Pedro Gil e Tonan Quito
Folha de Sala
AQUELA QUE NADA DE ERRADO FEZ
A NÃO SER MORRER
1 de novembro de 1755.
A maré atrasara-se duas horas naquela noite. Sem explicação.
O sábado estava quente para novembro. Catorze graus acompanhados de um vento fraco de noroeste. Já se preparava o banquete que demoraria 12 horas e celebraria os mortos e os noivos sentados a uma mesma mesa.
Servir-se-ia o primeiro prato com a décima badalada do sino da Sé e respeitar-se-ia o ritmo de quatro digestões por convidado. A cada digestão, o germinar de um novo segredo.
No estômago.
Os preparativos desenrolavam-se há já 3 dias, no centro da cidade, e agora todos saíam para um pequeno passeio antes da cerimónia, 99 passos pela longevidade. Todos menos ela, que regressava apressada, para apanhar a coroa e espreitar o banquete.
Abre a porta de rompante para logo a fechar atrás de si, respira fundo encostada à porta, avança rápida pelo corredor mas interrompe a corrida para se apoiar num banco. Uma vertigem, uma ligeira náusea perturba-lhe os sentidos e ela perde, por brevíssimos momentos, o equilíbrio.
Como se o mundo se tivesse movido ligeiramente debaixo dos seus pés. Como se necessitasse de reequilibrar o seu peso sobre ele. Sobre os mundos, o dela e o que se passava lá fora. Ajustar as várias realidades. É demasiada ansiedade, pensou, está quase. Chega à cozinha e olha, num momento de absoluta calma, para a beleza do banquete que se prepara, os pratos de sementes, a sopa de flores, o mel, o azeite, as taças do vinho. Parece-lhe pouco para a fome que tem. Os nervos abriram-me um buraco na barriga, pensa. Pousa a sua boneca de madeira sobre a mesa e rouba um gomo de tangerina envolto numa calda de mel e pimenta que decora um prato. Saboreia-o. Um sorriso. Rouba um cantinho de uma fatia de queijo que depois esconde por baixo das restantes, e alcança um cacho para lhe arrancar uma uva sem desfazer a bela apresentação.
Um novo mas curto tremor repete-se. Um novo enjoo, uma violenta mas breve dor de cabeça. Apoia-se com os dois braços numa cadeira quando se dá um terceiro e potente abalo. A terra ronca por um interminável minuto. Os candelabros da casa abanam e as velas, acesas, caem.
O primeiro instinto é fugir, evitar o fogo e chegar até à saída, mas no preciso momento em que agarra com uma mão a maçaneta da porta e com a outra os metros de linho branco da sua longa saia que lhe atrasam o passo, dois estranhos batem à porta com força. Precisam de falar com ela com urgência.
Ela receia, procura outra saída para um pátio interior mas um quarto abalo rasga a cozinha em dois fazendo avançar o banquete por baixo dos seus pés, mergulhando por estreitas galerias romanas, túneis abobadados em arcos de proporções rigorosas e avenidas de lençóis freáticos.
Os dois estranhos continuam a bater à porta.
Lá fora, a água, o fogo e um tremor prolongado alargam o corredor subterrâneo e destroem o quarteirão que está por cima. Lá dentro, nas entranhas da cidade, o estômago da casa serve, delicioso, o Banquete. E um silêncio cheio de pratos: líquidos, gasosos. Terrestres.
Nada se encontra debaixo de terra que não tenha lá sido deixado para ser descoberto.
Um abalo fatal arrasa a cidade e faz-se sentir por muita terra e por muito mar. Dos convidados do casamento, todos sobrevivem, menos ela.
Ou terá sido o contrário?
Menores 30 anos: 5€
Sinopse
“De quão pouco precisamos para destruir a vida que temos? De quanto precisamos para mudar? De quão pouco é preciso acontecer para nos transformarmos noutra pessoa?”
O Banquete, Patrícia Portela
Fausta nasce do desafio lançado pelos atores Pedro Gil e Tonan Quito à escritora Patrícia Portela. O espetáculo tem como ponto de partida o mais recente romance da autora, O Banquete, editado pela Caminho. A partir de uma seleção de excertos do livro, pretende-se reescrever a história de uma Fausta e das suas trocas diárias de almas.
Em Fausta, o público reúne-se para ouvir uma mulher que narra a sua vida depois de morta na voz de dois homens. “Para desvendar todos os segredos, precisamos de reunir a história toda, as histórias todas… deste corpo que comporta muitos tempos.” Esta é a autópsia de uma narrativa póstuma à procura de um todo impossível.