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Joana Sá Elogio da Desordem Informações sobre o Evento
04 Out 2013
Datas e Horários
sexta ↣ 22h00
Preço
14€ / 7€
Menores de 30 anos 5€
Local
Sala Principal
Música

Joana Sá
Elogio da Desordem

Bios

Bios

Joana Sá

Pianista, compositora e improvisadora, desenvolve o seu trabalho na área da música nova/música contemporânea. Encontra-se atualmente a fazer um doutoramento em Música, variante Performance na Universidade de Aveiro, como bolseira da FCT — Fundação para Ciência e Tecnologia. Tem a licenciatura em Piano com os professores e pianistas Caio Pagano e Paulo Álvares, tendo estudado em Lisboa, Paris, Castelo Branco e Colónia. Recebeu a bolsa INOV-ART em 2009 e, em 2010 teve uma menção honrosa da Bolsa Ernesto de Sousa.

Tem especial interesse na incorporação de outros meios e de outras áreas artísticas nos seus trabalhos. O seu primeiro trabalho a solo through this looking glass, filmado pelo realizador e diretor de fotografia Daniel Costa Neves, foi editado em DVD+CD pela alemã blinker – Marke für Rezentes em 2011 e foi muito bem recebido pela crítica e imprensa. O seu segundo trabalho a solo, Elogio da Desordem, é agora editado pela Shhpuma, editora subsidiária da Cleanfeed.

Tem-se apresentado em concerto no âmbito de diversos festivais e em salas nacionais e internacionais. É membro dos grupos Almost a Song (com Luís José Martins), POWERTRIO (com Eduardo Raon e Luís José Martins) e colabora com os artistas Rita Sá, Daniel Costa Neves e Pedro Diniz Reis. Fez música para cinema, destacando-se a música para o filme Tabu de Miguel Gomes, nomeada na categoria de melhor banda sonora nos prémios Sophia 2013.

 

 

Daniel Costa Neves

Formou-se em Fotografia Publicidade / Moda na EPI em 1997. Começou desde logo a trabalhar em cinema, fundando em 2000 a sua própria produtora, moving OUT. Por volta da mesma altura, estabelece-se como diretor de fotografia, colaborando com realizadores como Nikolai Galitzine, Inês Oliveira, Manuel Mozos, Filipe Melo e João Leitão, José Barahona, Miguel Gonçalves Mendes, João Dias, Christine Reeh, Edgar Pêra, bem como artistas plásticos, entre eles João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, Pedro Diniz Reis e Nuno Cera. Foi galardoado com o Prémio de Melhor Fotografia no VIMus — Festival Internacional de Vídeo Musical, com o vídeo Putos a Roubar Maçãs (Dead Combo), e o Prémio Melhor Fotografia em Curta-Metragem no Festival Internacional Indielisboa ’10 com o filme O verão. Realiza paralelamente os seus próprios filmes, ligados sobretudo à área da música, de onde se destacam Through This Looking Glass (projeto com Joana Sá, Prémio de Melhor Filme Português no âmbito dos Prémios de Cinema Filmes Sobre Arte, atribuídos pelo Festival Temps D’Images 2012); Esse Olhar Que Era Só Teu, Ao Vivo No São Luiz e Enraptured With Lust (filmes feitos para a banda Dead Combo, tendo este último recebido uma Menção Honrosa no Festival Internacional de Cinema de Artes Performativas 2008).

 

 

Pedro Diniz Reis

Artista nascido em Lisboa em 1972, onde vive e trabalha. É licenciado em Pintura pela FBAUL (1995-2000) e trabalha em diversos media, como fotografia, performance, vídeo, instalação e desenho. Entre as exposições individuais, destacam-se ³AA-ZZ², Culturgest Lisboa (2011); ³Um Dicionário, Quatro Alfabetos, Um Sistema Decimal², Culturgest Porto (2010-11); ³Grids², Appleton Square, Lisboa (2008); ³Shibari², Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa (2005); ³SlowMotion², Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa (2002); ³False Opening², White Box, Nova Iorque (2002); e ³Kerze (1983-)², Galeria Quadrum, Lisboa (1999).

