Três Sombras Para Um Cego
Sinopse
“É música profundamente lírica, mesmo que sem palavras; é música totalmente física e nua (um homem, uma guitarra eléctrica, um amplificador e o espaço entre eles). Quando Filipe constrói frases mais abertamente blues, é para as estilhaçar de seguida.”
No trabalho musical de Filipe Felizardo, tanto em disco como ao vivo, tem-se sentido um ato contínuo de busca, como se houvesse uma interrogação autoimposta a que interessa urgentemente responder. Esta perscrutação, trazida pela sua prática nas artes visuais, integra uma metodologia sonora hiperorganizada, deixando-nos crer que qualquer hipótese é sempre verificada e aceite além de qualquer dúvida.
Durante muito tempo, e tal como exposto nas obras Övöo e lII=207.8°, bII=−56.3°, Felizardo perseguiu implacavelmente o drone nas guitarras elétricas, fascinando-o toda a sua tensão (e emoção) manipulável. Esse conhecimento cada vez maior do drone e do sustain ― que sempre ouvira na génese dos blues ou na música de John Fahey e Max Ochs ― leva-o a perceber que também o riff pode abarcar semelhantes qualidades. Felizardo conclui que tudo deriva de um só ponto, numa espécie de genealogia abrangente da guitarra, seja a tormenta pacífica do drone ou a transparência classicista das suas composições na obra mais recente Guitar soli for the Moa and the Frog ― de 2012, a sua primeira edição oficial, e sobre a qual a revista The Wire escreveu que “afastando-se dos efeitos, a ligação de Felizardo aos blues torna-se clara”.
Para esta nova peça, em estreia e em resposta a um desafio do Teatro Maria Matos, Filipe Felizardo aperfeiçoa a sua metodologia inquisitiva partilhando-a com Margarida Garcia e Riccardo Dillon Wanke. Juntos propõem-se jogar entre tempo, textura e volume, enquanto colhem semelhanças e incongruências com os timbres dos seus instrumentos.