António MV, José Capela, Rute Carlos e Alunos da Escola Artística António Arroio
as 3 ecologias
Folha de Sala
Virámos o Teatro Maria Matos do avesso. Em vez de começar na entrada, damos meia volta e entramos pelos fundos. Acompanhadas pelos pais (esta é uma experiência para todos) as crianças dão a volta ao teatro e entram pela porta das cargas e descargas, por onde habitualmente entram os cenários, os adereços, o equipamento técnico… é aí que começa O Dia do Rédimeide, um percurso interativo que vai revelando novos usos dos espaços deste teatro: o sub-palco, o palco, e o “avançado”, que é o mesmo que dizer por cima das cadeiras da plateia! E depois, no fim, vamos todos parar à entrada onde existem as oficinas António Arroio: no foyer e nos camarins. Já nos esquecíamos: quem quiser ir espreitar o que se passa dentro da sala principal pode sempre ir lá a cima ao balcão – hoje está aberto a quem for curioso!
PERCURSO RÉDIMEIDE
sub-palco, palco e avançado
entrada a cada meia hora pelas traseiras do mm
António MV, José Capela e Rute Carlos
O rédimeide faz 100 anos.
Há 100 anos, houve artistas que começaram a fazer obras de arte com coisas que já existiam. Em vez de fazerem tudo de novo com as suas próprias mãos, usaram objetos já feitos, muitas vezes feitos em fábricas. Se os objetos feitos com máquinas já estavam por toda a parte, porque não haveriam os artistas de os utilizar nas suas obras de arte? Readymade (que se lê rédimeide) é uma palavra em inglês que significa “já feito”, e é isso que se chama a essas obras de arte do tempo das coisas feitas em fábricas, de maravilhosa preguiça e cheias de sentido de oportunidade.
O mais famoso readymade de toda a História é um urinol e chama-se Fonte. Em vez de ser fixo a uma parede, foi deitado sobre uma base, como se costuma fazer às esculturas nas galerias e nos museus, para ser exposto sem cumprir a sua função de urinol. Há 100 anos, quando foi levado para uma exposição em Nova Iorque, foi tão escandaloso que acabou por não ser exposto e desapareceu. Só sabemos como era porque alguém lhe tirou uma fotografia que chegou até nós. E, no meio desta história, também não é muito claro quem terá sido o artista autor da obra – o artista que resolveu fazer do urinol uma obra de arte. Até há pouco tempo, toda a gente achava que esse artista era Marcel Duchamp, mas agora descobriu-se que pode não ser. Descobriu-se que, numa carta que escreveu a uma irmã, Duchamp se refere ao urinol como sendo a obra de uma amiga e é provável que essa amiga seja a Baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven, uma artista indecorosa que já fazia obras de arte readymade antes dele. Portanto, pode estar tudo errado na história de Fonte, que é considerado o mais importante readymade e a mais importante obra de arte do século XX.
O readymade é uma espécie de reciclagem. Como disse Bruno Munari, “das coisas nascem coisas”. Os artistas começaram a fazer obras readymade com objetos; depois os músicos fizeram o mesmo com sons que podemos ouvir todos os dias, e os escritores com textos… O nosso rédimeide – o do dia do rédimeide – é feito com o edifício do Teatro Maria Matos. Um teatro é uma máquina. Tem uma determinada maneira de funcionar. O público senta-se na plateia ou no balcão para ver espetáculos através de uma grande janela aberta para o palco. Por cima do palco, há um espaço vazio de onde muitas coisas podem ser descidas e aparecer perante o público, ou para onde podem ser içadas e desaparecer. Sob o palco há outro espaço que também serve para fazer esses truques. O que propomos são duas coisas. Uma é usar os espaços que pertencem a essa máquina chamada “teatro” de um modo que não é o habitual. Inventar usos, que se sucedem uns a seguir aos outros, num percurso. A outra é usar esses usos para fazer outras coisas: coisas rédimeide. Mas isso não vamos contar aqui. Deem a volta ao teatro, entrem pela porta das cargas e descargas, e cá vos esperamos.
