No More Lamps in The Morning
Bio
Josephine Foster nasceu no estado do Colorado (1974) mas depois de lançar os seus primeiros discos acabar-se-ia por mudar para Chicago, Illinois. Durante a sua infância conviveu com cerimónias religiosas onde foi treinando o seu canto. Os seus primeiros álbuns mostram a sua curiosidade pela música desde muito cedo, o seu amor pelo ukelele, o mundo retro hippie, as canções infantis e, claro, a folk norte-americana, inglesa e de outras paragens e culturas. Abraçou em 2006 um outro velho amor, o mundo lírico, ao cantar compositores alemães do século XIX. Graphic as a Star, de 2006, é ainda sobre o século XIX, mas agora dedica-se à poesia de Emily Dickinson. A relação com Victor Herrero aprofunda a sua ligação à folk hispânica levando-a a interpretar Las Canciones Populares de Federico Garcia Lorca e La Argentinita no seu disco Anda Jaleo, de 2010. Perlas, dois anos depois, refugia-se na tradição folk do País Basco e de Castela, recuperando canções e poemas pouco conhecidos. Os seus dois discos seguintes vêem-na de volta aos Estados Unidos, Blood Rushing, gravado no seu estado natal; I’m a Dreamer, em Nashville. Em 2016 edita No More Lamps in the Morning, onde regrava algumas das suas canções – antigas e recentes – com novos arranjos e instrumentação, mostrando bem a contínua evolução da sua voz e da sua sensibilidade musical.
Folha de Sala
Blue Roses de Rudyard Kipling
Roses red and roses white
Plucked I for my love’s delight.
She would none of all my posies—
Bade me gather her blue roses.
Half the world I wandered through,
Seeking where such flowers grew
Half the world unto my quest
Answered me with laugh and jest.
Home I came at wintertide,
But my silly love had died
Seeking with her latest breath
Roses from the arms of Death.
It may be beyond the grave
She shall find what she would have.
Mine was but an idle quest—
Roses white and red are best!
O teu novo álbum [No More Lamps in the Morning] tem dois poemas musicados [Rudyard Kipling e James Joyce]. Já o tinhas feito com poemas de Emily Dickinson, descrevendo-os como objetos tangíveis para meditar. O processo de cantar estas canções foi diferente desta vez?
Quando era teenager, fui apresentada à ideia de um compositor pegar nos seus grandes poetas contemporâneos através das Lieder alemãs ou das “art songs” europeias, como Brahms e outros. Gosto como diferentes compositores pegam num mesmo poema de diferentes maneiras, cantando versões distintas, e acabei por ficar inspirada e compor uma melodia para um poema. Isto ajuda-me a mantê-lo acessível na minha memória – a estrutura melódica dá forma o que me permite recitá-los interminavelmente e explorá-los nesse sentido.
Mas eu canto poemas de forma casual, também. Esses poemas da Emily Dickinson foram feitos numa época de solidão, a viver no meio da Serra Nevada. Tinha poucos livros e um deles era dela, por isso musiquei vários na altura. Agora, faço ligações entre esses poemas [de No More Lamps in the Morning] através da atmosfera geral das minhas próprias letras. Um deles, Blue Roses de Rudyard Kipling, já tinha sido editado há um par de anos com um arranjo diferente. Não é uma abordagem muito académica, é só parte do que gosto de fazer. [Risos] Até se pode dizer que é como um hobby.
No poema de Kipling, o narrador parte em busca de rosas azuis para o seu amor, para no fim descobrir que não existem. Quando finalmente regressa, a sua amada já tinha morrido. Tem esse tema inevitável que é a morte.
Sim, exato. Ele nunca conseguiu satisfazê-la, pobre homem. Há muitas referências à flor azul no período romântico, especialmente como um símbolo de perfeição inatingível. Há um poema alemão para o qual fiz música que tem um tema similar – Die Blaue Blume, de Joseph von Eichendorff. Podia tê-la gravado e incluído neste disco, agora que penso nisso.
My Dove, My Beautiful One é a outra canção baseada num poema, desta vez de James Joyce – que gostava muito que musicassem o seu trabalho, já que era também tenor. Vejo que a imagética deste poema foi inspirada numa passagem bíblica da Canção de Salomão.
Não sabia, mas faz sentido – a inspiração no Velho Testamento. Um poema meu, A Thimbleful Of Milk, também foi inspirado pela Canção de Salomão.
Fiquei surpreendido por ouvir a regravação dessa canção neste disco. As diferenças entre as duas versões são muito subtis.
Bom, eu não andava a ouvir a versão antiga, e não estava particularmente contente com ela de qualquer maneira. Durante a gravação desse disco [This Coming Gladness] estive com uma gripe horrível. Às vezes era melhor, para atingir aquelas notas graves. Mas nunca senti que tinha agarrado essa canção como deve ser, por isso, voltei a gravá-la para ficar contente com ela. Para além disso, a presença musical do Victor [Herrero] acrescenta imenso.
E depois há a tradição folk de reapresentar velho material. Michael Hurley é um nome que me vem à cabeça, por ter várias gravações da sua Tea Song.
Por acaso, estive com o Michael há um par de meses e gravámos uma canção dele que já tínhamos tocado juntos. Gosto imenso disso. Não acho que o regravar seja uma característica apenas da tradição folk. Acho que – fora da música comercial – é bastante normal, nada de muito extraordinário.
Excerto de entrevista de Gary Canino, músico e escritor, para a Bomb Magazine.
Menores 30 anos: 5€
Sinopse
Mais que um novo disco, No More Lamps in the Morning é um ponto de balanço da carreira de Josephine Foster, onde algumas das suas canções são retrabalhadas com novos arranjos que simplificam formas e aperfeiçoam resultados. Há material revisto de álbuns como I’m a Dreamer, de 2013, ou This Coming Gladness, de 2008, mas também do seu icónico e importante duo Born Heller, com que se apresentou em 2004, na editora Locust, na companhia de Jason Ajemian. Desde então, Josephine Foster foi seguindo uma espécie de estrela cadente que lhe foi indicando um percurso inesperado mas sempre coerente com a sua curiosidade musical: pela inevitável folk e blues primitivos norte-americanos, pelas Lieder germânicas do século XIX, passando pelas Canciones Populares de Federico García Lorca, ou falando com as palavras de Rudyard Kipling ou James Joyce. E também por Portugal, através da vibrante e melancólica guitarra portuguesa, com que o seu marido Victor Herrero a acompanha, sozinho ou com a sua banda, desde há uns anos. Josephine Foster traz um mundo com ela, sem tempo, e esta noite celebramos a sua universalidade.