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Nostos André Mesquita e Simon James Phillips Informações sobre o Evento
12 → 15 Mar 2015
Datas e Horários
quinta a sábado ↣ 21h30 / domingo ↣ 18h30
Preço
6€ a 12€
Menores 30 anos: 5€
Duração
60min
Classificação
M/6
Local
Sala Principal
Dança encomenda mm

Nostos
André Mesquita e Simon James Phillips

Folha de Sala

Folha de Sala

SOBRE O PROCESSO DE CRIAÇÃO

 

Corpo-casa.

Que memórias têm um gatilho nostálgico?

Sylvia Rijmer faz um gesto com os braços e mãos. Nasceu na Nigéria e tinha uma ama, Rose, que cuidava de si e a levava a passear com outras crianças.

Filipa Peraltinha recorda os primeiros verões na praia com os tios, o avô coxo que estava sempre com ela e se esquecia de tudo. Como ela, hoje.

César Fernandes, que se move, rasteja e curva sobre o próprio corpo como um felino, lembra o solo que fez para a primeira peça da TOK’ART.

“Cada bailarino tem em si, no seu corpo, uma espécie de coleção de códigos”, explica André Mesquita. O coreógrafo recorda os seus primeiros passos de dança e também a “cabana dos índios”, onde brincava em criança e lhe traz uma sensação de segurança.

O seu gatilho nostálgico, individual, é transferido para os bailarinos: Sylvia Rijmer, Filipa Peraltinha, Teresa Alves da Silva, Woody Santana e César Fernandes. Eles, que recebem as sugestões de André, dão‐lhes forma no espaço. Por movimentos e gestos.

Woody Santana aciona o “véu da ignorância” de John Rawls (professor de filosofia norte‐americano) para explorar o acordo que pode ser possível entre estranhos, esse estado em que cada um ignora a sua “posição social” e os seus “dons naturais”.

Teresa Alves da Silva lança‐se num baloiço, com a ajuda de César e Woody. Há uma referência à infância, quase uma imagem pueril, que se transformará noutra coisa com a exploração da força do movimento executado pelos bailarinos. “Quero algo mais orgânico”, diz o coreógrafo.

André Mesquita tem esta angústia, que não esconde: “Nunca dizemos realmente o que queremos dizer. A linguagem está perdida no meio da linguagem.” O coreógrafo cita George Steiner em “Errata: Revisões de Uma Vida”. O francês é considerado um dos grandes pensadores da atualidade e escreveu: “Mesmo na sua forma mais rigorosa ou inspirada, o discurso não passa de uma aproximação. Já não nos sentimos completamente em casa naquilo que dizemos.”

 

 

Ondas oceânicas.

“Quem somos, somos a dançar. Vivemos à procura do movimento que nasce de cada um. Somos o futuro anterior. Dizemos como sabemos. Somos do mundo. Criadores de mundo. Somos feitos de solidariedade orgânica. 80% de água. 20% de alma. E dor. A nossa formação é Humana e desumana.”

Em 2006, a TOK’ART apresentava-se assim. Na sua primeira vez, mostrava Como é bom tocar-te.

Nove anos volvidos, volta-se ao início. E vai‐se mais além. À ideia desse oceano “cheio de água de onde todos vimos”, como diz Sylvia Rijmer, uma das bailarinas de Nostos.

Dessas ondas que atravessam o corpo quando há música e dança, explora-se, então, o movimento nesta coreografia. André Mesquita fala em “ondas oceânicas” e volta a Steiner.

“A música de que gostamos, que nos habita de um modo indispensável, induz um aprofundamento, uma recetividade das emoções que os psicólogos designaram por ‘oceânicas’”, escreve George Steiner. André Mesquita partilha a obra. Quer explorar a emoção — inclusive física — da música na sua relação com o corpo, o bailarino, a dança.

Neste Nostos, as “ondas oceânicas” nascem da música de Simon. “Partimos de alguns impulsos dos temas dele e explorámos essas ondas vibratórias, algumas vezes em diálogo, outras em contraste”, explica o coreógrafo.

“O Simon usa o corpo para tocar, como se houvesse uma travessia entre ele, o seu corpo físico e o piano. Essa travessia continua connosco.”

É tentar dizer o indizível. E André continua a tentar, sempre.

