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Nem Tudo o Que Fazemos Tem de ser Dito, Nem Tudo o que Dizemos Tem de Ser Feito Cláudia Dias Informações sobre o Evento
05 → 07 Dez 2013
Datas e Horários
quinta a sábado ↣ 21h30
Preço
12€ / 6€
Menores de 30 anos 5€
Local
Sala Principal com bancada
Dança coprodução mm

Nem Tudo o Que Fazemos Tem de ser Dito, Nem Tudo o que Dizemos Tem de Ser Feito
Cláudia Dias

Folha de Sala

Folha de Sala

Eles Também Morrem

 

O imperador romano Adriano, construtor de um império vastíssimo e autor da famosa muralha de Adriano na Britânia, foi um dos homens mais poderosos que alguma vez existiram. Toda a vida conjugou a acção com uma reflexão sobre o poder, a natureza dos homens e a morte — fosse a morte dos soldados inimigos e das populações vencidas, fosse a dos seus próximos e mais amados, fosse a sua própria morte. Quis ele próprio, aliás, decidir da sua própria morte — porém, nenhum dos seus próximos quis cumprir a ordem de o matar e, assim, permitir-lhe chegar dignamente ao seu fim, como era admissível naqueles tempos.

O livro de Marguerite Yourcenar sobre Adriano é pródigo em testemunhos desta relação do imperador com a morte — encarada como um limite que, impondo uma finitude à vida, permitia a imortalidade, caso as acções tivessem sido justas e disso merecedoras. A justiça de uma vida continha a ideia de construção: “Construir é colaborar com a terra: é colocar uma marca humana sobre uma paisagem que assim será para sempre modificada; é contribuir também para esta modificação lenta que é a vida das cidades. Quantos cuidados para encontrar o lugar exacto de um ponto ou de uma fonte, para dar forma a um caminho de montanha, aquela curva mais económica que no mesmo tempo se revela a mais pura…”, escreveu Yourcenar nas suas Memórias de Adriano (1951).

Marco Aurélio, outro imperador atraído pela doutrina estóica, escreveu nos seus Pensamentos: “Ainda que devesses viver três vezes mil anos e mesmo outro tanto dez mil vezes, lembra-te sempre que ninguém perde outra existência se não a que vive e que não vive a que perde.”

A nenhum destes homens, ambos detentores de um extraordinário poder, interessou alcançar a imortalidade pela manutenção e o uso do poder. O poder que têm é um instrumento de acção para e pelo bem comum, e neste se inclui o bem da natureza a que se pertence.

Claro que são hoje exemplos clássicos; claro que eram outros os tempos e as condições da História; claro que nunca abdicaram da autoridade que tinham; claro que cometeram muitas injustiças; claro que o exercício do poder supunha outras condições, mas também eram outros os limites e o outros os riscos, entre os quais o de ser assassinado.

Não é o caso dos governantes de hoje, entre os quais os nossos governantes europeus, para quem o poder e a manutenção do poder são fins em si. Impreparados para agir com a humanidade e com a natureza, para a humanidade e para a natureza, ignorantes, irreflectidos, muito cedo se alheiam dos seus compatriotas — dos governados e, até, dos que os elegeram — e cedo passam a enfermar do narcisismo patológico do poder.

Não é necessário explicar muito: motoristas à disposição, percursos de casa ao avião  sem passar pelos controlos e sem se misturarem com as multidões, a possibilidade de dar ordens sem contestação dos  súbditos mais directos, a dispensa de pagar as contas, de contar o dinheiro, os trocos, de fazer uma reserva de bilhetes, de hotel, de restaurante, enfim, o luxo dos séquitos, todas as facilidades que o poder traz consigo provocam nestes governantes sem lastro nem história a sensação de que são imortais.

Infelizmente, parece que viver neste limbo de conforto, com amnésia do que é ser-se um ser comum, leva à perda da compaixão. Leva também, por outro lado, a evitar ou a fintar o medo, o que, curiosamente, revela alguma cautela perante a morte.

Num belo texto de Hannah Arendt sobre Hermann Broch são identificados um elemento criminoso e um elemento do mal, personificado no literato esteticizante (categoria que incluía Nero e Hitler), no kitsch. De cada vez que os homens de negócios (hoje diríamos: das Finanças) afirmam que “negócios são negócios”, de cada vez que os estadistas nos dizem que “a guerra é a guerra”, comportam-se como literatos esteticizantes no vazio de valores.

Estes nossos governantes parecem ter abandonado a humanidade de que inegavelmente fazem parte, pois não só deixaram de ouvir os que representam como se negam a agir por esses representados e para eles, como se estivessem já colocados no padrão inalterável da imortalidade.