António MV, José Capela e Rute Carlos
OFICINAS ANTÓNIO ARROIO
foyer e camarins
Alunos da turma 12º G, Curso de Produção Artística, especialização em Realização Plástica do Espetáculo da Escola Artística António Arroio.
Camarim 1
(s/título), Ana Isabel Santos
Esta peça parte do problema da extinção de espécies animais e tem como objetivo criar empatia com o meio natural.
Sem Título, Ana Rita Patornilho
Um traje de cena feito de meios de difusão de informação que proporciona uma experiência lúdica, de construção e manipulação, a crianças e adultos.
Camarim 2
Sem Tempo, Bárbara Bráz
A nossa necessidade intensa de consumo resulta numa quantidade inimaginável de recursos desperdiçados. Neste jogo, as crianças desenham sobre suportes inicialmente vistos como descartáveis, deixando a questão: o que é verdadeiramente o lixo?
Urgentemente, Beatriz Roque
Aqui sensibiliza-se as crianças para a deterioração das florestas, convidando-as a desenhar o que falta nos espaços, e a pensar sobre o porquê desse vazio e a importância da intervenção.
Camarim 3
As Barriguinhas, Constança Araújo
Uma barriga que incha, um planeta que é um bebé a cuidar.
Mercearia de Ideias, Diogo Sousa
Neste espaço partilhado, as crianças são convidadas a reutilizar materiais e encontrar novas soluções de interpretar o mundo, a brincar!
Camarim 4
O Não-Casulo, Inês Garcias
Partindo da ideia de isolamento, associada à tecnologia, é apresentado um casulo onde, por oposição, se exploram sensações e a interação.
Ações e Reflexões, Inês Almeida
A mão é representativa da ação humana, semeia a destruição mas também evoca a marca, convidando à mancha, à cor, ao percurso.
Pegadas Extintas, Maria Galhardas
Neste projeto, os participantes são convidados a criar animais híbridos a partir de espécies extintas.
Corredor
Marionetas, Bruno Pilar
Partindo de dois dos vícios mais frequentes do dia-a-dia das crianças, a fast food e a tecnologia, estas marionetas abordam esses hábitos de modo a criar uma nova perspetiva, apelando à imaginação e à criação de personagens.
Um Manto Respigador, Constança Villaverde Rosado
Um contador da história do mundo em cinco partes diferentes, um manto respigado e uma terra que renasce. Procuram-se todas as mãos para ajudar a mudar o mundo.
Mergulho, Inês Sachim
O público é convidado a imergir num oceano artificial onde, através de emoções e sensações se descobrem as matérias que poluem as águas.
Sinopse
Neste dia o Teatro Maria Matos é todo das crianças. A partir da articulação entre as três ecologias: pessoal, social e ambiental, desafiámos a Escola Artística António Arroio e três artistas, António MV, José Capela e Rute Carlos, a intervir nos espaços do teatro, reinventando o edifício e as suas funções através de um projeto de instalações onde se podem desenvolver diferentes relações de interatividade, criando uma relação mais justa com a natureza. Vão deixar de ser apenas tradicionais espectadores e irão passar a ser “experimentadores ativos” e, claro, também “brincadores”.
Há 3 ecologias. E há REutilizar, REciclar, REduzir. RE, RE, RE. E nós também somos 3: o António, o Capela e a Rute. Bate tudo certo. Para falar de tudo isto, vamos dar outros usos, não habituais, aos espaços do teatro. REinventar utilizações. Vamos instalar mecanismos para que a ecologia se torne uma diversão. Vamos usar o edifício como um readymade (que também começa por RE e se lê “rédimeide”). Sabes o que é um readymade?
António MV, José Capela, Rute Carlos
Motivados pelos desafios ecológicos do mundo contemporâneo, juntaram-se a nós os alunos do 12.ºG da especialização em Realização Plástica do Espetáculo da Escola Artística António Arroio. Durante dois meses trabalharam na criação de um ambiente cenográfico para um espaço específico do teatro, onde as crianças são estimuladas a convocar as suas capacidades físicas e criativas para explorar diferentes ideias de sustentabilidade ambiental. A coordenação do projeto ficou a cargo dos professores Carla Rosa, Isabel Moniz, João Gonçalves e Hélder Castro.

