Sofia Dinger
Sinopse
Durante o mês de outubro, cinco teatros municipais recebem três espetáculos de criadores emergentes portugueses que marcaram a temporada nacional de 2010-2011. Com a apresentação deste ciclo, a rede de programação Cinco Sentidos, que une o Centro Cultural Vila Flor (Guimarães), o Teatro Municipal da Guarda, o Teatro Maria Matos (Lisboa), o Teatro Virgínia (Torres Novas) e o Teatro Viriato (Viseu), pretende valorizar o potencial de novos criadores e promover a sua digressão pelo país.
Díptico
“Já reparaste que as aves mantêm o seu gorjeio, sem intervenção de qualquer Mestre? Teu Pai”
I
Assumir-me sob a forma de uma eterna falha parece-me uma boa opção para me apresentar ao mundo, agora que assino quase sozinha. Pensar no fim, em todos os fins, levou-me aos pequenos desvios de todos os dias e aos medos de sempre. Comprei um planetário portátil e a partir desse momento, pude decidir quando e onde acender as estrelas. Partilho o tempo silencioso das explosões e caminho sobre consequências prateadas que magoam os pés. Refletem luzes minúsculas. Talvez seja a tentativa de transformar um ataque de pânico em algo vagamente doce. Os meus pecados são muitos e densos e parvos e cómicos, mas não chegam a ser pecados. Não acredito nisso, confesso.
II
Numa tarde, ensinei o meu Pai a despedir-se de mim. Melhor, ensinei o meu Pai a cantar para se despedir de mim. Na verdade, nada me assusta mais do que a ideia de o meu Pai ter que se despedir de mim. Tudo o que não me lembro daquelas horas, tudo o que me escapou, tudo o que eu sei que estava lá mas ninguém mais notou, os buracos negros da memória e o material fixo, as contradições e as simultaneidades, a inversão dos tempos. É um mergulho sobre o crescimento, sobre as partes que não podem prosseguir connosco. Cesariny fala de “uma canção para te ver chegar”. Eu proponho o contrário. E erro e repito num processo de eterno retorno, a cantar e a dar cabo da voz. Porque é assim quando se diz adeus.