Não podemos limitar a grandeza de ser e de agir apenas aos antigos e aos clássicos. Também entre estes houve facínoras e ditadores. E nem todo o mal da humanidade ou de um povo decorre apenas da acção voluntária de um governante.

Contudo, todas as circunstâncias do poder são circunstâncias de adversidade, e o que distingue os bons dos maus governantes é uma diferença radical no uso e nos instrumentos do poder. Onde uns — os bons governantes — cuidam dos governados, aos outros — os maus governantes — apenas interessa a manutenção do seu próprio poder, encenada ora com mais pompa, ora com mais mau gosto, mais anafada.

Ainda evocando Hannah Arendt: ao invés de exaltarem a alegria (que, ao contrário da tristeza, é faladora, é dialogante, está impregnada da outra pessoa), os nossos maus governantes exaltam o sofrimento, apelam ao sacrifício e regozijam com ele — e, na sua perversidade máxima, declaram entender a tristeza e condenam a alegria.

Nessa encenação grosseira do poder já sentem e se convencem de que não estão sujeitos a um fim. Parece que já ultrapassaram a morte, não pelo que construíram, não pelas acções para o bem comum, não porque a justiça dos seus actos seja tão exemplar que os torne imortais, mas porque, uma vez imortais, são impunes. E se, por vezes, ainda podem ser acometidos pelo medo, negam-no — e assim negam essa pequena parcela que era o seu último reduto de humanidade.

Há aquela canção do Arnaldo Antunes: “Saiba/Todo o mundo vai morrer/ Presidente, general ou rei/ Anglo-saxão ou muçulmano/Todo e qualquer ser humano(..)”.

 

António Pinto Ribeiro

in Ípsilon, 15 de março 2013

 

 

 

PEQUENA ENTREVISTA COM CLÁUDIA DIAS

 

MARK DEPUTTER: O que é que o(s) autor(es) fizeram com o texto do APR, ou, mais relevante, o que é que lhes pediste para fazerem com ele?

CLÁUDIA DIAS: Inicialmente foi proposto ao Michael Oliveira, ao Jorge Feliciano e ao Pablo Lareo, que escrevessem, cada qual, um texto usando 929 palavras de uma listagem que lhes foi fornecida. Essa listagem foi elaborada a partir do texto Eles Também Morrem, que o António Pinto Ribeiro escreveu para o jornal Público, e ao qual os autores apenas tiveram acesso após terem escrito o seu próprio texto. No fim, optámos por utilizar apenas o texto do Jorge Feliciano.

Não foi imposta qualquer tipo de limitação aos autores, à parte da limitação maior de usar aquelas palavras exatas. No fundo, foi-lhes proposto a realização de um exercício formal — construir frases a partir de palavras, que, por terem um determinado encadeamento, produzem um texto. Este exercício é, contudo, apenas aparentemente formal, pois, como afirma José Augusto Mourão, no prefácio do livro Procurar uma frase, de Pierre Alferi, “pensar é procurar uma frase possível”.

 

MARK: O que te propuseste fazer com o trabalho dos autores?

CLÁUDIA: Existem dois autores. O autor do texto original — o António Pinto Ribeiro. E o autor do texto adicional — o Jorge Feliciano. Em relação ao texto original, propus-me encará-lo e trabalhá-lo como matéria passível de ser materializável no espaço. Interessou-me a materialidade do texto. Perspetivá-lo enquanto matéria-corpórea e não enquanto matéria-assunto. Embora, tenha sido o assunto o afeto que me ligou a este texto. Em relação ao texto adicional, propus-me jogar com a transformação da significação das palavras. Perceber como a mesma palavra posicionada num texto-contexto adquire um sentido mais ou menos panfletário, mais ou menos poético, mais ou menos teatral.

 

MARK: Porque escolheste um texto do António?

CLÁUDIA: No início deste projeto, tinha pensado em usar o jogo infantil de transformar uma palavra noutra pela sua repetição, como dispositivo para encontrar as palavras a fornecer. Mas após ter visto a peça Um gesto que não passa de uma ameaça, da dupla Victor Roriz e Sofia Dias, não vi razão para o fazer, uma vez que já tinha sido exemplarmente feito.

Assim, numa manhã, ao tomar o pequeno-almoço e ler o artigo do APR, tive a epifania de utilizar um texto já existente, que não me pertencesse, bastando desencadear as palavras para obter a neutralidade necessária ao jogo. E, desta forma, assegurar que não estaria a manipular os conteúdos dos textos vindouros.

