Flotus
Folha de Sala
A lista de cidades é considerável, embora não surpreenda quem há muito venere os passos da banda Lambchop. Começa hoje, aqui no Teatro Maria Matos, a digressão 2017 dedicada a FLOTUS que, depois de Espinho, segue galopante e ininterrupta pela Europa fora, até março, até decidir voltar a casa para mais espetáculos. Vamos ter, assim, a estreia, o primeiro concerto de todos, em que a surpresa será desvendada. Kurt Wagner sabia disso quando o confrontámos, ainda em 2016, para desvendar como seria FLOTUS num palco. Soube esconder o jogo, desviar-se de um par de balas e deixar-nos à espera do dia certo. As nossas questões eram naturais e sinceras: como é que uma banda que sempre se movimentou pelo rock e pela folk traz sintetizadores e eletrónica para a estrada? Como é que a maquinaria que alimenta FLOTUS entra num palco? Wagner sossegou-nos, como lhe competia, assegurando que tudo seria respeitado, mas também iria ser criado espaço para novos arranjos em que o piano seria, surpreendentemente, a figura central. Prometeu-nos muita eletrónica, mas deixou a grande questão no ar: que forma iria tomar The Hustle, o tal tema que vale um disco inteiro? E não é um tema qualquer, pois relaciona-se com Portugal através de uma encomenda do festival Curtas de Vila do Conde, em 2015, quando foram desafiados a compor a banda sonora para uma curta-metragem de Bill Morrison, elaborada por pedaços de filmes de arquivo do cinema mudo português das décadas de 1920 e 1930. São 18 minutos magníficos de pura eletrónica germânica, maquinal e hipnótica, que pela sua duração ― para que equivalesse a um lado de um vinil ― ofereceu um novo dilema a Kurt Wagner: se deixando de fora The Hustle podia ser considerado um crime em qualquer uma das cidades da digressão, incluir todos os seus minutos num alinhamento iria criar uma assimetria demasiado audível. E porque a idade de Lambchop não é apenas um posto, eis que há três versões disponíveis prontas a desarmar em qualquer situação. Ou seja, mais uma vez, ficamos entregues à surpresa desta noite, tendo a certeza que juntos caminharemos por terrenos seguros e novos.
E que mais novo haverá do que guinar violentamente o volante de Lambchop ao fim de duas décadas de uma consistente carreira pop-rock? Sem que nada o previsse, tirando umas preparatórias aventuras a bordo de um projeto chamado HeCTA, com três elementos de Lambchop, as primeiras notícias de FLOTUS que apareciam na imprensa davam conta de um álbum de homenagem ao hip hop, a Frank Ocean e seus pares. Percebe-se à distância, com o álbum perfeitamente assimilado, que FLOTUS vai bem além desses nomes, aventurando-se a experimentar um maior catálogo de hipóteses que a eletrónica oferece: batidas, loops, vozes processadas, ritmos, efeitos. Apesar de conhecermos agora todas as ramificações, foi de algum do melhor hip hop da atualidade que FLOTUS efetivamente nasceu, indo atrás de novos sons, novos processos e novas ideias.
Wagner contou à Stereogum como tudo eclodiu: “É algo que esteve a cozinhar durante algum tempo. Fiz um álbum com um par de rapazes de Lambchop chamados HeCTA e durante esse processo aprendi imenso sobre a tecnologia que é precisa para fazer este tipo de música. Assim que o terminámos, tivemos de descobrir como é que a tocaríamos, e por isso também tive de aprender tudo sobre isso. Foi divertido, e com este conhecimento todo no meu cérebro, comecei a tentar usá-lo para pensar sobre outros métodos de escrita de canções. Cresceu tudo a partir daí, juntando o facto de fazer um disco ao qual a minha mulher reagisse favoravelmente. E também por vivermos na mesma casa há 20 anos. Os vizinhos são os mesmos de há 20 anos e assisti ao crescimento de toda esta família. Eles são perfeitos a mostrar a música nova, e eu fui ouvindo-a do lado de fora, quando estava no meu alpendre ou a chegar a casa ou em festas. Música ótima, muito hip hop em mixtapes. Ouvi coisas muito antes de ficarem disponíveis noutros lugares, tal era o empenho desta família nessas coisas. E de repente pensei que seria cool deixar que isso entrasse no tipo de música que faço. Não está nas minhas pilhas de discos, mas está na minha cabeça desde há muito. Então procurei algum hip hop contemporâneo e fiquei fascinado, especialmente por Kendrick Lamar e Flying Lotus, ambos de LA. Para mim é excitante e revolucionário. Usei muito da destreza deles e também da criatividade da produção. Estas coisas foram altamente influenciadoras em FLOTUS. Mas faltava ainda uma peça do puzzle: eu não sabia o que fazer com a minha voz. Fui ver um concerto de Shabazz Palaces e eles tinham umas pequenas caixas de alteravam a voz em modos muito interessantes. Fiquei totalmente rendido. Comprei uma daquelas caixas e comecei a brincar com ela. Imediatamente, tudo encaixou. Rescrevi o álbum e voltei a juntar tudo, escrevendo quase tudo com aquela caixinha. Não toquei guitarra, fiz tudo com a minha voz. Dois terços do disco, ou talvez mais, talvez três quartos, é assim, em que procurei um novo caminho para escrever canções e como me integrar nelas.”
Este pode ter sido o grande golpe de génio de Kurt Wagner e, por consequência, dos Lambchop. É certo que é preciso uma grande dose de coragem pela revolução sonora da banda, sobretudo depois de atingir um estatuto imperturbável no universo indie norte-americano, mas a verdadeira conquista é ouvirmos tudo de novo em FLOTUS como algo intrinsecamente pertencente a Lambchop, onde nada parece faltar de tudo aquilo que nos habituamos a querer na sua música. Há muitas divisões novas nesta casa, e muitas obras profundas que mexeram com a estrutura, mas nunca conseguimos deixar de sentir aquele notável conforto que sempre sentimos desde que começámos a ouvir a música de Kurt Wagner. Mais do que uma grande obra, já reconhecida nas listas de favoritos de 2016, FLOTUS mostra quão grande continua a ser a música de Lambchop.
Sinopse
FLOTUS pode ser uma surpresa, sim, mas não absoluta, especialmente para aqueles que procuram colecionar todos os pedaços da história. Sobretudo, quando em 2015, três dos elementos dos Lambchop nos presentearam com The Diet, um disco com veias eletrónicas que voou abaixo do radar. Contudo, há que admitir: é uma surpresa e é arrebatadora, como se um edifício de mais de uma dezena de pisos, feitos pacientemente ao longo de mais de duas décadas, explodisse em pequenos fragmentos que novamente aglutinados constroem algo novo e encantador. Nestas tais duas décadas, os Lambchop foram mapeando uma carreira imaculada, na qual nenhuma obra desmereceu a fama que foram entretanto conquistando, materializada pelo epíteto de “instituição musical norte-americana” que tanto se repete. Mas é daqui que verdadeiramente nasce FLOTUS, quatro anos depois do lamento a Vic Chesnutt, como se da dor nascesse uma eletrónica tão inteligente e desafiante que julgaríamos que sempre esteve por lá. Uma surpresa e seguramente um milagre, pois FLOTUS, entre a herança da eletrónica alemã e as produções de Brian Eno, é um dos melhores discos de Lambchop e uma nova e excitante vida para a pop pastoral e reconfortante de Kurt Wagner. Apesar de o piano ser uma figura central para este concerto, este é um ponto de mudança que se torna imperioso testemunhar.