Folha de Sala
Ouvir Grouper é uma cerimónia íntima, na qual ficamos muito próximos daquilo que inspira Liz Harris a fazer as suas composições. Há praticamente quatro anos, quando fez o seu último concerto em Portugal e no Teatro Maria Matos, Grouper apresentou Sleep, feito para nos embalar, hipnotizar e sussurrar ao nosso ouvido loops de voz, piano e gravações de campo. A escala, necessariamente pequena, ampliou-se desmesuradamente, e hoje há uma sala esgotada para testemunhar um dos pontos altos da criação de Liz Harris: Ruins, editado pela norte-americana Kranky há um ano. O sucesso tanto se pode explicar pelo sem número de citações que obteve na imprensa nacional e estrangeira ― foi disco internacional do ano para o jornal Público ―, como pela direta relação que a gravação do álbum teve com Portugal, mais concretamente com uma aldeia em Alzejur, enquanto aproveitou uma residência artística promovida pela Galeria Zé Dos Bois em 2011. Ruins é um documento que absorveu a vida à sua volta, registando para sempre o ambiente natural do espaço envolvente e, mais importante, o estado de alma desfeito mas em reconstrução de Liz Harris. À Fact confessa-se: “Eu estava infestada por autocomiseração e raiva. Tinha começado a processar a relação que tinha acabado dois anos antes. Estar sozinha e ao pé do mar ajudou a que isso começasse a sair de mim. Emoções acumuladas durante anos começaram a emergir. Sentia-me incapaz de estar numa relação, de encontrar amor; péssima a cuidar de alguém, com ninguém a cuidar de mim; governos a não cuidarem do seu povo, a economia mundial a cair a pique por causa de esquemas e ganância.”
Entrincheirada por sentimentos de perda e impotência, é na Costa Vicentina que encontra o cenário perfeito para a expiação, deixando a natureza e outros acidentes entrarem nas gravações das canções que iam compondo ao piano. Ainda à Fact, Liz Harris explica a sua visão de Aljezur e o seu dia-a-dia em redor desta vila algarvia: “É um local selvagem, se pensarmos nos padrões europeus. Não tem muita gente, tem alguns camponeses e muitos edifícios em ruínas. Estive sozinha durante uma semana, semana e meia. Escrevia as canções durante o dia, fazia pausas para sair de casa, para correr ou caminhar até à praia, para tirar fotos ou fazer gravações de campo. De quando em quando, tinha de caminhar muitos quilómetros até ao mercado para arranjar comida. Trabalhava nas ilustrações à noite, bebendo Porto e ouvindo os três CD que a tia do Sérgio [Hydalgo, programador da ZDB] tinha deixado na casa ― Carlos Paredes, Nina Simone ao vivo e Leonard Cohen. Algumas coisas do Cohen eram material ao vivo muito estranho. E apaixonei-me por Paredes.”
Ruins é sobre transmissões: de como certas emoções ganharam a consciência de Liz Harris, ajudando que as libertasse; ou como aquele espaço de Aljezur entrou dentro das suas canções como poucas obras conseguem. À Fader explicou como acabou por emoldurar e encapsular aquele tempo e espaço: “Pareceu-me importante assimilar o local onde a música nasceu ― ela está indissociavelmente ligada a Aljezur. Estando ao pé do mar, isolada de outras pessoas na maior parte do tempo, explorando casas antigas, tempestades que passaram por lá, tudo isto misturado com o estado mental e físico em que me encontrava é o que fez com que as canções nascessem. Saíram livremente. Quis agarrar cada canção que aparecia rapidamente para que arranjasse espaço para a seguinte. A composição é, para mim, um destapar de algo que já existe, como abrir uma porta a convidados de uma festa. É também uma questão de gestão, em que não se tem as condições ideais de trabalho-espaço, e a destreza técnica ideal que tantos problemas me causam. Nesta situação em particular, eu não tinha de pensar em nada disso: tinha uma divisão da casa para estar, um instrumento para tocar, um aparelho simples para gravar tudo.”
Ruins vive agora, impossivelmente, de um modo frágil e perene, num palco. Aproveitemos este tempo e este espaço que tão generosamente Liz Harris nos traz e partilha.
Menores de 30 anos 5€
Excecionalmente não se aceitam reservas
Sinopse
Considerado por muitos como um dos discos do ano que passou, Ruins continua a ser um dos faróis mais intensos para 2015. Porque só assim se pode encarar música que nasce da imersão em pensamentos desconfortáveis mas essenciais para a sobrevivência. Liz Harris refugiou-se em Aljezur logo depois do ambicioso disco A I A. O convite para uma residência artística partiu da Galeria Zé dos Bois, mas Liz já confessou que esta fuga para a Costa Vicentina representou um isolamento numa altura de uma profunda crise emocional que ecoava o mergulho mais vasto do mundo noutro tipo de crise que principiou no impossivelmente distante ano de 2011. As ruínas mencionadas no título do trabalho que resultou desse período de isolamento ― canções de piano, voz e ruídos de máquinas, grilos, sapos… ― são as ruínas das memórias, das emoções, mas também da história que tudo faz desabar. Neste regresso a Lisboa, pela mão da Galeria Zé dos Bois e do Teatro Maria Matos, Liz Harris apresenta um concerto único na sua tournée. Apenas munida de piano, guitarra e fitas pré-gravadas, trar-nos-á não só as canções de Ruins, mas também um desejo de futuro materializado em novas composições que seremos os primeiros a ouvir.