Anabela Almeida e Sara Duarte
Folha de Sala
Este espetáculo é uma conferência. Uma conferência é um encontro de pessoas que se reúnem para debater um assunto. O assunto que nos propusemos debater nesta sessão é o da história única. O que é uma história única? Como o próprio nome indica uma história única é o único relato que consideramos como certo ou como sendo a única possibilidade. O relato de um acontecimento, por exemplo, pode ser diferente em função de quem o vê ou o vive e por isso pode produzir diferentes relatos e histórias. Claro que tudo isto pode acontecer no contexto real ou ficcional. Uma história que podendo ser ou não real, tantas vezes é contada e ouvida que se torna uma história definitiva, única portanto. Para explicarmos melhor esta nossa ideia pensámos apresentar um pouco das nossas vidas, ou melhor, explicar-vos quais as histórias que fomos construindo e ouvindo sobre as nossas vidas, sobre a vida de cada uma de nós, que quase se tornaram uma profecia.
Uma profecia quer dizer uma predição, é prever uma coisa antes de ela acontecer. É fazer uma antevisão dos acontecimentos futuros. Às vezes, estas previsões têm muito peso, são uma espécie de marca ou sinal que transportamos connosco. São a nossa história única, que podemos reescrever, ou não.
“A história que estava prevista para mim não aconteceu. Vivi outra história: mudei-me para Portugal quando aconteceu o 25 de Abril, não estudei direito em Coimbra, não casei, não tenho filhos. Mas outras histórias aconteceram: fiz um curso de línguas e literaturas modernas, fiz um curso de teatro, sou tia e tive um namorado chamado João. Tive de fazer escolhas.”
“Escolhi algumas coisas. Estudei psicologia e teatro, queria voar e voei, sou mãe, e agora tenho um barco onde cabemos os quatro. Tenho muitas cartas de navegação, já posso velejar para longe, talvez mesmo até aos mares do sul.”
Será que as histórias que nos contam sobre nós nos deixam uma marca? Será que tudo o que ouvimos dos nossos pais e família sobre o que queríamos ou fazíamos quando eramos mais pequenos influenciou o que somos ou queremos fazer agora?
Que histórias eram?
O que estava previsto para cada um de nós de acordo com essas histórias?
Há alguma relação entre essas histórias e o que pensas agora?
O que é que mudou?
O que querias ou dizias que querias ser quando crescesses? Ainda te lembras?
Há pessoas que acham que sabem o que vai acontecer a seguir. Há pessoas que não sabem se querem saber o que vai acontecer a seguir. E há quem não queira saber de nada. E tu?
Se pudesses desenhar o teu futuro e o futuro do teu país que futuro desenharias?
A ideia deste espetáculo surgiu da nossa perplexidade perante a constante categorização e rotulagem a que estamos sujeitos no nosso dia-a-dia e de como isso é limitador e criador de discriminação. Sabemos que este processo é humano, universal e expectável, mas tem de ser sempre assim? Ou ainda, hoje, na mesma forma como ontem?
O que os outros veem em nós pode ser matéria de sonho e liberdade, daquela que faz com que se cresça com várias possibilidades, ou não.
Lista de possíveis futuros: agente de viagens, alfaiate, alinhadora de pneus (alguém responsável pelo alinhamento do eixo e balanceamento dos pneus dos carros, alguém que faz o alinhamento da direção), antiquária, arquivista, astróloga, barbeira, biscoiteira, carpinteira, cantora, calafetadora (alguém que calafeta, ou seja, tapa fendas ou buracos para impedir a entrada de ar ou água; pode calafetar as juntas dos navios, as aduelas das portas para o frio não entrar, etc), cineasta, chapeleira, chaveira, chocolateira, compoteira, diretora geral, editora de livros, editora de jornais, editora de revistas, encadernadora, estofadora, forjadora (alguém que trabalha o ferro, também é alguém que prepara ou inventa qualquer coisa), fotografa, fotógrafa aérea, fotografa submarina, física, guia de turismo, gravadora de carimbos, geógrafa, contadora de histórias, instaladora de painéis solares, jardineira, jornalista, livreira, mágica, mergulhadora, meteorologista, patinadora, relojoeira, radiologista, serigrafista, silvicultora, surfista, tatuadora, topógrafa, tosquiadora, trompetista, etc.
Sinopse
O que acontece se ouvirmos uma história, sempre a mesma, sobre uma pessoa, um povo, um lugar? E se a ouvirmos outra e outra e outra vez? Sempre a mesma. Essa história passa a ser a única história que se conhece, tornando-se numa história definitiva. A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie numa conferência Ted Talk chama a atenção para as histórias únicas que negligenciam todas as outras narrativas que constituem um lugar ou uma pessoa. Esta narrativa única torna a experiência superficial, transforma a realidade em estereótipos e reforça as relações de poder existentes em determinada sociedade.
Pretendemos na nossa comunicação repor o equilíbrio das histórias, contando histórias. Na descoberta das muitas narrativas, afastamo-nos do “perigo da história única”, já que um relacionamento justo e digno com os outros e com os seus lugares só é possível, quando possuímos o conhecimento das múltiplas narrativas que os constituem.