Tudo Bumbo
Folha de Sala
A cruzar uma década de atividade imparável e indissociável de muita da música mais urgente e simultaneamente perene a acontecer neste país, Gabriel Ferrandini atinge um novo patamar particularmente decisivo na cristalização da sua linguagem com a apresentação de Tudo Bumbo no Teatro Maria Matos. O desafio limite e sem rede do solo de bateria. Ato de bravura e convicção para onde convergem na sua forma mais franca e idiossincrática todas as linhas que têm traçado este fascinante enredo ainda muito longe de se esgotar, e cujas marcas estão já profundamente enraizadas no tecido cultural das músicas mais livres. Não tanto um rito de passagem, mas antes uma cápsula fidedigna e em tempo real daquele que é hoje um dos bateristas mais justamente reverenciados do panorama do jazz e da música improvisada em solo europeu,
Nascido em Monterey na Califórnia em 1986 e com residência por entre o Estoril e Lisboa desde os 11 anos de idade, Ferrandini despertou para o jazz ainda extremamente jovem, naquele período de aglutinação voraz típico da adolescência, de onde emergiu desde logo um fascínio pela bateria. Num processo orgânico de descoberta, passou daquelas primeiras impressões tácitas em conluio com amigos para a escola do Hot Clube, onde aprofundou os conhecimentos em torno do jazz e da música improvisada, numa procura incessante pela história e pelo espírito que é ainda hoje fio condutor primordial para uma cartografia em expansão.
Num ato contínuo com essa demanda, a submergir na realidade circundante após abandonar o Hot Clube, é nesse cluster criativo fervilhante que foi a entretanto desaparecida Trem Azul ― loja de importância fulcral na disseminação do jazz associada à editora Clean Feed ― que se dá um importantíssimo passo na sua definição, através de uma rede de ligações e partilha que origina bandas como o RED Trio ― com o contrabaixista Hernani Faustino e o pianista Rodrigo Pinheiro ― e o Rodrigo Amado Motion Trio ― com o saxofonista Rodrigo Amado e o violoncelista Miguel Mira. Duas formações fundamentais no panorama jazzístico deste século em solo europeu, que foram para muitos aquele primeiro abalo perante o rigor, criatividade e entrega do baterista.
Paralelamente tem também cimentado uma forte relação com o saxofonista Pedro Sousa, cuja ação em inúmeros concertos aguarda edição de um álbum em duo, e deixou já registados para a posteridade álbuns com Thurston Moore ― Live at ZDB ― e com Johan Berthling ― Casa Futuro. Ramificações que se estendem numa complexa narrativa de colaborações com nomes tão ilustres quanto John Butcher, Rob Mazurek, Nate Wooley, Arthur Doyle ou Jeb Bishop e em projetos como Caveira ou no celebrado trio que mantém com David Maranha e Alex Zhang Hungtai, que inflamou palcos durante uma digressão europeia no ano transato e que se estreou no palco do Teatro Maria Matos.
Ano de afirmação plena, encetada em todo este arco narrativo que vimos a acompanhar desde o início e onde explorou com maior afinco a composição numa residência inusitada na Galeria Zé dos Bois que chamou de Volúpia das Cinzas. Etapa de um work in progress constante que tem vindo amiúde a revelar-se também a solo, com pontuais aparições sempre pertinentes a perspetivar uma visão cada vez mais panorâmica, em que uma notável gestão de silêncios e respirações coabita com o impulso e o instinto, num desafio aos limites harmónicos, texturais e rítmicos do instrumento. Com recurso a inúmeras peças de percussão e ao uso de amplificação elétrica, Ferrandini recolhe-se num espaço só seu em busca do som enquanto matéria moldável de valência e lirismo absolutos, no qual cada elemento assume a sua identidade num chamamento comunal ― “todo mundo”, como costuma dizer.
Bruno Silva, músico
Sinopse
O acontecimento deixou de ser local há muito tempo. Nos últimos anos, Gabriel Ferrandini foi conquistando o círculo exterior à nossa cena, mostrando-nos que havia razão quando a sua arte nos impressionava e parecia prometer mundos à sua determinação. Aos poucos, com RED Trio ou o Motion Trio de Rodrigo Amado, citando apenas as formações mais antigas e estáveis, temos vindo a habituar-nos a ouvir a sua percussão cada vez mais fulminante e decisiva, ancorando firmemente toda a improvisação que à sua volta gravitava. Mas o verdadeiro sucesso da sua impressionante mas ainda curta carreira não se mede apenas pelo alcance das suas ondas de choque: é precisamente no epicentro da sua atividade, na cidade de Lisboa, que vamos testemunhando com interessada curiosidade a progressão das suas ideias. Em 2016, Gabriel Ferrandini assumiu o desafio da composição, prometendo-nos para breve o resultado de um ano de trabalho intenso nas várias Volúpias que realizou durante a residência na Galeria Zé dos Bois. Com todo este processo concluído, Ferrandini volta a recolher-se, questionando e recalibrando todos os seus mecanismos de ligação à música. Tudo Bumbo é, por isso, um exercício solitário, um raro solo contaminado pela pesquisa e por uma profunda audição atenta. Promete-nos volume, sons sem notas, jazz e rock rejeitados, harmónicos revelados, um espaço vazio preenchido por drumming total e um trabalho iluminado pela arte de António Júlio Duarte. Gabriel Ferrandini irá dar-nos muitas repostas nesta noite, mas esperem o vosso corpo agitado por uma avalanche de novas questões.