Folha de Sala
Não é um duo no sentido mais tradicional do termo, em que há uma estratégia, um plano evolutivo, algo que exponha um sem-número de diretivas pelas quais ambos os músicos vão comunicando entre si e criando uma identidade única. Na música eletrónica, há esse espaço de conquista, em que o diálogo vai criando, primeiramente, a gramática dessa mesma comunicação. Para Moritz von Oswald e Rashad Becker não há essa urgência e organização, formam um duo estável, com aparições raras que vão acontecendo à medida que diferentes salas ou festivais os vão requisitando. Contudo, não se pense que esta união assenta na improvisação: quem os conhece, bem ou pouco, sabe que não operam segundo esse grau de espontaneidade. A sua música, existente, por agora, apenas ao vivo, regula-se por uma magnífica estrutura articulada com alguns graus de liberdade, como uma composição musical que predestina zonas muito claras onde a improvisação se encarrega de gerir os acontecimentos.
Naturalmente, foi após o sucesso de Traditional Music of Notional Species Vol. I que Rashad Becker ganhou notoriedade, talvez em superior peso à que sempre teve na música eletrónica, mas no seu lado menos visível. Até à edição desta estreia, em 2013, Becker era conhecido por ser um dos principais players de Berlim através da Dubplates & Mastering, na qual grande parte das edições da eletrónica mais aventureira tinha a sua transformação para vinil. E quando dizemos que é grande parte não se pense que exageremos: esta empresa, fundada em 1995 por Mark Ernestus e, justamente, Moritz von Oswald, controlou a qualidade de milhares de edições, e Rashad Becker foi o artesão sonoro de muitas centenas delas. Quando Ernestus e von Oswald criaram esta divisão técnica do seu trabalho, a sua missão era clara: controlar toda a amplitude da música, entre a construção do som como autores ― como Basic Chanel ou Rhythm & Sound, duos de ambos, mas também individualmente ―, como editores ― Basic Chanel, primeiro, e Chain Reaction ou Wackies, depois ― e como responsáveis da sua materialização em disco. Uma utopia sonora, e empresarial, idealizada pouco depois de uma nova ideia de Berlim nascer da queda do muro e da explosão do techno que, graças, mais uma vez, a Moritz von Oswald, cria a ponte perfeita entre Detroit e a Europa, com o dub jamaicano ou o house de Chicago a serem ingredientes extra contaminadores para a criação de uma herança ― dentro e fora do império da música de dança ― que Berlim foi perfilhando até hoje. Robert Henke (Monolake) perguntou um dia a Rashad Becker se poderia haver um som de Berlim olhando para o seu trabalho de masterização. Não deu, obviamente, uma resposta definitiva, assumindo que talvez essa perceção pudesse ser um mito: “as pessoas geralmente dizem que soa a masterização inglesa, the soa a Detroit, que é o som de Berlim, mas como é que se consegue perceber que é a masterização que importa na comparação?”. Se do lado técnico não há fórmulas de Berlim, as ideias tentaculares de von Oswald e Ernestus impuseram um ideal sonoro que ficará para sempre acomodado a uma cidade que ainda hoje vibra com este legado e exporta-o para todo o mundo.
Encontramos agora Moritz von Oswald e Rashad Becker num momento de diálogo que inclui, surpreendentemente, um piano, servindo de motor de arranque sonoro e vínculo de criação entre os dois artistas. Um instrumento complexo que se transfigura perante as inúmeras hipóteses elétricas por onde o som tem de sobreviver, como se cada nota tivesse de ganhar força centrífuga suficiente para escapar da sua trajetória. De novo as órbitas, os loops e as repetições como parte intrínseca do som, da eletricidade e da eletrónica. Ou como diria Moritz numa conversa com Juan Atkins para a Electronic Beats, “os loops apaziguam-me. Sempre que há loops, eu estou feliz. E prolongo isto para além do techno: gosto de loops nas relações humanas. No dia-a-dia. Gosto de repetição. (…) Gosto do loop como metáfora para tudo aquilo que gosto na vida e na música. A vida não é apenas sobre exploração, é também sobre revisitação.” Agora e sempre os loops de Moritz, mas aqui sob o esplêndido campo de forças de Rashad, mostrando como pode ser, mais uma vez, o novo som de Berlim.
Sinopse
Moritz von Oswald e Rashar Becker são dois nomes absolutamente primordiais da história da música experimental e eletrónica que irradiou, e continua a irradiar, de Berlim nos últimos 20 anos. O primeiro é um dos artesãos de algumas das mais fantásticas variações techno da capital alemã; o segundo é possivelmente a figura mais omnipresente da cena experimental ao masterizar uma parte substancial da música eletrónica e não só editada nas últimas décadas. Sem se declararem como um duo oficial, esta colaboração é, pois, uma rara lição de como assistir à criação de novos diálogos e hipóteses, ancorados na eletrónica mas nascidos de algo maleável, acústico e, por que não, improvável: em palco, um piano é ponto de partida, motor de arranque e matéria-prima para que uma composição, estruturada mas respirando improvisação livre, vá nascendo, crescendo e morrendo. Pelo meio das máquinas e dos seus fios comunicantes, eis a história de algo orgânico e perene, que, por diversas fases da sua vida, atinge momentos de incrível beleza e complexidade. Não há muitos músicos que tenham esta capacidade de brincar aos deuses.