Harmonies
Bios
Joana Gama (Braga, 1983) é pianista. Em 2016, entregou a sua tese de doutoramento sobre música contemporânea portuguesa para piano na Universidade de Évora e, com o apoio da Antena 2, celebrou os 150 anos do nascimento de Erik Satie com uma série de manifestações artísticas em torno do compositor. Além da atividade a solo – como pianista, compositora e intérprete –, tem estado envolvida nos últimos anos em projetos que aliam a música às áreas da dança, do teatro, do cinema e da fotografia.
Luís Fernandes (Braga, 1981) é músico, artista sonoro e programador cultural. Fundador da banda peixe : avião, mentor do projeto The Astroboy e Landforms, membro do coletivo La La La Ressonance e dos duos Palmer Eldritch e Quest. Colaborou com Hans-Joachim Roedelius, Rhys Chatham e Toshimaru Nakamura. O âmbito do seu trabalho alarga-se à composição de música para cinema e instalações destacando-se o filme Mahjong de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata e a exposição Porto Poetic na Triennale di Milano.
Ricardo Jacinto (Lisboa, 1975). Musico e artista plástico concentrando-se principalmente na relação entre som e espaço. Desde 1998 tem apresentado o seu trabalho em exposições e concertos em Portugal, Europa e América do Sul. Como violoncelista tem trabalhado essencialmente no campo da música experimental e improvisada. A sua discografia está editada pela Clean Feed, Creative Sources e Shhpuma Records. É atualmente investigador no Sonic Arts Research Center (Queen’s University Belfast).
Folha de Sala
Passaste o ano em reverência a Erik Satie – à sua música, naturalmente, mas também ao seu pensamento, palavras e ações. O que andaste a fazer e o que mudou em ti, agora que chegaste a Harmonies?
Sinto um carinho enorme pelo Erik Satie e uma amiga disse-me noutro dia que, quando falava dele, parecia que estava a falar de alguém da minha família. Admiro o seu humor e as suas manifestações artísticas em áreas tão diversas como a música, a escrita ou o desenho, mas não tenho uma atitude reverencial cega até porque ele não gostava da ideia de seguidores: disse-o abertamente. O que quis com a celebração Satie.150 foi partilhar alguns aspetos desta pessoa tão interessante e dessa forma abrir uma porta pela qual algumas pessoas poderão querer entrar. Quando eu abri a porta nunca mais consegui parar. Foi muito bonito neste ano – em que, paralelamente aos recitais, fiz dez palestras sobre a vida e obra de Satie, na sua maioria em escolas – perceber a surpresa e depois o fascínio de tanta gente pela riqueza interior deste homem. Além disso, fiz um mergulho de 15 horas na peça Vexations de Erik Satie no Festival Jardins Efémeros e coordenei uma edição especial da partitura da peça para piano Embryons desséchés (Pianola Editores) que, através do trabalho partilhado com a Mariana Pinto dos Santos, Rui Miguel Ribeiro, Luís Manuel Gaspar, Tiago Cutileiro e Eduardo Brito, realçou aspetos diversos do mundo do compositor. Portanto, em cada momento fui aprofundando um pouco mais a minha relação e o meu conhecimento acerca de Satie, conhecimento esse que não é enciclopédico, mas sim afetivo. E, após um ano a dar a conhecer o legado de Satie, Harmonies é a cereja no topo do bolo: não poderia haver melhor finale do que partir da obra de Satie para a criação de algo novo, ainda para mais na companhia do Luís Fernandes e do Ricardo Jacinto, com a preciosa ajuda da Suse Ribeiro e do Frederico Rompante. E poder deixar o registo deste trabalho em disco, com o selo da Shhpuma, é uma grande alegria.
Desafiámos-te a pensar Satie fora da música dele, algo “novo”, como dizes, e Harmonies nasceu e cresceu em muitas direções. Quais são para ti as principais influências que trazes para dentro deste projeto?
