Opostos Bem-Dispostos / Refresco Dançante
Folha de Sala
Opostos Redispostos
O convite da Joana Providência para escrever um texto em torno dos contrastes deixou-me bem-disposto. Comecei pelo título. Intitular um texto que ainda não existe é como dar o nome a uma pessoa que ainda não nasceu. Será? Havia mais nomes, mas ficou este.
Espreitei nos livros e na realidade a vida dos casais, dos passos diários, dos sonhos adiados, dos desejos recalcados, dos planos realizados, das reações involuntárias, dos sucessos festejados, das preocupações inevitáveis, dos momentos especiais, das discussões ambientais, dos berros contidos, dos silêncios gritantes. Se parte de mim pensava na música, outra parte pensava na culinária, outra parte ainda, na astronomia. E nas ciências puras, aplicadas, humanas. E na natureza. E nas cidades. E na linguagem.
Na primeira versão as palavras viviam demasiadamente por si e para si mesmas. Reescrevi e depois de ter assistido a um ensaio, surgiu a versão final.
Escrever não é fazer tiro ao alvo, não é acertar num texto “que já está lá”. Escrever é feito de avanços e recuos, previsões e imprevistos, decisões e descobertas. Escrever, parar, ler, reler, pesquisar, reescrever, corrigir, adaptar, eliminar. Na escrita, facilidade rima com dificuldade.
Somos, ao mesmo tempo, privilegiados e condicionados pelo uso da linguagem. Entre o som e o sentido, ora somos prisioneiros, ora se nos soltam as asas. E como comunicar ultrapassa o uso da linguagem convencional, ainda maiores são as hipóteses de jogo. Escrevi mais do que o texto dito pelas personagens. Ramificações que traziam outros assuntos. Fiz o texto como um armazém ou uma despensa: Com mais provisões do que as necessárias ao tempo disponível para confecionar e dar a comer a refeição. Palavras como os nomes Dudu e Lili surgiram na boca dos atores. Foram ficando. Adotei-os.
Na minha cabeça. Se pensava “Ela tem de dizer isto”, também pensava “Ele pode dizer aquilo mas Ela também pode dizer assim e Ele também pode dizer assado”. Interessou-me muitas vezes mais a voz masculina ou feminina, por exemplo, do que a imagem social de homem ou mulher. O que não quer dizer que esta imagem não esteja lá. Pareceu importante perguntar: Porque há-de ser ele a comprar o jornal? Porque é que é deve ser ela a servir o pequeno-almoço?
Em vez de pendurar clichés, acariciar estereótipos ou arremessar arquétipos, interessa-me mais, agora como espetador, a ideia séria de brincar com a peça. Como brinquei com o texto. Uma peça de teatro é um brinquedo, um jogo complexo. Sem instruções de uso a não ser desligar os telemóveis à entrada, manter a atenção, etc. Sem prazo de validade, a não ser na agenda e na memória.
Quando era mais novo, ao sair do cinema, não gostava de falar do filme. O que dizia era sempre menos do que o que pensava e o que pensava era sempre menos do que o que sentia. Toda a gente sente com prazer a brisa do Outono. Mas muito pouca gente saberá explicar a brisa em termos científicos. Saber qualquer coisa inclui o que não se entende dela. Importa não dissimular o equívoco, o enigma, o paradoxo. Não explicar tudo, não facilitar em tudo. Cultivar a estranheza, o espanto, a curiosidade, a inquietação que motiva as perguntas. Perguntas que podem fazer a diferença se forem transformadas noutras e noutras, mantendo-nos ligados, a nós próprios e aos outros.
ER, Porto, Setembro de 2013
Sinopse
TEATRO
Joana Providência
Opostos bem-dispostos
Duração 45 min
Joana Providência, que já conhece o jardim do nosso bairro, regressa a ele neste dia de fim de verão com uma casa sobre rodas que traz dentro histórias de opostos que se querem bem-dispostos.
“Ele diz coisas tão magras, tão magras, que ela quase morre de fome ao ouvi-lo. Ela espera herdar uma fortuna e pêras, ele encolhe os ombros e come maçãs. Ela arregala, volta e meia, os olhos, ele responde com os olhos em bico. Se ele é meio alegre em tempo de tristeza, ela chora de riso até mais. Ela encara sempre as coisas de frente, ele vê sempre as coisas pelo outro lado. Ele é assim e assado e ela não é nada disso. Enquanto ela anda facilmente de costas pela casa, ele mexe-se como se levasse a casa às costas. Enquanto ele procura não ser como ela, ela encontra forma de evitar ser como ele.”
Eugénio Roda in Contra Dizeres
DANÇA
Refresco dançante
Ainda mais bem-dispostos ficaremos de seguida, porque a festa continua pelo jardim fora com uma orquestra de sopros, um coro, bailarinos que nos convidam para um pé de dança e refrescos para todos.