 

 

O próximo milénio. Este.

Em 1988, é publicado Seis Propostas Para o Próximo Milénio. O autor italiano, Italo Calvino, morrera três anos antes e nunca chegara a redigir a última proposta. Ainda assim, este é um dos livros que acompanha André Mesquita. “Há muito que tenho vontade de explorar as propostas de Calvino”. “Lightness, quickness, exactitude, visibility, and multiplicity”. Em português, leveza, rapidez, exatidão, visibilidade e multiplicidade. São cinco pensamentos filosóficos, cinco “gatilhos” para os solos.

“Na verdade, não explorei muito cada ideia. Servem apenas para os bailarinos criarem movimento.”

Só isso? (Duvida-se)

André dispara: “Não tenho idade para deixar heranças.

Uma despedida? (Regressa a dúvida…)

“É um adeus à casa tal e qual como ela existe.” Os tempos de hoje, para a dança em Portugal, são contratempos. “Preciso ser livre para dançar, para a dança acontecer e viver.” Continua: “Por alguma razão, todos voltamos à dança, ao que é primordial.”

São cinco, os bailarinos à sua frente. Repetem-se movimentos. André levanta-se, dá indicações, pede para experimentarem mais. E também para serem mais humanos a cada gesto.

Puxa de um cigarro e para o ensaio. “Pausa para cinco minutos. Vou lá fora…” Sai da sala de ensaios. Para, mais tarde, regressar a casa. À sua casa. E criar, como no princípio.

 

 

A música íntima de Simon

entrevista com Simon James Phillips

 

Simon James Phillips é um pianista e compositor australiano há já alguns anos a viver em Berlim, na Alemanha. Em residência no Teatro Maria Matos nesta temporada, junta‐se ao coreógrafo André Mesquita para criar Nostos. Foi a partir de Berlim, por correio eletrónico, que o músico partilhou as suas impressões em relação à peça para a qual está a compor música. Sobre a criação musical, marcada por uma certa nostalgia, fala de intimidade com os movimentos dos bailarinos.

 

Na nova coreografia, André Mesquita explora a ideia de “nostos”, de nostalgia e sentimento de regresso a casa. Como é que isso influenciou o seu processo de criação enquanto compositor?

A noção de nostalgia é algo que já tinha trabalhado na minha música. Obviamente, o André falou comigo sobre as suas ideias no que respeita ao conceito de nostalgia. Estruturalmente, a música para a peça vai, certamente, ser influenciada por isso.

 

Podemos dizer que, de alguma forma, o resultado desta colaboração será como uma espécie de “dueto” entre si e o André?

Sim, de certo modo.

 

Acompanhou parte do processo coreográfico e durante esse período conversou com os bailarinos sobre as suas memórias e os seus sentimentos. Que importância teve isso para a composição musical da peça? Procurava o mood ou os moods certos?

Conversei um pouco com os bailarinos e certamente passarei mais algum tempo a falar com eles durante a fase final da criação. Penso que uma das características únicas de trabalhar com um músico ao vivo — particularmente com um que improvisa e compõe — é que a música realmente pode desenvolver-se e crescer de forma muito íntima e com grande precisão para os movimentos dos bailarinos. Estou interessado em saber o é que os bailarinos sentem que pode ajuda-los mais e também entender melhor a perceção deles da criação. O uso da música com a dança, para mim, é muitas vezes pouco valorizado. Penso que esta colaboração é uma verdadeira oportunidade de usar ambos os meios na sua total potencialidade. Os moods são certamente importantes, mas encontrar o certo não é assim tão fácil. Sou muito cuidadoso para não ilustrar algo que já existe no movimento. Às vezes, é mais interessante trabalhar contra certas tendências naturais.

 

Está a criar música nova para cada parte da coreografia?

Não para todas as partes, mas, para outras, sim.

 

Esta foi a primeira vez que criou música para uma coreografia?

Não. Já trabalhei em projetos com outros bailarinos, muito embora a maioria tenha acontecido em contextos experimentais em Berlim. Esta é a primeira grande coreografia em que já colaborei, de facto.

 

O que queria explorar neste trabalho? Como vê a relação entre a dança e a música nesta coreografia?