Folha de Sala

Folha de Sala

ELOGIO DA DESORDEM

(monólogo interior para piano semi-preparado, instalação de campainhas e sirenes, voz, toy piano, caixas de ruído, mini amplificadores, tubos flexíveis, harmónio)

 

  1. Abertura
  2. Hierarquia da loucura
  • Fraqueza dos sólidos
  1. Tudo o que é claro tem uma parte escura (Canção de embalar)
  2. Elogio da desordem
  3. Realidade, imaginação (método para não ficar louco)
  • A queda elegante

 

 

  1. Abertura

é o vento Bora, um vento potente e frio como o que é terrível, é o vento Bora que mexe os alimentos que estão dentro da panela, e por isso quem vier a este banquete ficará louco, pois este vento tem fama de funcionar como um sabre no meio da cabeça: corta bocados, separa elementos antigos, não precisas de talher grande: o vento vem e faz o que cem mil utensílios não conseguiriam: transforma comida racional em comida louca, o vento Bora, tem medo dele, quem vai a Trieste vem com o vento Bora na cabeça e nunca mais esquece, não podes esquecer o vento Bora, e enquanto fazes a comida para o banquete lembras-te da maldição e como tens vergonha não mandas embora quem convidaste:

 

 

  1. Hierarquia da Loucura

espaços vazios que as letras devem completar com um sentido, eis o tabuleiro perfeito

 

– estou no meio da minha cabeça e mesmo assim começo a gritar, mesmo no centro e estás perdido, fui atirado da janela e dentro da cabeça nem tudo é claro

o que se passa lá fora não é entendido cá dentro, o cérebro une pontos, um ponto a outro como no jogo dos meninos até fazer uma figura que percebas

um cérebro que, de entre quatro mil imagens, escolhe uma –

 

 

  • Fraqueza dos sólidos
  1. A extremidade do líquido é também o seu centro.
  2. O líquido tem um número infinito de centros.
  3. Os sólidos são mais frágeis porque o seu centro é localizável.

 

 

  1. Tudo o que é claro tem uma parte escura (Canção de embalar)

 

deito-me e tento adormecer com os olhos abertos, quando penso que estou a conseguir percebo que falho.

 

um homem vigia as duas direções e o seu modo de vigiar é este: está debruçado sobre o papel a tentar resolver um problema de números  e letras. E é evidente que isso não é uma forma racional de vigiar as duas direções, pelo contrário, de cabeça baixa, de olhos inclinados sobre o papel, o homem não vigia nenhuma direção a não ser que se considere que o próprio cérebro humano tem caminhos e são esses caminhos que ele quer vigiar.

 

 

  1. Elogio da desordem

e o animal já tem as pernas e o caminho, e tudo está disponível exceto a vontade, que é o principal, e a eletricidade bem dirigida já a sacou – à vontade – para fora como se fosse um órgão, atiras a excitação do louco para a mesa, ele estrebucha como um peixe, dás pancadas com o martelo, ele acaba de vez com a tua excitação, a forma médica de fazer sedentários, digo que sim, digo que estou às suas ordens, bato com os calcanhares um no outro, digo Heil Hitler, gozo com a situação, sinto que domino quem me esmaga, levanto-me, estou na vertical, fico tonto, peço uma cadeira, quase desmaio, tento de novo, outra vez na vertical, quero avançar, dou um passo, nómada por um passo, nómada por dois passos e op caio de novo

Está um louco ao piano e toca como um pianista amestrado, dão-lhe medicamentos de tempos a tempos, pois o bicho pianista é muito violento –

E sim, é esse homem, e está medicado com rigor, parece que descobriram com exatidão a posição de uma molécula; nele, no louco, encontraram a posição certa entre a medicação e o mundo para que cá para fora não saia raiva nem violência nem desordem nem desacerto, mas simplesmente o dó ré mi, o que é excelente.

 

 

  1. Realidade, imaginação (método para não ficar louco)

 

E nem o lago, quando calmo e parado,

pacífico como sempre, nos tira deste monólogo antigo.

 

Não falam com a natureza, os homens falam sozinhos,

sempre falaram.

 

Foi o homem que inventou a linguagem

E foi também ele que inventou a falta de linguagem,

E a angústia que isso provoca.

