À Escuta: O Aberto
Folha de Sala
Foi um longo percurso caminhado pelo palco do Teatro Maria Matos. Com À escuta: o aberto, que agora se apresenta, fecha-se uma trilogia que nos orgulha ter sido incluído na nossa programação, começada em 2011 com Through This Looking Glass e prosseguida em 2013 com Elogio da Desordem. Por entre estas importantes obras a solo, Joana Sá não esteve parada, colocando em marcha os seus projetos coletivos: Powertrio, com Luís José Martins e Eduardo Raon, que na nossa sala, há praticamente um ano, apresentaram Di Lontan; Almost A Song, em duo com Luís José Martins, de onde se metamorfoseou Almost A Song Book para, como o barítono Jorge Martins, homenagearem John Cage durante o nosso evento celebratório 100 Cage; e Turba Multa, uma ideia em fase de descolagem com a trindade de Powertrio a ser ampliada a quinteto pela participação do percussionista Nuno Aroso e do violoncelista Luís André Ferreira. Apercebermo-nos, em todas estas fases e diferentes ideias, a mesma Joana Sá, advogando liberdade musical, criando incansavelmente novas formas musicais executadas com invulgar rigor e obstinação. Esta procura da perfeição, que tão bem conhecemos de qualquer uma das fases de produção das suas obras, é o seu único caminho, onde convoca todos os seus colaboradores para o mesmo fim. Joana Sá é a única arquiteta das suas peças, mas em palco as suas obras a solo são executadas graças à absoluta entrega de uma equipa de fiéis cúmplices, que amplificam universos que nem sempre acreditamos serem possíveis de mostrar ― isolando injustamente um nome apenas, prestamos vénia especial a Daniel Neves pela fabulosa composição visual que tem oferecido a todas as etapas da trilogia.
Desde Through This Looking Glass que ficámos reféns da exatidão da sua linguagem, abrangente em/de todos os sentidos, na qual o piano, peça central dos seus movimentos e emoções, parece querer ganhar uma preponderância cada vez maior extravasando o seu caixão e ganhando vida própria em objetos e plataformas híbridas. Nessa primeira obra, ficou-nos na memória como o piano se reduziu nas suas mãos, como se Joana Sá tivesse extinguido todos os planos de arquitetura do seu instrumento. Não a despropósito, Elogio da Desordem dar-nos-ia a palavra, aérea e sustentada por vídeo, num monólogo virulento, à beira de colapso meticuloso que envolveu sirenes e caixas de ruído. Agora ouvimos À escuta: o aberto, o fecho pacientemente planeado durante os últimos três anos, em que Dentro da cabeça nem tudo é claro, criado com Rita Sá, e destinado ao público infantil, serviu de estudo para a nova peça e de súmula para a identidade de uma trilogia que vai ganhando um maior peso e veneração graças à dimensão do empreendimento. Nesta terceira parte, assistimos como o corpo performativo continua a dilatar-se, muitas vezes sem grandeza material, a mostrar-nos novos eixos por onde se propõe e se precipita, como um fantasma exímio que nos deslumbra e nos solicita para dezenas de novas histórias, cerzidas com pulso reto e caligrafia que fascina. Pelo meio das suas formas, únicas dentro e fora de portas, há música completa e criadora que nos arroja, deixando-nos crentes de algo que faz ruir as certezas da escrita e da improvisação. E, como sempre acontece após cada seu capítulo, a mesma interrogação investe contra nós: o que nos trará Joana Sá a seguir? Antes desses novos momentos, há duas hipóteses na nossa sala para ver e ouvir como algo grande e belo desvenda, seguindo o impulso da Criação, a sua própria resolução.
[Os corpos] têm antes lugar no limite, enquanto limite: limite – bordo externo, fractura e intersecção da estranheza no contínuo do sentido, no contínuo da matéria. Abertura, discrição.
Morto ou vivo, nem morto nem vivo, sou a abertura, a sepultura ou a boca, uma na outra.
(Nancy, Jean-Luc (2000) Corpus, Edições Veja – Coleção Passagens)
Sinopse
Terceira parte de uma trilogia de solos para piano semi-preparado e extensões sonoras, À escuta: o aberto volta a mostrar Joana Sá em confronto direto entre corpo, música e instrumento, sendo que o foco está, desta vez, no corpo performativo. Ou seja, o corpo à escuta, o corpo que por um lado faz o tempo e o espaço musicais, que vive através da música, e que por outro lida com a sua própria sucumbência. Ainda, o gesto como intervalo mediador entre essas duas dimensões, como prolongamento ou extensão corpórea, abolindo interior ou exterior, e reformulando o espaço e o tempo como algo permanentemente vulnerável, ativo e líquido. Ao vivo, tal como já fizemos com Through This Looking Glass (2011) e Elogio da Desordem (2013) na nossa sala, experimentamos nas performances de Joana Sá uma tridimensionalidade rara, com som e imagem (e movimento e palavra) a invadir a nossa envolvência, jogando com dinâmicas que alteram a nossa perceção e fruição. É do seu piano que tudo se cria e transforma, estilhaçando composições que se materializam em ambientes e objetos circundantes. Ativando este processo, Joana Sá debruça-se uma vez mais na sua própria performance, na construção, como diria o filósofo e musicólogo Peter Szendy, de um corpo feito de “membros fantasmas” ou “corpos improváveis”, extensões fictícias que alimentam as suas histórias. Há eletrónica, imagens, chapas metálicas que relampejam no céu, mas À escuta: o aberto é uma peça para piano e tudo aquilo que, brilhantemente, se consegue criar fora dele.