Mala Voadora
Biografia
Em 2017, a mala voadora é uma companhia de teatro cuja ação, tendo como centro a produção de espetáculos, se estende tentacularmente a um conjunto de atividades de programação que tem lugar sobretudo no antigo armazém que ocupa no centro da cidade do Porto. A mala voadora foi fundada em 2003 por Jorge Andrade (encenador, ator e dramaturgo) e José Capela (cenógrafo e arquiteto), responsáveis pela direção artística, aos quais se juntaram, em 2013, Vânia Rodrigues como coordenadora de gestão e programação, e Joana Costa Santos agora responsável pela direção de produção.
Para além de Portugal, a mala voadora apresentou espetáculos em: Alemanha, Bélgica, Bósnia-Herzegovina, Brasil, Cabo Verde, Escócia, Estados Unidos da América, Finlândia, França, Grécia, Inglaterra, Líbano e Polónia. Na programação podem referir-se, a título de exemplo, Uma Família Inglesa (um quase-festival em torno dos parceiros ingleses da companhia) e Happy Together (que inclui uma participação no programa do Fórum do Futuro e um call for art, em parceria com a CMP).
A mala voadora é apoiada bienalmente pelo Ministério da Cultura / Direção Geral das Artes, e é estrutura associada d’O Espaço do Tempo e da ZDB.
Folha de Sala
Jorge Andrade nasceu em Moçambique e veio para Portugal com 4 anos, mas em Moçambique (o espetáculo) constrói uma biografia como se tivesse lá ficado. Para tornar credível esta história de vida, impusemo-la à História do país. Jorge Andrade faz agora parte da História de Moçambique.
O trabalho que esteve na origem deste espetáculo passou por uma prolongada investigação bibliográfica e documental em torno da História de Moçambique pós-independência, e por dois períodos de residência no país, com centro em Maputo, com o apoio do Centro Cultural Português / Instituto Camões. O espetáculo teve uma apresentação prévia em Montemor-o-Novo, a 10 de Setembro, no final de um período de residência n’O Espaço do Tempo.
Jean Cocteau disse que a História é uma verdade que tende a ser mentira, e que o mito é uma mentira que tende a ser verdade. Talvez tenha razão, ou talvez esteja a desdenhar da História para dizer uma frase impactante, ou talvez pretenda fazer um manifesto de validade sobretudo pessoal. A verdade (deve ser essa a palavra) é que a História não é nunca perfeitamente objetiva e implica sempre um quadro ideológico.
Nos últimos anos, o cinema documental tem sido profícuo na relativização da ideia de “verdade” e na invenção de modelos narrativos tangenciais a uma suposta fidelidade a uma suposta realidade – o que não deixa de ser um curioso contraponto ao teatro que, também nos últimos anos, se aproxima do universo do documentário bastante mais ingenuamente. Talvez se procurem nele substitutos, ou para o efeito emocional da verdade psicológica (mais do que a verdade da representação, a verdade das próprias pessoas), ou para o teatro propagandístico de um certo marxismo primário (um teatro utilitário) – curiosamente, ambas possibilidades modernas que tiveram o seu tempo há mais ou menos 100 anos.
Julgamos que a possibilidade de “verdade” não está num sítio tão evidente. Na arte, nunca está (para não referir que a arte não serve para fazer História). E, nesse sentido, podemos concordar com Cocteau. Moçambique é um espetáculo que parte de material documental – que, tal como um texto de Shakespeare, é uma matéria-prima aberta ao que se quiser fazer com ela. Mas este pressuposto elementar, ou banal, conduziu a um efeito menos previsível: é possível que as partes nas quais é mais difícil acreditar sejam aquelas em que mais nos esforçámos por ser fiéis aos acontecimentos. É assim (est)a História.
Moçambique é o primeiro espetáculo de um díptico que será completado em 2017 com um espetáculo em torno da América Latina.
Menores de 30 anos 5€
Menores de 18 anos 3€
Sinopse
Os três elementos mais antigos da mala voadora nasceram em Moçambique. Um deles é Jorge Andrade. Apesar de ter vindo para Portugal com quatro anos, propõe-se a construir uma autobiografia como se tivesse vivido em Moçambique toda a sua vida. E para que a sua história se torne credível, vai ter de impô-la à História do país. E se o teatro documental só tem interesse se contar mentiras, trazem-se imagens efetivamente documentais para o contexto ficcional do teatro, ficcionando-as de um modo que não visa a verdade. Visa antes, como um romance histórico, inventar uma história cujo contexto advém da História. Jorge Andrade fará parte da História de Moçambique.