Nós inspirámo-nos em Satie de uma forma muito abrangente porque, sendo a sua música um reflexo claro dos seus interesses, essas outras dimensões tinham de estar presentes no nosso trabalho. Daí que tenhamos estudado a sua obra de forma a identificar alguns elementos que nos interessavam ao nível musical, fugindo das melodias facilmente identificáveis e concentrando-nos na riqueza das texturas, das harmonias e, em alguns casos, na combinação desses dois elementos. O nome Harmonies vem precisamente de um conjunto de estudos harmónicos de Satie e foi a ideia basilar deste nosso trabalho que se foi metamorfoseando com o passar do tempo. E neste processo mantivemos sempre a ligação a elementos extramusicais característicos de Satie: o facto de ter fundado uma igreja da qual era o único membro (mas cuja empreitada levou muito a sério), os desenhos minuciosos, as indicações inusitadas que colocava nas partituras, ou os textos humorísticos. Mais do que estarem explicitamente presentes na música, estes elementos acabaram por povoar a cenografia do espetáculo, que está intimamente ligada à música que criámos.
Quando falámos pela primeira vez, houve logo a ideia de este trabalho com o Luís – que começou com o Quest, que o Teatro Maria Matos apresentou em 2014 – poder ser um veículo para o lado ambientalista e “decorativo” de Satie. Obviamente que o projeto tornou-se bem mais complexo que isso – o que vos fez trabalhar em trio, com o Ricardo Jacinto?
O convite ao Ricardo foi feito tendo em conta o seu trabalho como músico e artista plástico, já que houve desde logo a ideia da construção de um objeto para a ocasião. Pela minha ligação às artes performativas, sentia que era importante a questão cenográfica neste concerto, até porque Satie fez colaborações nessas áreas, nomeadamente no bailado Parade de Jean Cocteau, com cenários de Pablo Picasso. Pensámos no Ricardo por conhecermos e admirarmos o seu trabalho visual e porque nos pareceu que o violoncelo –e especificamente a sua abordagem ao instrumento – casaria bem com a sonoridade que pretendíamos para este projeto. Neste processo em trio, o Ricardo desenvolveu a ideia de um quarto elemento – o conjunto de pratos que está em palco – que tomou um duplo papel: funciona musicalmente como um corpo-filtro do som produzido pelo trio, enquanto faz referência ao cenário do bailado Relâche de Francis Picabia, para o qual Satie compôs a música. Além disso, as projeções acrescentam duas camadas ao espetáculo ao evidenciarem, por um lado, o forte cunho gráfico do compositor (evidente na sua caligrafia, nos desenhos ou na dupla cruz – símbolo que desenvolveu para representar a sua igreja) e, por outro, a voz de Satie, presente em frases avulsas e inusitadas, retiradas das suas partituras.
Entrevista a Joana Gama (novembro 2016)
Sinopse
Quantas formas, além da pera, toma a música de Erik Satie? Joana Gama dirá muitas, e muitas foram as que empreendeu durante este ano, de janeiro a dezembro, de norte a sul do país, para celebrar, como ninguém o fez, o 150.o aniversário do compositor francês. Uma dessas formas, em resposta a um desafio do Teatro Maria Matos, assume‐se nesta noite, em estreia, por este trio que colabora aqui pela primeira vez. O cenário para o bailado Relâche – para o qual Satie compôs música em 1924 – é o quarto elemento deste projeto, aqui reconfigurado por Ricardo Jacinto para funcionar como um instrumento às ordens dos três músicos, como um corpo-filtro. A música presta vénia a Satie pela utilização de fragmentos das suas composições, pela recomposição de ruínas dos materiais que sempre orbitaram a sua música, como exercícios caligráficos ou instruções das suas partituras. Harmonies celebra ainda Satie através da liberdade, dos músicos e como o som pelo som se agrega e reativa constantemente. Depois de um ano a ouvir Satie, eis um momento muito especial onde os seus ensinamentos são projetados para o futuro.