sobre as Primeiras Nações, uma comunidade de aborígenes canadianos que querem afastar-se do passado colonial canadiano. Querem continuar a sentir-se ligadas ao seu solo, mas há influências externas que interferem com este processo. Ainda que não se possa desfazer o colonialismo que trouxe a influência externa, estão a tentar regressar às suas raízes libertando-se. Chamam a este processo de-linking [“des-ligamento”], deixem-nos em paz dentro da nossa comunidade, com a nossa água, o nosso solo e a nossa língua. Independentemente de quão danificados possam estar, têm sempre um lugar para onde regressar. Mas nós, os agressores, já não temos algo assim. Para nós é isto e pronto, por exemplo este desperdício aqui. Esta é a nossa terra, é com isto que é suposto contentarmo-nos. Com a minha arte também estou a pensar: precisamos de produzir tanto? Alguma coisa precisa realmente de ser produzida, não apenas na arte? Vamos supor que não produzimos nada durante cinco anos e contentamo-nos com o que temos, deixando simplesmente que as coisas se desenrolem? Vivemos em constante ansiedade por mais e mais novo, tudo está a convergir, tudo está a ser espremido. No ano passado, não criei nada novo, o que me permitiu circular livremente com Lecture For Every One. O espaço criado por não produzir deu-me a sensação de que estava a fazer alguma coisa de valor. Chamaria a isto eticamente ecológico. Talvez esteja agora também mais consciente das constantes exortações para produzir. Por exemplo, os derivados desta performance. Ao mesmo tempo não é porque fazes algo mais conscientemente que estás a fazer um trabalho melhor. Não se pode ser consequente a toda a hora. Mas às vezes creio que escolhemos demasiado depressa. Em Manyone [a organização dirigida por artistas de que Vanhee faz parte], muitas vezes pensamos nisto: não tens que dizer sempre que sim a tudo, mas é bom por vezes seguires o caminho mais fácil. Mas como fazer isso de forma interessante? Começar um debate sobre isto muitas vezes necessita de mais trabalho do que resolvê-lo sozinho, pelo que o diálogo precisa de valer a pena.
Defendes a desaceleração?
Não, não defendo. Mas defendo temas com os quais acabo sempre por lidar: atenção e cuidado. Ser capaz de fazer as coisas com o cuidado apropriado. Antes da sociedade de consumo chegar nos anos 50 e 60, por exemplo, várias culturas tinham o fenómeno do festival que celebrava a abundância. O festival das colheitas é um bom exemplo: primeiro trabalhamos arduamente e colhemos, e depois há uma bacanal. A abundância é acompanhada pela felicidade. Na sociedade de consumo de hoje, esta abundância está constantemente presente, mas já não a vivenciamos como um festival mas antes enquanto pressão, uma necessidade burocrática. Perdeu-se também toda a possibilidade de festejar ao alcançar a abundância. Isto foi uma abordagem importante para a performance: permitir que a celebração da abundância regressasse à sociedade de consumo.
A performance lidaria com o que normalmente permanece invisível. Contudo, quando se fala de excessos, o tom facilmente se torna moralista ou destrutivo. Mas queria simplesmente observar e abraçar estas coisas. Fazer de Oblivion uma celebração da abundância. Também porque não quis que os meus pensamentos ficassem limitados por esse paradigma de “precisamos de menos” ou “precisamos de abrandar”. Comecei com dois desenhos partindo de “desperdício”: com círculos concêntricos à volta de conotações negativas por um lado, e à volta de conotações festivas por outro. Consumo, destruição, obsolescência planeada por um lado, e abundância e celebração da abundância por outro. A performance move-se nestes dois eixos. Mas também é sobre o subconsciente, o imaterial. Mantive até um “diário de merda” durante alguns meses. Criar uma linguagem para algo que normalmente não se descreve, ou conferir exposição a algo que normalmente permanece escondido também é uma forma de celebrar. Pensei que era uma bênção trabalhar com isso. A merda aparentemente nunca saiu da esfera do tabu da forma que o sexo saiu. Mas o que lhe acontece realmente? Para onde vai, literalmente? Toda a gente contribui para ela. Vamos parar um momento para pensar sobre isso: todos queremos saber o que acontece ao dinheiro dos nossos impostos, mas o que realmente acontece àquilo que damos de graça, todos os dias? (…)
excerto de entrevista a Sarah Vanhee, a 12 de outubro de 2015, exatamente um mês antes da estreia de Oblivion no centro de artes CAMPO, em Gent, na Bélgica.
Menores 30 anos: 5€
Sinopse
A autora Sarah Vanhee colecionou todo o “lixo” real e virtual que produziu durante um ano inteiro e apresenta-o numa performance. Imagine um lugar onde reencontra tudo o que descartou, fez delete ou deitou fora. Objetos, pensamentos, relações que já tinha deixado para trás, estão outra vez de volta. São coisas que lhe pertencem, e por isso têm que ser cuidadas. Vira-os do avesso, reavalia-os, volta a investir-lhes sentido, tudo tem o seu valor. Quando é que o nosso lixo deixa de ser o nosso lixo? Pense num mundo invertido, por exemplo, naquela cena do filme O Fantasma da Liberdade de Luis Buñuel, na qual os hóspedes e os convidados defecam em conjunto em torno da mesa de jantar e comem sozinhos na casa de banho. Oblivion é uma lenta celebração de coisas que se revelam.