Estou muito interessado no tempo — e na perceção de tempo através do uso do som. Tanto a música como a dança são “meios” temporais e, por isso, são ideais para explorar noções de tempo. Nostalgia é sobre tempo. Portanto, é perfeito. Também estou muito entusiasmado por observar e trabalhar com movimentos tão bonitos. É realmente uma experiência para poder aprender mais através da observação do trabalho dos bailarinos. Todos eles, incluindo o André, têm movimentos tão belos e tão conscientes. Estou a tentar, nesta fase, estar tão aberto quanto possível para permitir que a dança guie a minha própria participação como músico.

 

O que tem sido mais desafiante durante o processo de criação para esta peça?

Não tenho bem a certeza. Nada foi super desafiante. Quando estou no meio de um processo, os desafios não parecem desafiantes.

 

Mas há uma “luta” com o piano ou é um processo fluído?

Ambos. O piano pode ser um instrumento realmente desajeitado — e, muitas vezes, tenho de lutar contra isso. Mas, aparte disso, o processo tem sido bastante fluído.

 

No final, vamos ver uma peça coreográfica, um concerto, ou ambos?

Não tenho a certeza. Temos de esperar para ver. O André provou ter uma mente bastante aberta sobre o processo e aonde a colaboração nos pode levar. O nosso último ensaio antes de regressar a Berlim foi muito entusiasmante e realmente havia elementos de cada um de nós. Estou entusiasmado para ver aonde vamos parar depois do período final de trabalho.

 

Acredita que não há dança sem música e que também não há música sem dança?

Essa é uma questão demasiado lata.

 

 

textos e entrevista por Sara Gomes, janeiro 2015

12 → 15 Mar 2015
Datas e Horários
quinta a sábado ↣ 21h30 / domingo ↣ 18h30
Preço
6€ a 12€
Menores 30 anos: 5€
Duração
60min
Classificação
M/6
Local
Sala Principal

Sinopse

Nostos (ou uma eventual penumbra de ambiguidade)
“Nunca conseguimos dizer exatamente aquilo que queremos dizer, nunca conseguimos depurar a descrição ou análise verbal de uma eventual penumbra de ambiguidade […].”
George Steiner

 

Nostos, palavra grega, significa “retorno a casa”. André Mesquita, fundador e coreógrafo da TOK’ART que viveu uns tempos fora do país, questiona-se sobre o que é isto a que se chama casa. A ideia de corpo/casa atravessa esta obra, questionando o que somos, o que levamos e trazemos connosco. “Queria explorar o que descobrimos sobre nós num lugar estranho e que, como tal, revela uma impossibilidade de retorno ao mesmo.” Nostos, palavra que está também na origem do vocábulo “nostalgia”, reflete ainda sobre o poder deste sentimento. Como as memórias podem ser um fator de resiliência, de desejo de um tempo e espaço do passado, apontando para um novo futuro. É esta a nostalgia de André Mesquita aqui. E, novamente, o coreógrafo não esconde eventuais penumbras de ambiguidade entre o que se quer dizer e o que efetivamente se diz.
O pianista australiano Simon James Phillips, já bem conhecido do nosso público e em residência no Teatro Maria Matos nesta temporada, trabalhou em conjunto com André Mesquita nesta criação, acompanhando de perto todo o processo e apresentando-se em palco com temas compostos para os cinco bailarinos de Nostos.

© Bruno Simão
© Bruno Simão
© Bruno Simão
© Bruno Simão
© Bruno Simão

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Material Gráfico Cartaz André Mesquita e Simon James Phillips 12 Mar 2015

Ficha Artística

direção artística e coreografia:
André Mesquita

música:
Simon James Phillips

figurinos e espaço cénico:
André Mesquita

luzes:
Nuno Salsinha e André Mesquita

vídeo:
Tomás Pereira e André Mesquita

intérpretes:
Teresa Alves da Silva, César Faria Fernandes, Filipa Peraltinha, Sylvia Rijmer e Woody Santana

produção:
TOK’ART

coprodução:
Maria Matos Teatro Municipal, Centro Cultural Vila Flor, O Espaço do Tempo e Teatro Viriato

fotografia:
Bruno Simão

Este projeto é apoiado pelo Governo australiano através do Australia Council for the Arts

coprodução no âmbito da rede 5 sentidos

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