 

 

VII. vem o vento Bora, o vento que faz as cabeças loucas, e o vento Bora entra na boca, roda dentro da boca, um redemoinho em terra seca;

 

pegam num nómada, prendem-no à cadeira com cordas, choque elétrico, impedem-no de se pôr a correr dali, desatam os nós, dizem estás livre e o animal já tem as pernas e o caminho, e tudo está disponível exceto a vontade, que é o principal, e a eletricidade bem dirigida já a sacou – à vontade – para fora como se fosse um órgão, atiras a excitação do louco para a mesa, ele estrebucha como um peixe, dás pancadas com o martelo, ele acaba de vez com a tua excitação, a forma médica de fazer sedentários

 

caio outra vez, sedentário na forma como caio, preguiçoso na forma como caio, tirámos-te a excitação, deixaste de ser nómada, op

 

vão conseguir ao fim de dois anos que me mantenha em pé sozinho, um regresso à infância mas pela porta grande, pela destruição do organismo, voltar atrás  mas com mais peso, com mais corpo com mais ideias, estudar muito para conseguir ficar sobre os dois pés como fizeram os nossos antepassados macacos, op op

levanto-me estou na vertical, fico tonto, peço uma cadeira, quase desmaio, tento de novo, outra vez na vertical, quero avançar, dou um passo, nómada por um passo, nómada por dois passos e op caio de novo

aqui vou eu dedicado à queda como alguém se dedica a cantar ou a construir

 

e depois já só queremos não cair, exigimos ao solo que não nos deixe cair, que pelo menos isso, que por favor isso, que rezo ao deus que quiserem para isso, que o solo não te deixe cair e já é bom, porque ao ar não te podes agarrar mesmo quando nesse ar está meio escondido um gesto de cruz que foi feito para abençoar, mas falhou

não sejas demasiado leve nem pesado, o peso justo, o tempo certo, a queda elegante, um segundo antes põe a língua de fora, diz adeus às pessoas que convidaste para jantar

 

 

 

 

 

Há uma espécie de admiração desconfiada entre as artes, um respeito pelo trabalho do outro sobre um material que não se domina. O compositor tende a ver e a ler o mundo como quem ouve. Em Through this looking glass (2010), a Joana Sá dá-nos a ler alguns textos que fazem parte desse seu mundo sonoro e de uma performance que o Daniel Neves pôs em imagens — textos e imagens que balizam a exploração de uma enorme liberdade musical. Buscando sempre a libertação, a energia e a surpresa do gesto sonoro, o Elogio da desordem é formalmente mais rígido, abdica da imagem e acaba por dar voz a textos de Gonçalo M. Tavares. O discurso organiza o pensamento que filtra a mente que é múltipla, desordenada, excêntrica, volúvel. A música é o Elogio da desordem que se passa na nossa cabeça, capaz de nos restituir (com incómodo, por vezes, dolorosamente) não apenas a multiplicidade de ideias, imagens, sons e até vazios, mas sobretudo a sua simultaneidade. É por isso que a Joana Sá, utilizando em concerto técnicas outrora exclusivas do estúdio, usa a gravação para colocar o ouvinte no lugar da pianista, da compositora e da Rosinda Costa, vendo, lendo e falando.

Guilherme Proença, musicólogo

04 Out 2013
Datas e Horários
sexta ↣ 22h00
Preço
14€ / 7€
Menores de 30 anos 5€
Local
Sala Principal

Sinopse

 

No regresso ao Teatro Maria Matos, a pianista Joana Sá apresenta a sua nova obra lançada neste mesmo mês pelo selo Shhpuma, Elogio da Desordem, um monólogo interior para piano semi-preparado, acompanhado por instalação de campainhas e sirenes, toy piano, caixas de ruído, mini-amplificadores, voz e eletrónica. Aproximando-se do teatro instrumental, Elogio da Desordem procura um discurso musical no qual irrompe ocasionalmente a palavra. Ultrapassando os limites habituais de uma pianista, Joana Sá tenta dar resposta aos sistemas de desordem por si criados, imaginados ou vividos numa performance musical que tem implícita uma coreografia de ações ― nas suas palavras, é música para ver, ouvir e pensar. Nesta busca pela representação de um espaço interior através das dimensões musical, textual e visual, a pianista rodeou-se das sensibilidades de Gonçalo M. Tavares, Daniel Costa Neves e Pedro Diniz Reis incorporando no monólogo as suas várias vozes.

Conteúdos Relacionados

Material Gráfico Cartaz Elogio da Desordem 04 Out 2013

Ficha Artística

música, conceito & performance
Joana Sá

texto
Gonçalo M. Tavares

vídeo
Daniel Costa Neves, Pedro Diniz Reis

desenho de luz
Daniel Costa Neves & Tela Negra

operação de som
Hélder Nelson

operação de luz
Tela Negra

construção de instalação de campainhas & sirenes
Luís José Martins

construção de caixas de ruído
André Castro

ficheiros áudio gravados por
Hélder Nelson e misturados por Eduardo Raon

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