Mudra
Biografia
Marco Franco
Nascido em Lisboa em 1972, Marco Franco inicia a sua atividade profissional como músico ocupando a bateria em diversas bandas durante os anos 1980. Durante as décadas seguintes, torna-se um elemento importante na improvisação nacional e na pop experimental, mas também como criador de inúmeros projetos para diversas áreas artísticas, escrevendo música e fazendo direção musical para peças de teatro e dança, cinema, vídeo e filmes de animação, como por exemplo Puro Sangue ― Mulheres de Lúcia Sigalho (1996), Ritual de Amor ou Morte de Aldara Bizarro (1997), Orock de Paulo Ribeiro (1998), The Lisbon Group de Steve Paxton (2002), Screen Play de Christian Marclay (2008), O Grande Monteleone de João Leitão (2011) ou A Íntima Farsa de JP Simões (2011). Eles Andam Aí, álbum dos Peste & Sida de 1994, é o primeiro disco em que aparece creditado, mas é com o os Tim Tim Por Tim Tum que inicia um projeto com sua autoria ― aqui partilhadas por três outros bateristas, Acácio Salero, Alexandre Frazão e José Salgueiro. Já neste século, Mikado Lab, com Pedro Gonçalves e Ana Araújo, dá nova projeção ao seu nome, editando dois álbuns: Baligo, com a participação de Mário Laginha e Chris Speed, e Coração Pneumático, com Bernardo Sassetti. Dos seus grupos regulares mais recentes, no jazz encontramos Clocks And Clouds com Luís Vicente, Rodrigo Pinheiro e Hernâni Faustino, e Deux Maisons com Luís Vicente, Theo Ceccaldi e Valentin Ceccaldi. Fora do jazz, Marco Franco integra agora a segunda encarnação dos Memória de Peixe, com Miguel Nicolau, tendo editado Himiko Cloud em outubro de 2016. Colabora, neste momento, com Norberto Lobo para a edição do próximo álbum do guitarrista. Depois de uma carreira recheada onde a bateria teve sempre o principal papel na sua interpretação e composição, em 2017 Marco Franco edita Mudra para piano solo, estreando-se em absoluto neste seu novo instrumento, recolhendo rasgados elogios do público e crítica.
Folha de Sala
A eterna dança das esferas
Mudra emana faíscas, poemas líricos, as suas melodias dão incessantemente origem à poesia. Marco, um dia, procurou companheiros que fossem filhos da sua esperança; tornou-se claro que não os podia encontrar, a menos que ele próprio os criasse. Com o coração repleto de tais enigmas, encontrou-se só a caminho da sua obra. Só como o céu sereno e o mar livre.
Ninguém ama com todo o coração senão o seu filho e a sua obra. Um grande amor é presságio de maternidade. De beatitude involuntária. De viagens solitárias em que nunca se repete senão a experiência própria, na profundidade do seu próprio abismo. É aí que nasce a sua eloquência. Tranquilo é o fundo do mar, onde ninguém adivinha que habitam monstros. Mas é do cume dos montes que brota a fonte de vida, lá onde o ar é rarefeito. Por isso, poucas são as bocas que lhe sentem a frescura. Apenas os aventureiros se arriscam nos trilhos e nos transtornos que causam a sua sede. Esta é música de quem tem sede e sabe esperar. A expressão de um espírito sereno, quase infantil, que sabe dar voz aos presságios, agarrar o piano com punhos de ferro e arrancar-lhe sons, que, de outro modo, seriam estranhos.
Em nenhuma arte a teoria é mais fraca e insuficiente como na Música. A música é a mais romântica das artes, em particular a música instrumental, a qual despreza todo o auxílio e exprime pura e genuinamente a essência do mundo. Um mundo que nada tem de comum com o mundo exterior; onde deixamos para trás todos os conceitos para nos entregarmos ao inefável. Um temor envolve-nos, mas é sobretudo um temor isento de mortificação, que é a expressão do infinito. Amor e melancolia soam, revelam o reino do extraordinário e do incomensurável, por entre as nuvens na eterna dança das esferas.
Tiago Sousa, músico
Sinopse
Nos meses que antecederam o anúncio público, a novidade circulou nos bastidores como um novo e contagiante vírus: o baterista Marco Franco gravara um novo disco e este seria a sua estreia em piano. Mudra, preparado em completo segredo, longe até dos ouvidos dos conselheiros mais chegados, aparece na sua carreira como uma segunda vida, como se tudo começasse do zero para este músico lisboeta, com novas regras, ideias e ferramentas. Na nossa cabeça, esta impossibilidade ― como se fosse a segunda etapa da incredulidade ― desvanece-se imediatamente quando entramos nas suas composições e nos emocionamos com um piano que parece guardar em si música de uma vida inteira por escrever. Depois de conquistar um importante posto na improvisação nacional e de se ter tornado um valioso jogador para muitos projetos musicais transgressores ― Tim Tim Por Tim Tum, Mikado Lab ou Memória de Peixe ―, Marco Franco revela-se como um compositor ambicioso e talentoso. E, porque não dizê-lo, promissor, porque Mudra também nos faz crer que há uma nova biografia por explorar e contar. Como convém nestas situações, é preciso testemunhar este momento para sentir toda a sua força e honestidade.