Last Train To God Knows Where
Bios
Gabriel Ferrandini tem já o seu nome inscrito no jazz português. Em poucos anos, tornou-se um baterista de mérito e currículo reconhecido, em Portugal e no estrangeiro. Talvez seja nos RED Trio que tenha o seu papel mais visível, mas seria injusto desligá-lo de outros projetos como o quarteto Wire ou o Motion Trio (ambos de Rodrigo Amado) ou nas múltiplas aventuras ocasionais que vai tendo na cena jazz e experimental.
David Maranha terá em 2014 um dos seus melhores anos no que respeita a concertos. Um feito incrível para quem tem uma carreira em permanente agitação desde o final dos anos 80 com os míticos e ainda ativos Osso Exótico. A sua linguagem, feita de um equilíbrio perfeito entre improvisação e composição espontânea, em órgão ou violino, tem servido para se ligar a muitos músicos e projetos, nacionais e internacionais, criando relações especiais com Gerard Lebik, Will Guthrie ou Helena Espvall, por exemplo. Inaugurou e alimentou o espaço Cave, onde o trio desta noite nasceu.
Alex Zhang Hungtai é mais conhecido por ser o líder dos Dirty Beaches, embora o projeto que tem desde 2005 tenho tido um fim anunciado no final de outubro. Enquanto Badlands (2011) é o álbum que lançou os Dirty Beaches para dentro de um género retro-rock ácido, posteriores trabalhos como Water Park ou Love Is The Devil mostraram uma maior aproximação experimental à eletrónica, improvisação e ambientalismo — tal como o concerto no Teatro Maria Matos em abril deste ano tão bem provou. Stateless, recentemente editado ainda como Dirty Beaches, é a fantástica prova que o futuro da sua música está totalmente em aberto e não podia ser mais entusiasmante.
Folha de Sala
No dia 9 de setembro deste ano, Alex Zhang Hungtai anunciava no Twitter que tinha acabado de fazer uma versão de John Coltrane com Gabriel Ferrandini e David Maranha. Para quem segue a cena musical lisboeta de perto, isto era uma notícia tão surpreendente quanto intrigante. Alex tinha sido convidado para entrar num documentário feito entre a mítica editora de jazz Blue Note e o site de vídeos Blogothèque. O resultado, que estará disponível em breve, saiu de uma cave da Avenida da Liberdade que tem servido de espaço espontâneo de criação musical e sonora, e onde Alex Zhang Hungtai tem despido a sua pele Dirty Beaches para mostrar outras ideias. Entretanto, a Cave, cumprindo o seu desígnio underground temporário, encerrou de vez; e o mesmo aconteceu ao projeto Dirty Beaches.
Tornou-se então importante explorar e expandir o que o trio fizera neste verão em Lisboa, deixando de certo modo para trás as intenções originais do encontro, procurando trazer a energia para outras ideias. De facto, a música de Coltrane raramente existe entre os três músicos, pois a exploração do Blue Train — álbum de 1957 — incidiu no poder da sua música e na energia da sua improvisação. No fundo, um ponto de partida para novos voos e novos diálogos. O que tornou fácil que houvesse interesse em prolongar a experiência fora do território de Coltrane, embora, qual fantasma premonitório, se espere que esteja sempre presente.
E porque a experiência é explosiva e é necessário que todos nós consigamos sentir a deslocação de ar e os eventuais estilhaços, imaginou-se um sistema solar com Gabriel Ferrandini no centro, impondo a vertigem necessária para que David Maranha serpenteie em órgão superamplificado e Alex Zhang Hungtai imprima o grito. Tudo isto no centro do nosso palco, transformado em local para receber o olho do furacão, com o público à volta, agarrado ao chão para melhor combatermos a gravidade. O que se possa passar entre as intenções e o resultado final mora apenas no domínio da especulação: está tudo em aberto por convicção e necessidade, até porque uma tempestade raramente aflige o mesmo local duas vezes.
Menores de 30 anos 5€
Sinopse
A convite da mítica editora de jazz norte-americana Blue Note, Gabriel Ferrandini (baterista nos RED Trio), David Maranha (Osso Exótico) e Alex Zhang Hungtai (frontman dos Dirty Beaches) prestaram um tributo livre à obra-prima Blue Train, deixando que a energia libertadora do jazz de John Coltrane tomasse conta dos seus corpos e instrumentos. Uma colaboração espontânea e surpreendente que os músicos explicam assim: “Estamos em 2014: Lisboa e o mundo moderno permite que inesperadas colaborações e amizades floresçam. Já não estamos circunscritos por limites geográficos, ideias ou experiências musicais e pessoais. Ainda há quem esteja manietado pelas restrições do velho mundo algures neste planeta, mas nós, felizmente, não fazemos parte desse grupo. Então, descontraiam-se um pouco e vivam um pouco mais. Dêem mais. Amem mais. Talvez alguns de nós acabem por se definir pela revolta contra a gaveta ou categoria unidimensional em que a sociedade nos quer colocar: qual é a vossa religião, a vossa orientação sexual, qual é a vossa raça, comportem-se conforme a idade que têm, de onde são, quantos $$$ fazem, que tipo de música tocam, têm bom gosto, têm péssimo gosto, quem é o vosso pai e a vossa mãe, vocês são pobres, vocês são ricos, quem são vocês e o que fazem?”
A homenagem a Coltrane ficou fechada num documentário, mas hoje vamos mostrar o que dele nasceu: como convém, em carne e osso, com público e músicos no mesmo plano, como um todo, convocando uma proximidade que raramente temos na nossa sala. Uma estreia de algo que, muito possivelmente, se tornará única e irrepetível. Ou como eles nos lançam o repto, “este trio é uma das muitas coisas que nós os três iremos fazer ou tentar fazer na nossa vida. Juntem-se a nós neste momento”.