 

MARK: Porque escolheste um texto ensaístico e não um texto literário?

CLÁUDIA: Este texto é um artigo de opinião e, como tal, situa-se entre um texto jornalístico e um texto ensaístico (sendo que o texto ensaístico é um texto literário). Tem essa caraterística entre. Circula num meio de comunicação de massas que é o jornal. Destina-se a todos. Tem uma validade. E, nesse sentido, relaciona-se com o aqui e o agora. Mas não pretende informar. Pretende refletir sobre algo, muitas vezes sobre uma inquietude, partilhando um ponto de vista pessoal e uma linguagem própria. Transmite uma certa poética do quotidiano. E todas estas caraterísticas interessam-me.

 

MARK: E porquê um texto que faz a ponte entre arte e política?

CLÁUDIA: Penso que nos encontramos num momento em que teremos de escolher entre a barbárie e a civilização e que a arte tem um papel decisivo nessa escolha. Claro que quando digo que teremos de escolher entre a barbárie e a civilização não estou a afirmar que vai começar uma Terceira Guerra Mundial amanhã. Mas os contornos para esse caldo cultural, estão, infelizmente, presentes. Tais como a tentativa da destruição do Estado Social, um dos maiores consensos do pós-guerra; o desrespeito pela Constituição — garante dos direitos fundamentais das populações e do funcionamento do Estado; a ingerência do poder financeiro nas soberanias nacionais; o empobrecimento da população e correspondente acumulação capitalista; a reorganização das oligarquias; o agiotismo internacional; um novo (velho) colonialismo; os focos de destabilização em vários pontos do Mundo; a violência e a sua estetização; a propaganda; e o uso da linguagem como forma de formatação ideológica subliminar.

Aliás, esta questão da linguagem reveste-se de uma atualidade e de uma pertinência centrais. Estamos perante uma verdadeira operação ideológica em relação à linguagem e não podemos ceder a ela.

05 → 07 Dez 2013
Datas e Horários
quinta a sábado ↣ 21h30
Preço
12€ / 6€
Menores de 30 anos 5€
Local
Sala Principal com bancada

Sinopse

Em Nem tudo o que fazemos tem de ser dito, nem tudo o que dizemos tem de ser feito assumo a centralidade que o texto foi ganhando nos meus últimos trabalhos, mas liberto-me da autoria da escrita. Contudo, assumo inteiramente a responsabilidade da linguagem ao fornecer aos autores do texto a matéria-prima — as palavras. Mas que palavras fornecer sem condicionar, à partida, o conteúdo do texto, tornando o ato de desresponsabilização da autoria numa mera estetização? Decido então fornecer palavras que não me pertencem. Encontro um texto de António Pinto Ribeiro escrito para o jornal Público e, desorganizando o seu encadeamento, envio uma listagem de palavras aos autores. Livre da escrita posso dedicar-me então à inscrição. Neste sentido, será esse o objetivo central e político desta nova criação — inscrever — para que o que é dito e escrito não se dilua, impune, num etéreo e efémero espaço, mas que ecoe publicamente e sejamos todos responsabilizados pelo que vinculamos. Para que haja memória. E talvez seja esta a característica mais distintiva desta peça, relativamente a anteriores, a consciência de que o teatro é também espaço de inscrição.

Cláudia Dias

 

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Material Gráfico Cartaz Cláudia Dias 05 Dez 2013

Ficha Artística

conceção e direção:
Cláudia Dias

interpretação:
Cláudia Dias e Cecília Laranjeira

participação especial:
Carolina Campos, Daniel Pizamiglio, João Bicho, Karas e Sílvia Pinto Coelho

texto original:
António Pinto Ribeiro

texto adicional:
Jorge Feliciano

direção técnica:
Carlos Gonçalves

iluminação:
Nuno Borda D’Água

música:
Saiba, Arnaldo Antunes

acompanhamento crítico:
João Fiadeiro

gráfico:
Jorge Silva

gestão financeira:
Andrea Sozzi/SUMO}

coprodução:
Maria Matos Teatro Municipal

apoio:
Fundação Calouste Gulbenkian

apoio residências:
Inteatro — Centro Internazionale Di Produzione Teatrale, DeVir/CAPa, Fórum Cultural José Manuel Figueiredo/CEA.VA, Re.Al, Circular — Festival de Artes Performativas e Alkantara

agradecimentos:
Michael Oliveira, Pablo Lareo, Idoia Zabaleta, Paulo Vasques e António Olaio

imagem:
Luís Martins

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E-mail: geral@egeac.pt

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